Com Cavalo de Tróia e duelo entre Medusas e Guerreiras, bloco da Barra do Jucu completa 40 anos revelando sátira sobre a sucessão estadual de 2026 A surpresa foi revelada, mas o desfecho ainda é mistério. O tradicional Bloco Surpresa, que em 2026 celebra quatro décadas de irreverência, transformou as ruas da Barra do Jucu num palco a céu aberto sobre a corrida eleitoral ao Governo do Espírito Santo em 2026, disputa que promete ser uma das mais emblemáticas em cerca de 30 anos. O enredo “No Reino Barrense, a Coroa é do Povo” trouxe, nesse domingo (15) para a avenida um imponente Cavalo de Tróia – “presente de grego” para o governador Renato Casagrande – e um castelo cenográfico que representa a sede do governo capixaba. Nesse castelo, os soldados Arnaldinho Borgo, Lorenzo Pazolini, Ricardo Ferraço e Helder Salomão estão prontos para tentar tomar o posto do rei (Casagrande). A encenação, que faz parte do DNA de sátira do bloco, responsável por ironizar figuras como FHC e Bill Clinton no passado, dividiu o desfile em duas alas estratégicas. De um lado, as Medusas, postadas à frente do castelo com a missão de petrificar os invasores e defender o Reino. Do outro, as Guerreiras, que desembarcaram do Cavalo de Tróia para surrupiar o palácio. Um dos momentos mais emblemáticos foi a participação de Mauro do Castelo, figura folclórica e proprietário do castelo que é ponto turístico da Barra do Jucu. Mauro desfilou sobre o Cavalo de Tróia, unindo a realidade do balneário à ficção política do enredo. O veredito final sobre quem ficará com a coroa – se o Rei manterá ou perderá o Reino – será conhecido no desfile de terça-feira (17). Coordenador-geral do Bloco Surpresa, Carlos Magno Receputi reforça o propósito da festa como um projeto comunitário que preserva raízes e exalta a cultura de Vila Velha e do Espírito Santo. “E nós sempre tivemos a característica de alfinetar a política com irreverência, humor e perspicácia”, registra. O CarnaBarra 2026 envolve 400 profissionais diretos, entre produtores, artesãos, artistas e comunicadores. Com investimento de R$ 500 mil – patrocínio da Kurumá Toyota por meio da Lei de Incentivo à Cultura Capixaba (LICC) -, a folia apresenta estrutura de primeira: posto médico, banheiro químico, área kids, feira gastronômica e muito mais. O Carnaval da Barra conta ainda com o apoio da Prefeitura de Vila Velha, da Secretaria de Estado da Cultura (Secult-ES) e do Governo do ES. Quatro décadas de história e irreverência A história do Bloco Surpresa começou em 1986, quando um grupo de amigos decidiu resgatar a tradição dos antigos mascarados. Naquela época, os foliões se escondiam na restinga de Jacarenema para se fantasiar longe de olhares curiosos, surgindo de surpresa na avenida. O que começou como uma brincadeira comunitária logo se transformou em um teatro carnavalesco de peso. Ao longo de 40 anos, o bloco imortalizou episódios folclóricos da Barra do Jucu, como o “Ônibus do Desarranjo”, inspirado em uma excursão acidentada, e o “Monstro Marinho”, baseado em relatos de pescadores locais de que uma criatura teria invadido o balneário. A criatividade do grupo não conheceu fronteiras: o Surpresa já satirizou desde figuras locais até FHC o ex-presidente americano Bill Clinton, desfile que rendeu ao bloco uma transmissão ao vivo no programa Fantástico, da Rede Globo. Na verdade, ninguém escapou das marchinhas coletivas do Bloco Surpresa. Um dos casos mais emblemáticos foi o enredo inspirado no então governador Max Mauro: “Tartaru Max”. A sátira foi tão bem recebida que o próprio governador entrou na brincadeira, chegando a confeccionar um broche com o tema para usar em sua camisa. Outro alvo frequente e folclórico era o ex-prefeito Vasco Alves, cujas ambições políticas e trejeitos eram transformados em versos cantados por toda a comunidade. A engenhosidade das alegorias sempre foi um marco. Foliões ainda lembram da famosa vaca voadora, que sobrevoou o público de forma surpreendentemente realista. A audácia técnica também brilhou no enredo “Tanque U”, que recriou uma espécie de “guerra fictícia” dentro da Barra do Jucu, utilizando efeitos cenográficos que simulavam disparos e explosões. Programação – Segunda e terça 16/02 – SEGUNDA-FEIRA Praça Pedro Valadares: 10h (Feira Gastronômica e Área Kids), 11h (DJ XL), 13h (Batucada Surpresa) e 18h (Banda Barratuque). Canto do Barrão: 09h (Bloco dos Arteiros) e 16h (Bloco das Mascaradas). Kintal (Av. Anderssem Pereira Fidalgo, 24, no final da Praia do Barrão): 15h (Banda de Congo Mestre Alcides) e 15h30 (Trio com a Banda Siri de Tamanco). Final da Praia do Barrão: 16h (Bloco da Vaquinha, Mulinha e Mascarados). 17/02 – TERÇA-FEIRA Praça Pedro Valadares: 10h (Feira Gastronomica e artesanato + Área Kids), 11h (DJ XL), 13h (Bloco Casa da Égua) e 18h (Banda Casaca). Kintal: 14h30 (Banda de Congo Mestre Honório), 15h (Bloco Surpresa + Teatro Carnavalesco com alegoria e Bonecos Gigantes). Rua Vasco Coutinho: 15h (Bloco da Comunidade).
Domingo de Carnaval leva mais de 200 mil foliões ao Centro de Vitória
Blocos tradicionais, estrutura reforçada e empreendedorismo marcaram o segundo dia da folia na capital O segundo dia do Carnaval oficial de Vitória 2026 transformou o Centro da capital em um grande espaço de celebração coletiva neste domingo (15). Mais de 200 mil foliões participaram da programação, ocupando as ruas com música, fantasia e animação. A manhã começou com o desfile do tradicional Regional da Nair, na Avenida Beira-Mar, embalado por marchinhas e clássicos do Carnaval. Ao mesmo tempo, o Bloco Maluco Beleza animou o público na Rua Sete de Setembro. À tarde, o Puta Bloco comandou a festa entre 14h e 19h, mantendo o ritmo da folia. Para muitos foliões, o domingo representou um reencontro com o Carnaval de rua da cidade. Moradora de Jardim Camburi, Mara Silva voltou a participar dos blocos após alguns anos afastada e destacou a organização da festa e a facilidade de deslocamento. Visitantes de cidades vizinhas também marcaram presença, como Pedro Henrique, da Serra, que ressaltou a estrutura e a tradição da programação no Centro de Vitória. O Carnaval também movimentou o empreendedorismo. Júlia, comerciante de Laranjeiras, na Serra, aproveitou a festa para vender chup-chups e reforçar a renda. Ela faz parte do grupo de mais de 280 ambulantes capacitados pelo curso Qualifica Verão 2026, iniciativa voltada à melhoria do atendimento e dos serviços oferecidos durante a temporada. Entre os foliões, Caio César escolheu uma alternativa sustentável para chegar à festa: utilizou o sistema Bike Vitória, unindo mobilidade e lazer. Para Ana Laura, moradora de Cariacica, o Carnaval de Vitória representa um momento de pertencimento e celebração coletiva. A Prefeitura reforçou a estrutura do evento com ações voltadas ao conforto, à segurança e à sustentabilidade. Doze caminhões-pipa circularam pela região ao longo do dia, proporcionando o tradicional “banho coletivo”. Bebedouros foram instalados em pontos estratégicos, como a Praça Getúlio Vargas, a FAFI, o Mucane, a Praça Ubaldo Ramalhete, o Tancredão e o Sambão do Povo. A limpeza urbana também recebeu atenção especial, com mais de 150 contentores e mil papeleiras distribuídos ao longo da Beira-Mar e do Circuito da Folia. Pontos de coleta seletiva, em parceria com catadores e recicladores, contribuíram para a destinação correta dos resíduos e geração de renda. A programação do Carnaval de Vitória segue até terça-feira, com blocos e apresentações musicais no Centro da capital. Segunda-feira — 16 de fevereiro 9h — Bloco Prog Folia — Avenida Beira-Mar (Centro) 14h — Bloco Coisas de Negres — Avenida Beira-Mar (Centro) 14h30 — Bloco Oitentação — Viaduto Caramuru (Centro) 19h — Circuito da Folia com Dalzy Sales (Avenida Beira-Mar até o Sambão do Povo) 20h30 — Sambão do Povo com Frazão e Tiee Terça-feira — 17 de fevereiro 9h — Bloco Amigos da Onça — Bica Capixaba (entrada do Parque da Gruta da Onça) 14h — Bloco Galinha Preta — Rua Maria Saraiva (Centro) 19h — Circuito da Folia com Viviane Miranda (Praça Costa Pereira — Jerônimo Monteiro — Sambão do Povo) 20h30 — Sambão do Povo com Alan Venturin e Leandro Sapucahy Foto: PMV
IEL-ES reúne 29 oportunidades de estágio e emprego formal no Espírito Santo
Seleção contempla diferentes áreas de formação, com salários que podem chegar a R$ 5 mil O Instituto Euvaldo Lodi do Espírito Santo (IEL-ES) está com 29 oportunidades abertas para estudantes e profissionais que buscam inserção ou recolocação no mercado de trabalho. As vagas incluem estágios e postos de trabalho em regime formal, distribuídos em diferentes áreas de atuação e níveis de formação. Do total de oportunidades, 13 são destinadas a estudantes do ensino superior, nove a cursos técnicos e tecnólogos e sete correspondem a vagas profissionais em regime CLT. As oportunidades abrangem áreas como Pedagogia, Administração, Logística, Análise de Sistemas, Sistemas de Informação, Enfermagem, Segurança do Trabalho, Mecânica, Elétrica, Eletromecânica, Eletrotécnica, Mecatrônica, Automação, Manutenção Automotiva, Elétrica Automotiva, Engenharia Elétrica, Engenharia de Controle e Automação, Engenharia de Produção, Comunicação Social, Publicidade e Propaganda, Jornalismo, Marketing, Design Gráfico, Arquitetura e Urbanismo e Engenharia de Minas. As vagas estão distribuídas nos municípios de Vitória, Cariacica, Vila Velha, Serra, Viana, Cachoeiro de Itapemirim, Linhares e Colatina. As bolsas de estágio variam entre R$ 750 e R$ 1.800, podendo incluir benefícios adicionais conforme a empresa contratante. Já as oportunidades de emprego formal apresentam salários entre R$ 2.107 e R$ 5.000, também com possibilidade de benefícios como ticket alimentação, auxílio alimentação e plano de saúde. Os interessados podem conferir os requisitos e realizar a inscrição no site carreiras.iel.org.br/ES.
João Gualberto – “Trilhos do progresso”
Nós que vivemos imersos em um imenso laboratório em que tudo muda a toda hora, que é mundo contemporâneo, muitas vezes não temos uma noção exata do significava o progresso para as gerações anteriores às nossas. Vamos para um exemplo concreto daquilo que quero dizer, no caso do Espírito Santo. O ideal de progresso que tanto animou os republicanos no fim do século XIX e início do século XX estava alicerçado em alguns elementos que a tecnologia da época permitia. Vamos lá, o café chegou ao nosso estado na primeira metade do século XIX, e a partir de sua segunda metade transformou-se no setor econômico mais dinâmico da nossa economia regional, com também na brasileira. A força do café como elemento propulsor da prosperidade era, sobretudo, o fato dele ser um produto de consumo internacional em larga escala. Entretanto, isso também significava que ele deveria ser transportado até os seus consumidores localizados em outros países do mundo, ou mesmo em outras regiões brasileiras. Para os milhares de imigrantes europeus que aqui chegaram em busca de prosperidade, somente os cafezais poderiam responder a expectativa de pessoas e famílias que arriscaram suas vidas em uma aventura transatlântica de alto custo pessoal. As terras haviam, a imensa maioria ainda coberta pelas matas tropicais, o primeiro trabalho foi derrubar as matas, limpar o terreno e plantar o café. A mão de obra vinha, inicialmente, do terrível regime da escravidão, e não haveria o vertiginoso crescimento econômico que tivemos no século XIX, não fosse o abjeto uso do trabalho cativo. Quando a produção cafeeira capixaba, e também a brasileira, já estava muito bem implantada, as condições da manutenção do tráfico internacional de seres humanos foi chegando ao fim. A questão foi resolvida com a atração de mão de obra em países como a Itália, a Polônia e a Alemanha, onde as condições de manutenção de um claro excedente populacional não era fácil. Terras pequenas e pouco produtivas, facilidade de transporte ferroviário e marítimo, e a oferta de oportunidades no Novo Mundo atraíram os que para cá vieram. Terra tínhamos, a questão do trabalho foi sendo resolvida ao longo do tempo de várias maneiras, do trabalho cativo a imigração internacional, e, finalmente a migração interna, sobretudo aquela feita pelos nordestinos vindos para a região Sudeste. Para alcançar o mercado, quando chegamos ao patamar de grandes produtores, precisamos de uma infraestrutura logística que não tínhamos. Era esse o grande drama das primeiras gerações republicanas no Espírito Santo. O nosso café era transportado em lombo de burro, pelos rios ate os cais onde eram embarcados para o Rio de Janeiro, de onde eram exportados. A grande tarefa de nossos líderes, dos coronéis dos primeiros tempos da república era a construção dessa logística para a exportação do café. O Porto de Vitória já era pensado na assembleia provincial por um movimento estudado pelo brilhante historiador Leandro Quintão, assim como as linhas férreas necessários ao transporte do café até porto. Era preciso materializar as ideias republicanas de progresso através da criação das condições para o escoamento do café capixaba. É aí que surge a importância das estradas de ferro. Deparai-me com a dissertação de mestrado em arquitetura na Ufes de Tamara Lopes, estudando os impactos da construção da Estrada de Ferro Vitória a Minas no Norte do Espírito Santo, que não havia como território produtivo até então. Estava nas mesmas condições encontradas pelos portugueses em sua chegada ao Brasil. As matas foram derrubadas para a construção de ferrovia, depois para a instalação de toda uma rede urbana que dava suporte ao embarque do café nas inúmeras estações que foram sendo criadas. Lendo os trabalhos desses dois jovens talentos capixabas, Tamara e Leandro, enxergamos com clareza que a nossa rede de cidades surgiu com as ferrovias, cidades como Colatina só existem porque um dia ali foi construída uma estação de trem. O município até então era Linhares, que perdeu a sede para Colatina, exatamente como aconteceu com São Pedro de Itabapoana em relação a Mimoso do Sul. A nossa malha urbana tradicional surgiu assim. Portos e ferrovias eram os significados de nosso progresso. Sem eles não haveria escoamento da nossa produção. Por isso, as primeiras elites republicanas focaram nisso, por isso Muniz Freire atingiu grandespatamares de liderança, e Jerônimo Monteiro e Florentino Avidos foram seus grandes sucessores, décadas depois. Se nos anos 1930 como disse o último de nossos governantes da primeira república, governar era construir estradas, no inicio da república no Espírito Santo os trilhos eram a marca do progresso. *João Gualberto Vasconcellos é mestre e professor emérito da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Doutor em Sociologia pela Escola de Altos Estudos em Ciência Política de Paris, na França, Pós-doutorado em Gestão e Cultura. Foi secretário de Cultura no Espírito Santo entre 2015 e 2018.