O mês de março começa com o cenário clássico de transição para o outono na Grande Vitória. Após um domingo marcado por alertas meteorológicos e chuva irregular, a primeira semana completa do mês promete uma mescla de calor intenso e pancadas típicas de verão, exigindo atenção dos moradores da região metropolitana. Calor e Chuva Isolada: O que esperar dia após dia De acordo com os modelos meteorológicos do Inmet e do Climatempo, a Grande Vitória terá uma semana de temperaturas elevadas, com máximas que devem orbitar os 30°C. A semana começa nesta segunda-feira (02/03) com sol e aumento gradual de nuvens, mas ainda sem previsão de chuva significativa, mantendo os termômetros entre 22°C e 30°C. Na terça-feira (03/03), o calor persiste, porém o aumento da umidade favorece pancadas de chuva isoladas entre a tarde e a noite, com as temperaturas repetindo a máxima de 30°C. A partir de quarta-feira (04/03), o tempo muda ligeiramente. O sol aparece entre muitas nuvens e há possibilidade de chuva rápida a qualquer hora do dia, o que provocará um leve declínio na temperatura, que não deve passar dos 26°C. Esse cenário de maior nebulosidade se intensifica na quinta-feira (05/03), feriado em alguns municípios ou dia de trabalho para outros, que terá predominância de nuvens e chuva passageira, mantendo o clima mais ameno com máxima de 25°C. Para encerrar a semana útil, o sol volta a aparecer com força na sexta-feira (06/03). Embora possa ocorrer névoa ao amanhecer, o tempo firma e as temperaturas voltam a subir, atingindo os 27°C à tarde. Alertas e Atenção Embora o alerta de grande perigo emitido pelo Inmet no início do mês tenha focado prioritariamente no Norte do Estado, a Grande Vitória permanece em estado de observação. O Climatempo aponta que sistemas de baixa pressão na costa do Sudeste podem intensificar a formação de nuvens carregadas, o que traz o risco de ventos moderados (até 60 km/h) e descargas elétricas durante as pancadas isoladas. Historicamente, março é conhecido como o mês das “águas” no Espírito Santo. Com a transição climática, a previsão indica que o calor continuará presente, mas as frentes frias começarão a subir com mais frequência pelo litoral, podendo atingir o estado capixaba com mais vigor na segunda quinzena.
João Gualberto – “O pavão desiludido”
Alguns escritores capixabas fizeram muito sucesso em todo o Brasil. Um bom exemplo é certamente Rubem Braga, por décadas considerado um dos maiores cronistas brasileiros, sobretudo na segunda metade do século XX. Entretanto, não foi o único capixaba de sucesso nacional naquele período. Hoje quero lembrar aos meus leitores um outro autor local que foi muito importante, sobretudo nas páginas do Jornal do Brasil e de outras publicações igualmente relevantes: Carlinhos de Oliveira. Ele foi celebrizado por suas colaborações quase diárias ao Jornal do Brasil, onde escreveu por mais de duas décadas, tornando-se um dos grandes cronistas brasileiros do século XX. Não se limitou a ele. Importante foi sua participação, por exemplo, no Pasquim, semanário alternativo que marcou toda uma geração nos anos 1970. Suas crônicas políticas diárias, no ano de 1968, no Jornal do Brasil, estão reunidas em um livro delicioso, publicado postumamente em 1995, chamado Diário da Patetocracia, revelando acontecimentos absurdos em torno de prisões, censura, vandalismos praticados contra o mundo das artes e outros fatos ocorridos naquele ano em que o governo militar foi fechando seu cerco contra a democracia brasileira. É dele a seguinte pérola: “Todo dia um pateta qualquer enfia sua pata numa peça de teatro e corta as frases que lhe parecem atentatórias à moral, aos bons costumes e à democracia. Não se passa uma tarde sem que outro pateta dê o ar de sua graça, cortando sequências inteiras de filmes. A patetocracia não dorme em serviço.” José Carlos de Oliveira, nacionalmente conhecido como Carlinhos de Oliveira, além de autor famoso de crônicas, tem romances de sucesso como Terror e Êxtase, A Revolução das Bonecas ou Os Olhos Dourados do Ódio. Ele teve uma fase como cronista em Vitória, antes de mudar para o Rio de Janeiro, ainda jovem, com apenas 18 anos. Foi, nessa fase, jornalista militante e colunista em A Tribuna, na Folha do Povo e na revista Vida Capichaba. Seus escritos dessa época estão reunidos em O Rebelde Precoce: crônicas da adolescência, obra organizada por Jason Tércio, que também faz uma inspirada introdução: “Venho de Maracajuaguaçu, você nunca ouviu falar.” Carlinhos de Oliveira escreveu também uma obra autobiográfica chamada O Pavão Desiludido, publicada originalmente em 1972, que foi muito bem recebida no meio literário. Ele explora nela muitas de suas tragédias pessoais, transformadas em uma espécie de laboratório de observação social e existencial. Trata-se de um relato duro, às vezes mesmo cruel, de sua trajetória desde o nascimento, no dia 18 de agosto de 1934, até a sua partida para o Rio de Janeiro, ainda muito jovem, aos 18 anos. Vitória, na obra, aparece como pano de fundo para um roteiro sofrido e sem esperanças. Ele, de fato, não foca nos detalhes sociais do território, da construção cultural coletiva onde habitou na infância e na juventude — isso ele faz em crônicas quando ainda morava na ilha. Em O Pavão Desiludido, seus relatos são do sofrimento de uma vida pobre e sem perspectivas, em uma cidade que nada lhe deu, a não ser conhecer a dor. Ele descreve a infância de um menino que não teve saúde, higiene, conforto, roupa, comida, consolo ou amor. É uma fala de desespero. O pai, ele soube pouco antes de partir para o Rio, em uma conversa ocasional, havia se suicidado depois de ter estuprado e matado a própria filha. Muito angustiado, decidiu partir, ir embora, sem qualquer orientação. Sem dinheiro, sem conhecer ninguém, lá se foi ele rumo ao seu próprio destino. Para trás deixara uma mãe, que no livro é descrita como pessoa cruel e desequilibrada, e que passou a infância a surrá-lo por qualquer motivo, e até sem qualquer motivo. Vida miserável passada em casas sem conforto, muitas vezes sem comida. “Faz 16 anos que me encontro neste mundo, provando unicamente humilhações e superando uma por uma, valente que sou e seguro de que o futuro haveria de ser diferente, mas essa última, santo Deus, essa história de um pai estuprando a própria filha…” escreveu sobre o dia em que soube dos terríveis acontecimentos. Tudo o que aconteceu com esse pobre menino, cercado do ódio de uma mãe sem nenhum amor pelos filhos, o forjou para uma vida amarga, mas o fez também um grande entendedor das tragédias humanas. “Um livro tem que ser como um machado para quebrar o mar de gelo que há dentro de nós”, escreveu Kafka, e me lembrou um dia desses o Pedro Nunes. A obra de Carlinhos de Oliveira encontra-se hoje muito esquecida e merece ter mais atenção. Não podemos perder a memória de um escritor capixaba tão importante nas letras nacionais. *João Gualberto Vasconcellos é mestre e professor emérito da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Doutor em Sociologia pela Escola de Altos Estudos em Ciência Política de Paris, na França, Pós-doutorado em Gestão e Cultura. Foi secretário de Cultura no Espírito Santo entre 2015 e 2018.