Depois de sobreviver a um ciclo de violência, Cristiane Ferrari encontrou no empreendedorismo e na autonomia financeira a força para reconstruir a própria história Por Rachel Martins Ela precisou voltar para a casa dos pais, na Serra. Estava sem emprego, em recuperação de uma cirurgia ortopédica e tentando reconstruir a vida depois de sobreviver a uma tentativa de feminicídio. Durante dez anos, a capixaba Cristiane Ferrari, hoje com 45 anos, viveu um relacionamento marcado por violência física, psicológica, moral e sexual. Era o início da pandemia da Covid-19 quando ela fez uma pergunta a si mesma que mudaria a sua trajetória: “O que eu ainda posso fazer com o que eu tenho hoje?”. A resposta veio de um objeto simples, presente no dia a dia de milhares de brasileiras: um par de chinelos. Foi deles que nasceu a marca Cris Ferrari, especializada em chinelos customizados e acessórios femininos. Mais do que um negócio, a pequena empresa representou a possibilidade de recuperar a autonomia, a autoestima e a esperança. A história de Cristiane é um exemplo de como o empreendedorismo pode se tornar um caminho para o recomeço e para o fortalecimento das mulheres, especialmente daquelas que viveram situações de violência. Embora a independência financeira, por si só, não seja suficiente para romper um ciclo de violência doméstica, especialistas apontam que ela amplia as possibilidades de escolha, reduz a vulnerabilidade econômica e fortalece a capacidade das mulheres de reconstruir a própria vida. Um cenário que se reflete em todo o Brasil. O empreendedorismo feminino nunca foi tão forte no país. Levantamento do Sebrae, com base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), do IBGE, mostra que o país encerrou 2025 com 10,4 milhões de mulheres donas de negócio, o maior número da série histórica e um crescimento de 27% nos últimos dez anos. Elas representam 34,3% dos empreendedores brasileiros, demonstrando um avanço significativo da participação feminina na economia, embora ainda enfrentem desafios para consolidar e expandir seus negócios. No Espírito Santo, o movimento segue a mesma tendência. Dados do DataSebrae mostram que 194,2 mil mulheres empreendem no Estado, o equivalente a 32,3% dos empreendedores capixabas. Mais da metade delas é chefe de família, 85,6% trabalham por conta própria, sem empregados, e 50,9% ainda atuam na informalidade, evidenciando que, para muitas, empreender não é apenas uma escolha profissional, mas uma estratégia para garantir renda e sustento. Especialistas explicam que a autonomia econômica conquistada por meio do trabalho ou do empreendedorismo não elimina, sozinha, a violência de gênero, mas amplia as possibilidades de escolha e reduz uma das principais barreiras enfrentadas por mulheres que desejam romper relações abusivas: a dependência financeira. Ter renda própria pode facilitar o acesso à moradia, à rede de proteção e aos mecanismos de defesa previstos em lei, fortalecendo o processo de reconstrução da vida. Para Cristiane, no entanto, antes de empreender foi preciso sobreviver. “Eu perdi muita coisa, mas não perdi a vida. E, principalmente, não perdi a esperança”, conta. A coragem para mudar Após deixar o relacionamento abusivo, Cristiane voltou para a casa dos pais levando consigo as marcas físicas e emocionais da violência, mas foi observando as mulheres do bairro onde mora, em Jardim Carapina, que enxergou uma oportunidade de mudar sua vida. Quase todas usavam chinelos no cotidiano. E a ideia surgiu de forma espontânea: transformar um produto simples em algo exclusivo. Sem qualquer experiência, foi buscar conhecimento na internet. Aprendeu técnicas assistindo a vídeos no YouTube. Pediu dinheiro emprestado à mãe, comprou dois pares de chinelos, algumas pérolas, linha e agulha. Os primeiros modelos estavam longe da perfeição, mas carregavam algo que ela havia decidido recuperar: a coragem. Para começar, ela usou uma estratégia: usar as próprias peças e logo vieram as perguntas: “Onde você comprou?”, “Quem fez?”, “Você vende?”. Foi nesse momento que percebeu que aquele poderia ser muito mais do que um passatempo. “Entendi que, às vezes, a oportunidade bate à nossa porta de forma bem simples. Basta estarmos atentos.” Transformar habilidade em negócio, porém, exigia mais do que boa vontade. Foi então que Cristiane buscou apoio no Sebrae-ES. Participou de cursos, palestras, mentorias e capacitações voltadas ao empreendedorismo. Também contou com o incentivo da Agência de Desenvolvimento das Micro e Pequenas Empresas e do Empreendedorismo (Aderes), que abriu portas para que participasse da primeira feira de Natal no Parque da Cidade. “Talvez, para muita gente, fossem apenas três peças. Para mim, eram a prova de que eu podia reconstruir minha vida.” Desde então, a empreendedora passou a participar de eventos em diferentes cidades, ampliou a clientela e consolidou a marca Cris Ferrari. Hoje, continua investindo em capacitação e sonha em tornar seus produtos conhecidos em todo o Brasil. Autonomia que salva vidas A trajetória de Cristiane dialoga com a realidade de milhares de brasileiras que encontraram no empreendedorismo uma forma de transformar talento em renda e reconstruir projetos de vida. No Espírito Santo, o perfil levantado pelo Sebrae mostra que a maioria das empreendedoras têm entre 30 e 49 anos, justamente a fase em que muitas conciliam trabalho, cuidados com a família e responsabilidades financeiras. Além disso, mais da metade é responsável pelo sustento do lar, reforçando que empreender representa, para muitas mulheres, muito mais do que abrir um negócio: significa conquistar autonomia e ampliar a liberdade de decidir os próprios caminhos. Mais do que vender chinelos customizados, Cristiane acredita que compartilha uma mensagem de esperança. “Quero que a minha história inspire outras mulheres a entenderem que o passado não precisa definir o futuro. Eu faço questão de não esconder as minhas cicatrizes, porque elas são a prova de que é possível seguir em frente. Elas me lembram da mulher que fui e da mulher forte que me tornei. Quando eu olho para trás, vejo sempre os dois pares de chinelos que para mim significaram muito mais do que uma nova profissão. Foi o primeiro passo para reconstruir a minha própria história”. Uma lição que Cristiane faz questão sempre de passar para outras pessoas é de que