A Academia Espírito-Santense de Letras vive uma nova fase sob a presidência de Jonas Reis, jornalista de renome e autor de vários livros. Dentro de uma nova lógica de relacionamento com o mundo intelectual, que leva em conta vários de seus segmentos, a AEL está promovendo uma palestra voltada para um público amplo, a ser realizada no dia 26 de maio, no auditório do Tribunal de Contas, na Enseada do Suá. O tema não poderia ser mais atual: História da Velhice. Na oportunidade, haverá uma noite de autógrafos do livro Uma História da Velhice no Brasil. Como tudo que é construído por nossas culturas, a velhice tem história. A palestrante, autora do livro, será Mary Del Priore, referência para os estudos históricos sobre o Brasil. Com pós-doutorado na École des Hautes Études en Sciences Sociales, de Paris, França – a mesma escola onde eu fiz meu doutorado em Sociologia – Del Priore já escreveu mais de 50 livros. É uma das autoras que mais vendem livros no campo da história no Brasil, sendo vários deles campeões de vendagem e de número de edições. Sua reputação como grande historiadora e referência para a área é inequívoca, e muito bem fez a nossa academia ao organizar uma palestra sua em nossa cidade. Aproveitando a oportunidade de ouvi-la, li a nova obra da historiadora. Li e gostei. Nela, há uma tentativa de entender a velhice como fato natural e social, historicamente construído através de imagens, representações e das vozes que emanam de memórias e autobiografias. A autora realiza um vasto estudo ao longo do tempo e dele retira lições que são importantes para entender o percurso da invenção da velhice no Brasil como instituição imaginária, desde o nosso período colonial até os dias atuais. Del Priore nos conta como nossas indígenas, fundadoras de famílias com sangue europeu e local, ensinaram os colonizadores a envelhecer por aqui com a higiene do corpo, a fabricação de utensílios de cozinha e de redes de dormir, os remédios caseiros, os cuidados com a infância, a domesticação de animais, o consumo dos alimentos da terra, a extração do mel. Entre os nossos povos originários, não havia uma contagem do tempo; ninguém sabia ao certo que idade tinha, e costumava-se viver muito, de forma natural e saudável. Mesmo os idosos faziam longas caminhadas, que às vezes duravam muitos dias. A qualidade de vida entre os indígenas era muito superior à dos europeus quando se deu o encontro entre as duas culturas. Outra informação curiosa: no Brasil, somente no século XIX as pessoas passaram a comemorar os seus aniversários, passando a contabilizar seu próprio envelhecimento. Os novos tempos foram acentuando a sua passagem com relógios e folhinhas, e com a presença dos mais velhos. Além disso, o mundo da escrita, dos livros e jornais retirou dos mais velhos a função de serem a memória de seu tempo – uma função social importante –, mas não lhes retirou a importância de sua experiência. Mary Del Priore assinala como marca dessa experiência que, mesmo nas senzalas do regime escravocrata, havia, em momentos de crise e rebelião, o papel dos mais velhos e experientes, que conduziam negociações tensas, e frequentemente frustrantes, com a morte dos revoltosos. A experiência sempre foi um ativo social. A passagem do Império para a República brasileira apontou o fim de um estilo de vida, de um tipo de economia, da mentalidade das grandes e importantes famílias, nas quais quem mandava era o velho. O ano de 1923 foi um marco na história da previdência social no Brasil, dando origem a um novo tipo social: o aposentado. De uma certa má vontade coletiva com os velhos, que não mais produziam nos setores mais populares, passamos a ter uma categoria com capacidade de consumo e renda própria. A invenção da aposentadoria é vital para compreendermos a visão que hoje temos daqueles que ultrapassam a juventude e as idades medianas. Depois de fazer um longo, profundo e, sobretudo, instigante passeio sobre a velhice através da história brasileira, o livro propõe as seguintes perguntas: que papel queremos para os nossos velhos? Numa sociedade sedenta de modernidade, que sentido dar à velhice? Nos últimos vinte anos, milhares de livros passaram a tentar explicá-la. A autora mostra que, na história, muitos indivíduos, depois de comandarem a própria vida, simplesmente ficaram velhos. Para eles, envelhecer não foi um crime punido com exclusão, mas um fato que variou segundo muitos elementos como classe social, saúde e crença. É preciso fortalecer as experiências mais positivas. Creio que, mesmo tendo lido com atenção a obra, não encontrei uma resposta para as perguntas colocadas, a não ser que seguir bons exemplos leva à sabedoria. O livro nos ajuda a conhecer melhor os modelos dos nossos antepassados e a iluminar exemplos que, às vezes, estão do nosso lado, em nossas casas, em nossas mães e pais, sábios e envelhecidos. Bom prestar mais atenção neles, em seus gestos e palavras, enquanto podemos. *João Gualberto Vasconcellos é mestre e professor emérito da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Doutor em Sociologia pela Escola de Altos Estudos em Ciência Política de Paris, na França, Pós-doutorado em Gestão e Cultura. Foi secretário de Cultura no Espírito Santo entre 2015 e 2018.
Longas distâncias lideram procura na Maratona de Vitória 2026
A Maratona de Vitória já registra mais de 4 mil atletas inscritos para a edição de 2026, marcada para os dias 29 e 30 de agosto, com largadas na Praça do Papa, na Enseada do Suá. A expectativa da organização é reunir até 10 mil corredores de diferentes regiões do Brasil e também do exterior. As inscrições seguem abertas. Os dados parciais indicam uma preferência crescente pelas provas mais desafiadoras. A maratona (42 km) já atingiu 68% das vagas preenchidas, enquanto a meia maratona (21 km) chega a 66%. O Desafio Cidade de Vitória, que combina duas provas em dias distintos, também apresenta alta adesão, com 77% das vagas ocupadas na modalidade 10 km + 42 km e 76% na opção 5 km + 21 km. Nas distâncias menores, a procura também é relevante. A corrida de 5 km registra 19% das vagas preenchidas, enquanto a de 10 km soma 23%. Já a Maratoninha Kids, voltada para crianças e adolescentes de 4 a 14 anos, alcança 40% de ocupação. Ao longo de quase uma década, o evento tem ampliado o número de participantes. Em 2017, pouco mais de 6 mil atletas participaram da prova. Para 2026, a projeção é de 10 mil inscritos, consolidando a corrida no calendário esportivo nacional. “A prova segue crescendo de forma sustentável, oferecendo uma experiência completa para os corredores e mostrando que o esporte tem conquistado cada vez mais espaço na vida das pessoas”, afirma Bernardo Ramos, diretor da Pace Eventos. Até o momento, cerca de 3.500 capixabas já garantiram participação. O evento também reúne atletas de mais de 20 estados brasileiros, com destaque para Minas Gerais, que soma 320 inscritos, seguido por Rio de Janeiro (175), São Paulo (120) e Bahia (35). Apresentada pela Fortlev, a Maratona de Vitória conta com fornecimento oficial de camisas da Magia do Mar, patrocínio master do Governo do Estado, por meio da Lei de Incentivo ao Esporte Capixaba (LIEC), apoio da Prefeitura de Vitória e organização da Pace Eventos. Com dois dias de programação, o evento inclui provas de 5 km, 10 km, 21 km e 42 km, além do Desafio Cidade de Vitória e da Maratoninha Kids, com percursos de 50 metros a 400 metros. Todos os participantes recebem kit com camisa, número de peito, chip descartável e sacola, além de medalha de participação e troféus para os primeiros colocados. No sábado (29), acontecem as provas de 5 km e 10 km, além da largada dos participantes do Desafio Cidade de Vitória nessas distâncias. À tarde, a programação inclui a Maratoninha Kids. Já no domingo (30), serão realizadas a maratona (42 km) e a meia maratona (21 km), com largada conjunta às 5h30. Serviço Maratona de Vitória 2026 Data: 29 e 30 de agosto Local: Praça do Papa, Enseada do Suá Inscrições: www.ticketsports.com.br ou www.maratonadevitoria.com.br
Divórcio com imóvel financiado: entenda como funciona a partilha
Quando um casamento chega ao fim, a divisão do patrimônio pode variar de simples a bastante complexa. Uma das dúvidas mais frequentes envolve imóveis adquiridos por financiamento: como fica a partilha quando o bem ainda não foi totalmente quitado? De acordo com o advogado e doutor em Direito de Família e Sucessões, Alexandre Dalla Bernardina, o primeiro passo é identificar o regime de bens adotado pelo casal. A partir disso, é possível compreender os efeitos jurídicos relacionados ao imóvel financiado. Segundo ele, nos casos de financiamento com alienação fiduciária, o casal ainda não detém a propriedade plena do imóvel, mas sim a posse, com direito à aquisição definitiva após a quitação da dívida junto à instituição financeira. Um ponto relevante é que acordos firmados entre os ex-cônjuges não têm efeito automático perante o banco. Ou seja, independentemente do que for ajustado entre as partes, ambos continuam responsáveis pelo contrato de financiamento. Comunhão parcial de bens No regime de comunhão parcial, os bens adquiridos de forma onerosa durante o casamento integram o patrimônio comum, mesmo que estejam registrados em nome de apenas um dos cônjuges. Nesses casos, tanto os direitos sobre o imóvel quanto as obrigações do financiamento podem ser divididos. Separação total de bens Já no regime de separação total, cada cônjuge mantém a titularidade exclusiva dos bens adquiridos individualmente, assim como a responsabilidade por suas dívidas. Caso o financiamento esteja apenas em nome de um dos cônjuges, o outro, em regra, não terá direito ao imóvel, salvo se comprovar participação financeira ou esforço comum relevante na aquisição. Formas de partilha Na prática, existem diferentes caminhos para a divisão. Entre os mais comuns estão a venda do imóvel com divisão do valor obtido, a manutenção da copropriedade por determinado período ou a permanência de um dos ex-cônjuges no imóvel, com compensação financeira ao outro — especialmente quando há filhos menores envolvidos. O advogado recomenda a análise detalhada de todo o patrimônio do casal, incluindo contratos de financiamento, para garantir uma partilha segura e equilibrada. Valores já investidos entram na conta Além do imóvel, devem ser considerados na divisão os valores já pagos durante o casamento, como entrada, parcelas e eventuais benfeitorias realizadas no bem. Dívidas também podem ser partilhadas Outro ponto importante é que as dívidas também entram na divisão, sobretudo no regime de comunhão parcial, exceto quando se tratar de obrigações de caráter pessoal, contraídas em benefício exclusivo de um dos cônjuges. Orientação jurídica faz diferença A falta de informação ainda é um dos principais fatores de conflito em processos de separação. A orientação jurídica adequada contribui para evitar prejuízos e assegurar uma divisão mais justa. Com o aumento de casais que adquirem imóveis financiados, compreender os direitos e deveres envolvidos antes de uma eventual separação pode fazer diferença no desfecho da partilha.