No acumulado de 12 meses, a inflação nos Estados Unidos deu um novo salto de abril para maio, passando de 3,8% para 4,2%, o que não é uma boa notícia nem para o mundo, nem para o Brasil. Tal fato pode ser confirmado pela manutenção da taxa de juros neste país, atualmente fixada no intervalo de 3,5%-3,75%, apesar dos apelos de Donald Trump para sua redução e pela mudança do presidente do Banco Central deste país, o FED, considerando a distância que a afasta ainda mais da meta perseguida pela autoridade monetária deste país, de 2%. No caso do Brasil, também a inflação voltou a aumentar desde o início da guerra Estados Unidos-Israel contra o Irã, que deu um tranco na oferta de combustíveis, com o fechamento do estreito de Ormuz, impactando sobre o preço do barril de petróleo. Até o mês de maio, a inflação, também no acumulado de 12 meses, já atingia 4,72%, acima do teto da meta de 4,5% e também mais distante do centro da meta de 3% definido pelo Banco Central. Se se acreditava que a autoridade monetária no Brasil prosseguiria com uma política mais firme de redução da taxa de juros (a Selic), hoje existem dúvidas sobre a sua continuidade. Embora na reunião dessa semana do Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) essa tenha sido reduzida de 14,5% para 14,25%, o mercado não mais aposta que essa será mantida, especialmente pelas maiores turbulências causadas pela política tarifária de Trump. Isso se deve não somente pela situação estadunidense, mas também pelas pressões inflacionárias internas, com o mercado apostando, no último Boletim Focus de 15 de junho, que a mesma pode chegar a 5,30%, o que aumentou as expectativas desfavoráveis sobre o nível da Selic no final do ano, que saltou de 13,5% para 13,75%, mantendo a renda fixa como a aplicação mais procurada pelo investidor. Mesmo com mais recente anúncio de paz pelos Estados Unidos e Irã, que pode acabar abortado como das outras vezes, pela insistência de Israel em continuar a guerra para dizimar o Hezbollah e destruir definitivamente o arsenal nuclear iraniano, o estrago para a economia mundial já está feito para o ano. Isso porque, de um lado, os preços não se acomodam e retornam rapidamente aos níveis anteriores da guerra, e, de outro, pelo fato de se contar na economia com mecanismos de indexação, o que garante uma inflação adicional remanescente independente de sua queda. Isso significa que por mais algum tempo as taxas de juros deverão se manter elevadas no mundo, e no Brasil, para se tentar trazer a inflação para o centro da meta, especialmente em países, como é o caso do Brasil, que seguem fielmente a cartilha da ortodoxia. Contar com novos cortes da Selic vai se tornando cada vez mais difícil diante deste quadro, mas, mesmo que isso ocorra, estes serão bem tímidos, mantendo-se a taxa de juros real extremamente elevada, inibindo o consumo e o investimento, incapaz de reverter o processo de desaceleração da economia brasileira em 2026. Bom para a riqueza financeira, péssimo para a atividade econômica e o crescimento. A resiliência da atividade econômica no Brasil, que tem sido sustentada principalmente pela força do consumo, devido, em boa parte, à forte injeção de recursos do governo na economia, tem mantido a expectativa de crescimento do mercado próximo de 2%. O fato, entretanto, é que as condições para que essa situação seja mantida vai se tornando, assim, crescentemente difícil, pelo que implica para o maior avanço da deterioração das contas públicas, com a manutenção de uma taxa de juros extremamente elevada, juntamente com um cenário externo de fortes incertezas, prenunciando um preço alto ser cobrado em 2027, quando serão exigidos ajustes fiscais bem amargos. Dados recentes divulgados pelo Banco Central sobre o IBC-Br (Índice de Atividade Econômica do Banco Central) revelam que a economia brasileira, apesar de continuar resiliente, vem perdendo crescentemente fôlego. Embora em abril ainda tenha registrado uma expansão da economia de 0,51% em relação a março, abaixo do esperado pelo mercado, no acumulado de 12 meses este caiu para 1,6%, abaixo, portanto, do crescimento de 2% projetado pelo governo, indicando uma progressiva desaceleração da atividade econômica no segundo semestre deste ano. *Fabrício Augusto de Oliveira é Doutor em Economia pela Unicamp, membro da Plataforma de Política Social e do Grupo de Estudos de Conjuntura do Departamento de Economia da UFES, articulista do Debates em Rede, e autor, entre outros, do livro “A revolução marginalista neoclássica: o agente racional na história do pensamento econômico”, publicado, em 2026, pela Editora Contracorrente.
Electric Summit coloca ES no centro do debate sobre mobilidade elétrica e energia limpa
Evento acontece de 7 a 9 de agosto, na Praça do Papa, em Vitória, reunindo especialistas, empresas, test-drives e soluções para cidades inteligentes O Espírito Santo será palco de um dos principais encontros sobre mobilidade elétrica, energia limpa e inovação urbana do país. Entre os dias 7 e 9 de agosto, a Praça do Papa, em Vitória, recebe a segunda edição do Electric Summit, evento que reunirá especialistas, empresas, startups, investidores, representantes do poder público e consumidores para discutir as transformações que vêm moldando o futuro das cidades. Durante os três dias de programação, o público poderá conhecer de perto veículos elétricos, tecnologias voltadas à geração e armazenamento de energia, soluções para eficiência energética e inovação aplicada à mobilidade urbana. O evento contará ainda com experiências interativas, test-drives, palestras, fóruns temáticos e uma feira de negócios voltada ao fortalecimento do setor. A proposta é aproximar diferentes atores do ecossistema da mobilidade e da transição energética, criando um ambiente favorável à geração de conhecimento, networking e oportunidades de negócios. O encontro ocorre em um momento de crescimento acelerado do mercado de veículos elétricos e híbridos no Brasil, impulsionado pela expansão da infraestrutura de recarga e pela busca por soluções sustentáveis. Segundo o realizador do evento, Rafael Ferrari, a eletrificação da mobilidade já faz parte da realidade das cidades brasileiras. “O Electric Summit busca conectar tecnologia, mercado, poder público e sociedade, mostrando como inovação e sustentabilidade podem impulsionar o desenvolvimento econômico e melhorar a qualidade de vida da população”, afirma. Entre os destaques da programação estão exposições de carros, motos, bicicletas e patinetes elétricos, além de soluções ligadas à energia solar, baterias, carregadores, automação residencial e empresarial, iluminação inteligente e gestão energética. O evento também contará com uma Feira do Empreendedor, destinada a micro e pequenas empresas que atuam nos segmentos de tecnologia, sustentabilidade e inovação. A programação terá ainda a participação de Felipe Fera, uma das principais referências nacionais em mobilidade elétrica e embaixador da eletrificação no Brasil. O especialista participará de debates sobre tendências do setor, inovação tecnológica e os desafios da transformação do mercado automotivo. Além da mobilidade elétrica, o Electric Summit promoverá discussões sobre cidades inteligentes, infraestrutura urbana, segurança viária, educação para o trânsito e sustentabilidade. Painéis e fóruns abordarão temas como expansão dos pontos de recarga, geração distribuída de energia, armazenamento energético e soluções inteligentes para residências, empresas e municípios. Mais do que uma feira de exposição, o evento pretende fortalecer conexões estratégicas, estimular novos negócios e ampliar o debate sobre os caminhos para uma economia mais sustentável e preparada para os desafios das próximas décadas. SERVIÇO Electric Summit – 2ª Edição Data: 7 a 9 de agosto de 2026 Local: Praça do Papa, Enseada do Suá, Vitória Realização: Ferrari Eventos Correalização: Instituto Capixaba de Eventos e Turismo (ICEE) e Flashmais Eventos Apoio: ABVE – Associação Brasileira do Veículo Elétrico e Bandes Sustentabilidade Apoio Institucional: Sebrae Espírito Santo, Aderes e Ministério do Empreendedorismo, da Microempresa e da Empresa de Pequeno Porte.
ES domina prêmio nacional de qualidade fiscal com Serra e Vila Velha em 1º lugar
O Espírito Santo conquistou posições de destaque no IV Prêmio Qualidade da Informação Contábil e Fiscal, promovido pela Secretaria do Tesouro Nacional (STN). Serra e Vila Velha dividiram o primeiro lugar nacional entre os municípios com mais de 100 mil habitantes, excluindo as capitais, enquanto Vitória alcançou a segunda colocação entre as capitais brasileiras. A premiação é baseada no Ranking da Qualidade da Informação Contábil e Fiscal do Sistema de Informações Contábeis e Fiscais do Setor Público Brasileiro (Siconfi), que avalia a qualidade, a consistência e a confiabilidade das informações encaminhadas pelos entes federativos ao Governo Federal. Neste ano, Serra e Vila Velha alcançaram 100% de conformidade nos critérios avaliados, compartilhando a liderança nacional da categoria. Na Serra, o reconhecimento consolida uma trajetória de evolução na gestão fiscal. O município saiu da 923ª posição nacional para alcançar o topo do ranking, após liderar entre os municípios de grande porte em 2023, conquistar o quarto lugar nacional em 2024 e voltar a figurar entre os destaques do país em 2025. O prefeito da Serra, Weverson Meireles, destacou que o resultado reflete o compromisso da gestão com a responsabilidade fiscal e a transparência. “Na Serra, transparência, responsabilidade fiscal e gestão séria são compromissos inegociáveis. Receber o reconhecimento de melhor desempenho do Brasil em qualidade da informação contábil e fiscal mostra que estamos no caminho certo, administrando os recursos públicos com responsabilidade, planejamento e respeito ao cidadão. Essa conquista é fruto do trabalho dedicado dos servidores municipais e fortalece a confiança da população em uma gestão que busca eficiência para transformar recursos em investimentos e melhorias para a cidade”, afirmou. Vila Velha também alcançou nota máxima e repetiu a liderança nacional conquistada na edição anterior da premiação. O município se destacou entre as cidades brasileiras com mais de 100 mil habitantes, reforçando sua posição de referência na gestão contábil e fiscal. A equipe da PMVV na premiação Para o prefeito Arnaldinho Borgo, a conquista representa mais do que um reconhecimento técnico. “Cuidar das contas públicas é garantir total transparência sobre receitas, despesas e investimentos, assegurando que contribuintes e órgãos de controle saibam exatamente como os recursos são aplicados. Essas informações também orientam as políticas públicas, fortalecem a fiscalização e ampliam a eficiência administrativa. É nesse contexto que Vila Velha lidera novamente o ranking do Siconfi”, afirmou. O prefeito destacou ainda a evolução do município nos últimos anos. “Sair da 5.445ª posição em 2020 para o primeiro lugar do Brasil e da Região Sudeste, por dois anos consecutivos em apenas cinco anos, é um feito histórico que comprova os resultados de uma gestão responsável, inovadora e comprometida com as pessoas”, declarou. A secretária municipal de Finanças de Vila Velha, Adinalva Prates, ressaltou que o reconhecimento é resultado do trabalho coletivo das equipes técnicas. “Evoluímos milhares de posições em tempo recorde e hoje somos referência nacional e regional em gestão contábil e fiscal pelo segundo ano consecutivo. Também conquistamos a classificação Triplo A na Capacidade de Pagamento (Capag), selo do Tesouro Nacional que atesta a responsabilidade fiscal e a excelência da gestão das contas públicas de Vila Velha”, destacou. Entre as capitais brasileiras, Vitória conquistou a segunda colocação nacional, empatada com Fortaleza, alcançando 99,90% de conformidade. O resultado repetiu o desempenho obtido pela capital capixaba na edição anterior da premiação e reforçou o reconhecimento ao trabalho das equipes responsáveis pela organização, validação e envio das informações fiscais e contábeis ao Siconfi. Segundo a Prefeitura de Vitória, a conquista reforça o compromisso do município com a transparência, a eficiência da gestão pública e a qualidade das informações fiscais, consideradas fundamentais para o controle social e para a tomada de decisões estratégicas. Os resultados confirmam o protagonismo capixaba na gestão fiscal brasileira. Com Serra e Vila Velha dividindo a liderança nacional entre os municípios de grande porte e Vitória entre as melhores capitais do país, o Espírito Santo consolidou presença de destaque no principal ranking nacional de qualidade da informação contábil e fiscal.
Assinatura de documentos corporativos exige atenção e pode ter impactos jurídicos
Especialista alerta para os cuidados que trabalhadores devem adotar antes de concordar com termos relacionados a metas, bonificações e programas de remuneração variável A assinatura de termos, declarações e documentos internos faz parte da rotina de empresas dos mais diversos segmentos. Apesar de muitas vezes ser tratada como um procedimento meramente burocrático, a formalização desses documentos pode produzir efeitos jurídicos relevantes e, por isso, exige atenção dos trabalhadores antes de qualquer concordância. O tema voltou ao debate entre empregados da Caixa Econômica Federal após questionamentos envolvendo o programa Super Caixa, modelo de remuneração variável que tem gerado discussões sobre critérios de pagamento, transparência e natureza jurídica dos valores recebidos. Entidades representativas dos trabalhadores vêm cobrando esclarecimentos e apontando insegurança entre os empregados quanto às regras de adesão ao programa. Para a advogada trabalhista Paloma Vallory, do escritório Ferreira Borges Advogados, situações como essa evidenciam a importância de compreender integralmente o conteúdo dos documentos apresentados pelas empresas. Segundo ela, um termo aparentemente simples pode ganhar relevância em futuras discussões administrativas ou judiciais. “Muitos trabalhadores acreditam que determinados documentos possuem apenas caráter operacional, mas dependendo da redação, eles podem ser utilizados como prova em eventuais ações trabalhistas. Por isso, é fundamental realizar uma leitura cuidadosa, solicitar uma cópia e buscar orientação jurídica sempre que houver dúvidas”, afirma. A especialista destaca que a atenção deve ser ainda maior quando o documento estiver relacionado a programas de metas, bonificações, remuneração variável ou quando o empregado já possuir alguma demanda judicial envolvendo o tema. Nesses casos, a assinatura pode ter reflexos importantes na análise futura da relação de trabalho. “Nenhum trabalhador deve se sentir pressionado a concordar com termos cujo conteúdo não compreenda plenamente. Quando a assinatura é condicionada ao acesso a sistemas ou ao exercício das atividades profissionais, é recomendável registrar formalmente que a adesão ocorreu por determinação da empresa”, orienta. Segundo Paloma Vallory, a Justiça do Trabalho costuma avaliar a realidade dos fatos e não apenas o conteúdo formal dos documentos. “Quando uma bonificação é paga de forma habitual, vinculada a metas ordinárias e incorporada à rotina remuneratória do empregado, podem surgir discussões sobre sua natureza salarial, independentemente da nomenclatura utilizada pela empresa”, explica. Entre as recomendações da advogada está a preservação de documentos e registros relacionados ao tema, como e-mails, protocolos, mensagens, comunicados internos e comprovantes de adesão. Esse material pode ser decisivo para esclarecer eventuais controvérsias futuras. Embora a discussão tenha ganhado visibilidade a partir do caso envolvendo empregados da Caixa Econômica Federal, especialistas ressaltam que o alerta vale para trabalhadores de diversos setores da economia. Em um cenário cada vez mais marcado por metas de desempenho, remuneração variável e adesões eletrônicas, compreender o que está sendo assinado tornou-se uma medida essencial de proteção jurídica.
Tecnologia de rastreamento ocular amplia precisão no diagnóstico do autismo
Clínica capixaba passa a utilizar tecnologia de Eye Tracking para identificar biomarcadores do TEA e acompanhar a evolução terapêutica de crianças e adolescentes A clínica capixaba Vidah Kids passou a oferecer, de forma pioneira no Espírito Santo, a tecnologia de Eye Tracking (rastreamento ocular) como ferramenta complementar para o diagnóstico e o acompanhamento de crianças e adolescentes com Transtorno do Espectro Autista (TEA) e Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH). Baseado em estudos da neurociência, o sistema analisa os movimentos oculares em milissegundos e identifica padrões visuais que podem indicar alterações no desenvolvimento neurológico. O exame é rápido, dura entre cinco e dez minutos, e não provoca qualquer desconforto. Durante a avaliação, a criança assiste a vídeos curtos e interativos em uma tela, enquanto sensores captam de forma silenciosa e não invasiva seus movimentos oculares. A partir desses dados, o sistema gera informações objetivas sobre a forma como o cérebro responde a estímulos sociais, permitindo identificar sinais que muitas vezes passam despercebidos em avaliações convencionais. A tecnologia se baseia na análise da chamada atenção social espontânea. Em geral, pessoas com desenvolvimento típico tendem a direcionar naturalmente o olhar para rostos, expressões faciais e especialmente para a região dos olhos. Já indivíduos com TEA costumam apresentar padrões diferentes de fixação ocular, refletindo características específicas do processamento cerebral e da ativação de determinadas redes neurais. Segundo a médica neurocirurgiã pediátrica e neuropsiquiatra infantil Dra. Larissa de Sousa, responsável pela Vidah Kids, o Eye Tracking representa um importante avanço ao transformar em dados objetivos aspectos comportamentais que antes dependiam exclusivamente da observação clínica. “A tecnologia não substitui a avaliação médica nem o olhar multiprofissional, mas funciona como uma espécie de exame de imagem do comportamento social, permitindo identificar sinais de risco e apoiar o diagnóstico de forma mais precoce e precisa”, explica. Outro diferencial da ferramenta está na personalização do tratamento. Com os dados coletados, a equipe consegue compreender quais estímulos despertam maior interesse da criança e quais tendem a ser ignorados, auxiliando na construção de estratégias terapêuticas mais eficazes. Além disso, o exame pode ser repetido periodicamente, permitindo acompanhar a evolução do paciente de forma visual e quantitativa ao longo do tratamento. Os relatórios gerados pelo sistema também servem como apoio para profissionais de psicologia, fonoaudiologia e terapia ocupacional, além de oferecer subsídios importantes para as famílias e para as escolas. Com informações mais precisas sobre o desenvolvimento da criança, é possível direcionar intervenções durante períodos de maior plasticidade cerebral e fortalecer o planejamento terapêutico e pedagógico de maneira integrada.
Jack Rocha – “Benedita e todas nós”
Há ataques que não são apenas individuais. Eles carregam séculos de preconceito, exclusão e violência contra aqueles que ousaram ocupar espaços que lhes foram negados por gerações. As recentes declarações dirigidas à deputada federal Benedita da Silva não atingem apenas uma mulher. Atingem uma história de luta construída por uma mulher negra, nascida na favela, trabalhadora, que transformou sua própria trajetória em instrumento de mudança para milhões de brasileiros e brasileiras. Como mulher negra, não consigo olhar para esse episódio sem reconhecer algo que atravessa a vida de tantas de nós. O peso dos olhares desconfiados. Os julgamentos que tentam nos diminuir. A cobrança permanente para provarmos que pertencemos aos espaços que ocupamos. A diferença entre Benedita e eu é apenas geracional. Ela abriu caminhos para que mulheres negras como eu pudessem chegar onde estamos hoje. Benedita foi a primeira mulher negra eleita vereadora do Rio de Janeiro, a primeira deputada federal negra do Estado, a primeira mulher negra senadora da República e a primeira mulher negra a governar o Rio de Janeiro. Sua trajetória se confunde com a própria história da luta por democracia, igualdade racial e direitos das mulheres no Brasil. Por isso, quando tentam reduzir sua relevância à idade, não estamos diante de uma simples divergência política. Estamos diante da manifestação de preconceitos estruturais que insistem em sobreviver e se reinventar. O racismo, a misoginia e o etarismo se combinam para tentar desqualificar uma liderança cuja história desafia privilégios históricos e rompeu barreiras consideradas intransponíveis. O que incomoda em Benedita nunca foi sua idade. O que incomoda é sua existência política. É o fato de uma mulher negra ter ocupado espaços que, durante muito tempo, foram reservados a poucos. É o fato de continuar sendo uma voz respeitada, influente e comprometida com as causas populares depois de décadas de vida pública. Não por acaso, uma parte importante da minha atuação parlamentar tem sido dedicada a ampliar a presença negra nos espaços de decisão. Como idealizadora da Bancada Negra da Câmara dos Deputados, tenho a convicção de que representatividade não é apenas um símbolo. É uma ferramenta de transformação. E essa compreensão nasce do legado de mulheres como Benedita da Silva, que enfrentaram o racismo e o machismo quando quase não existiam referências de mulheres negras ocupando posições de poder em nosso país. A violência política contra as mulheres assume muitas formas. Às vezes vem em ataques explícitos. Outras vezes aparece disfarçada de opinião, comentário ou ironia. Mas seu objetivo é sempre o mesmo: constranger, deslegitimar e afastar mulheres dos espaços de liderança. Essa violência se torna ainda mais cruel quando direcionada às mulheres negras. Somos as que menos ocupam cargos de poder e, ao mesmo tempo, as que mais enfrentam barreiras para permanecer neles. Quando uma liderança como Benedita é atacada, a mensagem que tentam transmitir é de que nenhuma de nós estará protegida, independentemente de sua trajetória, competência ou contribuição para a sociedade. Mas a história de Benedita ensina justamente o contrário. Ensina que resistir é possível, que a política pode ser um instrumento de transformação social e que cada porta aberta por uma mulher negra amplia os horizontes de todas as que virão depois. Defender Benedita hoje é defender todas as mulheres que enfrentam diariamente o machismo, o racismo, o etarismo e a violência política. É defender a memória das que abriram caminhos antes de nós e o futuro das que ainda chegarão. Mulheres negras não envelhecem fora da história. Elas se tornam história. E Benedita da Silva é uma das mais importantes que o Brasil já produziu. Sua trajetória não se mede pela idade. Mede-se pelas portas que abriu, pelos direitos que ajudou a conquistar e pelas vidas que transformou. E é exatamente por isso que seguirá inspirando gerações. *Jack Rocha é a primeira deputada federal negra eleita pelo Espírito Santo e coordenadora-geral da Secretaria da Mulher e da Bancada Feminina na Câmara dos Deputados.