Jack Rocha – “Benedita e todas nós”

Há ataques que não são apenas individuais. Eles carregam séculos de preconceito, exclusão e violência contra aqueles que ousaram ocupar espaços que lhes foram negados por gerações.

As recentes declarações dirigidas à deputada federal Benedita da Silva não atingem apenas uma mulher. Atingem uma história de luta construída por uma mulher negra, nascida na favela, trabalhadora, que transformou sua própria trajetória em instrumento de mudança para milhões de brasileiros e brasileiras.

Como mulher negra, não consigo olhar para esse episódio sem reconhecer algo que atravessa a vida de tantas de nós. O peso dos olhares desconfiados. Os julgamentos que tentam nos diminuir. A cobrança permanente para provarmos que pertencemos aos espaços que ocupamos. A diferença entre Benedita e eu é apenas geracional. Ela abriu caminhos para que mulheres negras como eu pudessem chegar onde estamos hoje.

Benedita foi a primeira mulher negra eleita vereadora do Rio de Janeiro, a primeira deputada federal negra do Estado, a primeira mulher negra senadora da República e a primeira mulher negra a governar o Rio de Janeiro. Sua trajetória se confunde com a própria história da luta por democracia, igualdade racial e direitos das mulheres no Brasil.

Por isso, quando tentam reduzir sua relevância à idade, não estamos diante de uma simples divergência política. Estamos diante da manifestação de preconceitos estruturais que insistem em sobreviver e se reinventar. O racismo, a misoginia e o etarismo se combinam para tentar desqualificar uma liderança cuja história desafia privilégios históricos e rompeu barreiras consideradas intransponíveis.

O que incomoda em Benedita nunca foi sua idade. O que incomoda é sua existência política. É o fato de uma mulher negra ter ocupado espaços que, durante muito tempo, foram reservados a poucos. É o fato de continuar sendo uma voz respeitada, influente e comprometida com as causas populares depois de décadas de vida pública.

Não por acaso, uma parte importante da minha atuação parlamentar tem sido dedicada a ampliar a presença negra nos espaços de decisão. Como idealizadora da Bancada Negra da Câmara dos Deputados, tenho a convicção de que representatividade não é apenas um símbolo. É uma ferramenta de transformação. E essa compreensão nasce do legado de mulheres como Benedita da Silva, que enfrentaram o racismo e o machismo quando quase não existiam referências de mulheres negras ocupando posições de poder em nosso país.

A violência política contra as mulheres assume muitas formas. Às vezes vem em ataques explícitos. Outras vezes aparece disfarçada de opinião, comentário ou ironia. Mas seu objetivo é sempre o mesmo: constranger, deslegitimar e afastar mulheres dos espaços de liderança.

Essa violência se torna ainda mais cruel quando direcionada às mulheres negras. Somos as que menos ocupam cargos de poder e, ao mesmo tempo, as que mais enfrentam barreiras para permanecer neles. Quando uma liderança como Benedita é atacada, a mensagem que tentam transmitir é de que nenhuma de nós estará protegida, independentemente de sua trajetória, competência ou contribuição para a sociedade.

Mas a história de Benedita ensina justamente o contrário. Ensina que resistir é possível, que a política pode ser um instrumento de transformação social e que cada porta aberta por uma mulher negra amplia os horizontes de todas as que virão depois.

Defender Benedita hoje é defender todas as mulheres que enfrentam diariamente o machismo, o racismo, o etarismo e a violência política. É defender a memória das que abriram caminhos antes de nós e o futuro das que ainda chegarão.

Mulheres negras não envelhecem fora da história. Elas se tornam história. E Benedita da Silva é uma das mais importantes que o Brasil já produziu. Sua trajetória não se mede pela idade. Mede-se pelas portas que abriu, pelos direitos que ajudou a conquistar e pelas vidas que transformou. E é exatamente por isso que seguirá inspirando gerações.

*Jack Rocha é a primeira deputada federal negra eleita pelo Espírito Santo e coordenadora-geral da Secretaria da Mulher e da Bancada Feminina na Câmara dos Deputados.

sobre nós

Diretor de conteúdo – Eduardo Caliman

Jornalista formado pela Ufes (1995), com Master em Jornalismo para Editores pelo CEU/Universidade de Navarra – Espanha. Iniciou a carreira em A Tribuna e depois atuou por 21 anos em A Gazeta, como repórter, editor de Política, coordenador de Reportagens Especiais e editor-executivo. Foi também presidente do Diário Oficial, subsecretário de Comunicação do ES e, de 2018 a 2024, coordenador de comunicação institucional no sistema OAB-ES/CAAES.

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