Há algo de particular na maneira como aprendemos a observar nossas cidades. Edifícios surgem, bairros se verticalizam, antigas casas desaparecem, avenidas são transformadas, terrenos tornam-se condomínios e determinadas regiões passam a concentrar investimentos. Diante dessas transformações, é comum ouvirmos que determinada região “cresceu”, que um bairro “se desenvolveu”, que uma área “descobriu sua vocação” ou que uma nova centralidade simplesmente “surgiu”. São expressões tão incorporadas ao vocabulário cotidiano que raramente percebemos aquilo que elas ocultam: descrevemos com facilidade aquilo que aconteceu com a cidade, mas nem sempre reconhecemos os processos e os sujeitos que tornaram essas transformações possíveis. Existe nessa linguagem uma representação quase biológica do fenômeno urbano. Crescer, nascer, amadurecer e desenvolver-se são processos que associamos aos organismos vivos e que, quando utilizados para explicar transformações urbanas, atribuem à cidade uma espécie de autonomia. Ela cresce porque precisa crescer, verticaliza-se porque chegou o momento de verticalizar-se e expande-se porque seu desenvolvimento aparentemente exige expansão. Aos poucos, aquilo que é resultado de uma sucessão de escolhas passa a ser percebido como consequência natural de uma dinâmica própria da cidade. Entretanto, cidades não constroem edifícios, não alteram índices urbanísticos, não modificam gabaritos e não escolhem quais regiões receberão infraestrutura ou investimentos. Essas decisões são tomadas por pessoas, governos, empresas e instituições, dentro de estruturas nas quais diferentes agentes possuem capacidades distintas de intervenção. Um edifício que modifica a paisagem de um bairro depende de uma sequência de condições anteriores à sua construção: existe uma propriedade, uma legislação que determina o que pode ser construído, agentes dispostos a realizar o investimento, pessoas interessadas naquele produto e, frequentemente, infraestruturas que tornam aquela localização atrativa. O edifício é apenas a manifestação mais visível de uma cadeia muito maior de decisões. Talvez seja justamente essa distância entre aquilo que vemos e os processos que tornaram aquilo possível que mereça maior atenção. Podemos conhecer profundamente nossos bairros, acompanhar suas transformações, reclamar do trânsito, celebrar novos equipamentos urbanos e perceber a valorização ou degradação de determinadas regiões. Ainda assim, existe uma diferença importante entre reconhecer que uma transformação aconteceu e compreender as condições que permitiram que ela acontecesse. Quanto mais natural nos parece uma transformação, menos sentimos a necessidade de perguntar como ela foi produzida. Vemos o edifício, mas não necessariamente a legislação que tornou aquele edifício possível. Percebemos a valorização de um bairro, mas raramente relacionamos essa valorização à infraestrutura, aos investimentos e às decisões que a antecederam. Observamos uma região mudar de perfil e tendemos a compreender essa transformação como manifestação de uma nova “vocação”, sem necessariamente perguntar como essa vocação foi construída. O resultado permanece diante de nossos olhos, enquanto seus mecanismos de produção se tornam menos evidentes. É nesse contexto que expressões aparentemente banais como “crescimento”, “desenvolvimento”, “modernização” e até mesmo “mercado” começam a adquirir uma autonomia curiosa. Dizemos que a cidade precisava crescer naquela direção, que determinada região naturalmente caminhava para a verticalização ou que o mercado demandava um novo tipo de ocupação. Nenhuma dessas afirmações é necessariamente falsa. O problema aparece quando elas encerram a discussão em vez de iniciá-la. Uma demanda pode existir, uma região pode apresentar condições favoráveis à verticalização e uma cidade pode precisar acomodar novas formas de ocupação; ainda assim, permanecem abertas as perguntas sobre como, onde e em quais condições essas transformações devem acontecer. Reconhecer a cidade como resultado dessas escolhas não significa negar sua transformação, muito menos supor que cada mudança urbana seja consequência da vontade isolada de algum agente. Significa apenas compreender que nenhuma delas acontece fora das condições que as tornam possíveis. Cada edifício, infraestrutura, alteração de uso ou transformação da paisagem possui uma história composta por legislação, investimento, propriedade, decisões públicas, interesses privados e diferentes formas de participação. Algumas dessas forças são facilmente identificáveis; outras permanecem quase invisíveis para quem experimenta apenas o resultado final. Talvez seja necessário, então, inverter a maneira como formulamos algumas perguntas sobre nossas cidades. Em vez de perguntar apenas por que determinado bairro cresceu, podemos perguntar quais condições permitiram seu crescimento. Em vez de aceitar que uma região descobriu determinada vocação, podemos investigar como essa vocação foi construída. A cidade continuará crescendo, se transformando e encontrando novas formas de ocupação. A questão é lembrar que ela não faz nada disso sozinha. E, a partir daí, talvez possamos começar por uma pergunta mais interessante: quem participa das decisões que determinam como a cidade pode crescer? *João Machado é arquiteto e urbanista formado pela UFES. Passou os últimos 14 anos entre projetos de grande porte e empreendimentos de alto padrão no Rio de Janeiro. De volta ao Espírito Santo, traz na bagagem essa experiência e um olhar atento às relações entre arquitetura, mercado imobiliário e as transformações que constroem nossas cidades.
Dor no joelho e no ombro atinge um em cada quatro brasileiros e avança entre os mais jovens
Estudo com quase 88 mil pessoas mostra que 26,1% dos adultos convivem com doenças musculoesqueléticas crônicas Dor no joelho ao subir uma escada, incômodo no ombro ao levantar o braço ou desconforto depois da academia e de horas diante do computador. Problemas muitas vezes associados ao envelhecimento estão aparecendo com frequência também entre jovens e adultos em plena idade produtiva. Um estudo publicado em 2025, com base em dados da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) de 87.648 brasileiros, apontou que 26,1% dos adultos convivem com doenças musculoesqueléticas crônicas. O grupo inclui problemas que atingem articulações, músculos, tendões e ligamentos. Entre pessoas de 35 a 49 anos, a prevalência é quase duas vezes maior do que entre os adultos mais jovens. Às vésperas do Dia do Ortopedista, celebrado em 19 de setembro, especialistas chamam a atenção para uma mudança no perfil de quem chega aos consultórios. Sedentarismo, excesso de exercícios sem preparação adequada, movimentos repetitivos e longos períodos diante do computador estão entre os fatores relacionados às queixas. “Hoje recebemos muitos pacientes entre 30 e 45 anos com dores no joelho, no ombro e em outras articulações”, afirma o ortopedista Ricardo Luiz Gave Lima, do Instituto Santa Mônica de Ortopedia e Traumatologia (ISMOT). Segundo ele, a dor musculoesquelética deixou de ser uma questão concentrada no envelhecimento e passou a atingir também pessoas mais jovens. Joelho e ombro entre as principais queixas A popularização das atividades físicas também traz um desafio: praticar exercícios sem respeitar os limites do corpo. Estudos sobre lesões relacionadas à corrida apontam o joelho como a articulação mais afetada, respondendo por aproximadamente um terço das lesões registradas entre praticantes da modalidade. O ortopedista Dhyego Bonelle de Sousa ressalta que a atividade física continua sendo fundamental para a saúde. O sinal de alerta aparece quando a dor se torna persistente durante ou depois dos exercícios. “Muitas pessoas continuam treinando mesmo com sintomas e acabam agravando lesões que poderiam ser tratadas de forma mais simples”, explica. Dor que permanece por dias ou semanas, perda de força, limitação dos movimentos, inchaço, desconforto que interrompe o sono e dificuldade para realizar tarefas comuns são alguns dos sinais que merecem avaliação médica. O diagnóstico precoce pode ampliar as possibilidades de tratamento e evitar o agravamento do quadro. Dependendo da causa e das condições do paciente, as alternativas podem envolver fisioterapia, programas de reabilitação e outros procedimentos específicos indicados pelo especialista. Para Ricardo Luiz Gave Lima, a principal orientação é não incorporar a dor à rotina como se fosse algo inevitável. “Quanto mais cedo identificamos a causa do problema, maiores são as chances de realizar um tratamento menos invasivo, recuperar a função, evitar a progressão da lesão e preservar a qualidade de vida”, conclui.
Cine.Ema leva saberes indígenas, ciência e vivências na Mata Atlântica a Vargem Alta
Programação gratuita será realizada na Reserva Ambiental Águia Branca e reúne lideranças indígenas, cineasta e especialista em biodiversidade Uma sala de aula sem paredes, em plena Mata Atlântica, onde ciência, ancestralidade e conhecimento tradicional se encontram. Essa é a proposta do 12º Festival Nacional de Cinema Ambiental do Espírito Santo, o Cine.Ema, que realiza no dia 18 de setembro uma programação especial na Reserva Ambiental Águia Branca, em Vargem Alta. Das 9h às 17h, o público poderá participar gratuitamente de rodas de conversa e experiências na floresta que abordam educação ambiental, cultura indígena, biodiversidade, memória e os desafios para a conservação da Mata Atlântica. As atividades fazem parte do conceito “Ancestralizar”, tema que orienta a edição deste ano do festival. Um dos destaques será o encontro “Ancestralidade, Território e Oralidade – O olhar que vem do território”, das 10h às 11h, com o educador e líder indígena Jocelino Tupinikim e a cineasta Beka Mundukuru. A conversa vai abordar a relação dos povos originários com a floresta, a memória, a identidade e o território, além do papel do cinema na preservação e produção de narrativas indígenas. Na sequência, das 11h30 às 13h, os participantes deixam a condição de espectadores para entrar na mata. A programação prevê banho de floresta, caminhada contemplativa, exercícios de escuta e silêncio e atividades voltadas à percepção dos elementos e ciclos da natureza. Às 13h30, será servido um almoço inspirado nos sabores da Mata Atlântica. A programação da tarde começa às 15h com a roda de conversa “A volta à casa”, conduzida pelo professor Fábio Scarano. Titular de Ecologia da UFRJ, curador do Museu do Amanhã e titular da Cátedra Unesco de Alfabetização em Futuros, Scarano discutirá como a recuperação e a conservação da Mata Atlântica podem transformar um dos biomas tropicais mais ameaçados do planeta em um ponto de esperança diante das mudanças climáticas. Às 16h, Scarano se junta a Jocelino Tupinikim e Beka Mundukuru para o encontro “Ancestralizar a Floresta – compromissos para o futuro”. A proposta é aproximar conhecimento científico e saberes tradicionais e discutir caminhos concretos para a conservação da Mata Atlântica. A escolha de uma reserva ambiental como cenário faz parte da proposta do Cine.Ema de aproximar as discussões ambientais da experiência cotidiana. Em Vargem Alta, floresta, educação, cultura e ciência passam a dividir o mesmo espaço, permitindo que questões como conservação e mudanças climáticas sejam vivenciadas para além das salas de aula e dos debates teóricos. A programação do festival na Reserva Ambiental Águia Branca continua no dia 19 de setembro, com o projeto “Orquestra na Floresta”. A partir das 15h, o espaço recebe apresentação da Orquestra Sinfônica do Espírito Santo e uma sessão de cinema ao ar livre. O 12º Festival Cine.Ema tem patrocínio do Grupo Águia Branca e apoio da Reserva Águia Branca, Sapucaia da Mata, Natureza Eco Lodge, TVE e Unimed Sul Capixaba. A realização é da Caju Produções e do Ministério da Cultura, por meio da Lei Rouanet. Serviço 12º Festival Cine.Ema – Ancestralizar Data: 18 de setembro de 2026 Horário: das 9h às 17h Local: Reserva Ambiental Águia Branca, Vargem Alta (ES) Entrada: gratuita, mediante inscrição antecipada Vagas: limitadas