Com mais de 18 milhões de brasileiros vivendo com transtornos de ansiedade, o país enfrenta um cenário de agravamento da saúde mental, especialmente no ambiente de trabalho. O tema ganha destaque em abril, mês marcado pela campanha Abril Verde, que amplia o debate sobre segurança e bem-estar dos trabalhadores.
Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) colocam o Brasil como o país mais ansioso do mundo. Esse contexto se reflete diretamente nas relações profissionais, onde cobranças constantes, metas elevadas e insegurança financeira contribuem para o aumento de casos de estresse crônico, ansiedade e síndrome de burnout.
O impacto já aparece nos números oficiais. Segundo o Ministério da Previdência Social, 546 mil pessoas foram afastadas do trabalho em 2025 por problemas relacionados à saúde mental — um crescimento de 15% em relação ao ano anterior. Em 2024, a ansiedade foi responsável por 166 mil afastamentos, enquanto a depressão levou ao afastamento de 126 mil trabalhadores.

Para a psicanalista e neurocientista Joseana Sousa, o trabalho tem papel central na construção da identidade e do senso de pertencimento. “Muitas pessoas permanecem em contextos adoecedores por necessidade ou medo, o que gera um estado de tensão contínua. O inconsciente tenta sustentar, mas o corpo responde”, afirma.
Segundo ela, o burnout é um dos principais desdobramentos desse processo e não surge de forma repentina. “Ele é, muitas vezes, o limite de um corpo que não conseguiu parar antes. O cansaço extremo, a irritação constante, dores de cabeça persistentes, mudanças no sono e a perda de sentido no trabalho são sinais de alerta”, explica.
Além das pressões profissionais, a questão financeira também pesa. Levantamento da Creditas, em parceria com a Opinion Box, aponta que 66% dos trabalhadores afirmam que problemas financeiros afetam diretamente a saúde mental, ampliando o nível de estresse no dia a dia.
No contexto do Abril Verde, a especialista defende uma abordagem mais ampla sobre a saúde do trabalhador. “Não basta falar de segurança física. É preciso criar ambientes emocionalmente seguros, onde as pessoas possam ser ouvidas e respeitadas”, diz.
Ela também reforça a importância do autocuidado e da busca por apoio profissional. “Reconhecer o próprio limite não é fraqueza, é consciência. Cuidar da saúde mental é preservar não só a produtividade, mas a própria qualidade de vida”, conclui.
A campanha Abril Verde
Criada em 2014, a campanha Abril Verde tem como objetivo conscientizar sobre saúde e segurança no trabalho. Nos últimos anos, o movimento ganhou força com o aumento de denúncias ao Ministério Público do Trabalho (MPT) e de ações na Justiça Trabalhista envolvendo assédio moral e sexual, discriminação e doenças ocupacionais — cuja lista foi atualizada pelo Ministério da Saúde em 2023.
A iniciativa também busca envolver os próprios trabalhadores, incentivando a conscientização sobre direitos, deveres e a identificação de riscos psicossociais no ambiente profissional.
O mês foi escolhido em referência ao dia 28 de abril, data reconhecida pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) como o Dia Mundial da Segurança e Saúde no Trabalho, em memória de trabalhadores mortos em um acidente ocorrido nos Estados Unidos, em 1969.
