O crescimento do uso de medicamentos injetáveis para emagrecimento, conhecidos popularmente como “canetas”, tem acendido um alerta entre profissionais de saúde. Em meio à promessa de perda rápida de peso, muitas pessoas têm recorrido a substâncias como o Mounjaro sem acompanhamento médico, adquirindo produtos de procedência duvidosa e, em alguns casos, utilizando o medicamento apenas por razões estéticas.
Para a psicoterapeuta e psicanalista Joseana Sousa, especialista em análise corporal e comportamental, esse movimento revela que a questão do peso nem sempre está restrita a fatores metabólicos ou hormonais. Segundo ela, o sobrepeso também pode estar associado a aspectos emocionais e a mecanismos inconscientes de defesa.
De acordo com a especialista, estudos da psicanálise e da psicossomática indicam que o corpo pode responder a vivências emocionais não elaboradas, especialmente traumas. Nesses casos, o ganho de peso pode cumprir funções simbólicas como proteção, força ou visibilidade.
Pesquisas publicadas na área de saúde mental e comportamental apontam, por exemplo, uma associação significativa entre experiências adversas na infância, como abusos, e maior risco de obesidade na vida adulta.

“Em muitos casos, o corpo passa a funcionar como uma barreira de proteção. Subconscientemente, um corpo maior pode ser percebido como um mecanismo de segurança para afastar avanços indesejados ou até para se tornar ‘invisível’ socialmente, protegendo contra abusos ou rejeições”, explica Joseana.
Segundo a psicanalista, mulheres que vivenciaram episódios de violência ou relações afetivas difíceis podem, de forma inconsciente, modificar a própria aparência como mecanismo de defesa emocional.
“O inconsciente fala através do corpo. Quando essa consciência desperta, é possível tratar a causa raiz do ganho de peso e não apenas o sintoma”, afirma.
Joseana ressalta, no entanto, que o sobrepeso é uma condição multifatorial e que não deve ser explicado por apenas um fator isolado.
“O sobrepeso exige uma investigação cuidadosa e individualizada. Questões hormonais, metabólicas, genéticas, alimentares e de estilo de vida precisam ser avaliadas junto ao histórico emocional. Cada corpo tem uma história e cada história precisa ser escutada com responsabilidade e profundidade”, diz.
Nesse contexto, o uso de medicamentos para emagrecimento sem acompanhamento profissional pode mascarar temporariamente o problema sem tratar suas causas.
“Cuidar do peso também é cuidar da história emocional. Sem esse olhar, qualquer solução rápida tende a ser incompleta”, conclui.
