O Hospital Santa Rita realizou, na última sexta-feira (27), a primeira radioembolização hepática com esferas de vidro (TheraSphere) no Espírito Santo, incorporando ao estado uma das tecnologias mais avançadas atualmente disponíveis para o tratamento de tumores no fígado.
O procedimento, minimamente invasivo, é realizado em duas etapas e ocorre integralmente na própria instituição, integrando a estrutura da Sala de Hemodinâmica do Instituto do Coração e o Serviço de Medicina Nuclear do hospital, o que permite a aplicação da terapia com elevado nível de precisão e segurança.
A paciente submetida ao procedimento foi uma senhora de 83 anos, diagnosticada com carcinoma hepatocelular, um tumor primário do fígado. Segundo o hospital, ela evoluiu bem após a intervenção e recebeu alta no final do mesmo dia.
A primeira etapa do tratamento, chamada de mapeamento, consiste em um estudo detalhado dos vasos sanguíneos da região a ser tratada. Nessa fase, os médicos avaliam a anatomia vascular do fígado e calculam o chamado shunt hepatopulmonar, que indica o risco de migração do material para os pulmões, permitindo simular o procedimento com segurança. Esse estágio foi realizado no dia 30 de janeiro.
A segunda etapa corresponde à radioembolização propriamente dita, quando são aplicadas as microesferas de vidro contendo o radioisótopo Ítrio-90. A tecnologia possibilita a liberação de altas doses de radiação diretamente no tumor, com mínima toxicidade para o tecido hepático saudável ao redor.
O médico radiologista intervencionista do Hospital Santa Rita, Luiz Sérgio Pereira Grillo Júnior, responsável pelo procedimento, explica que o intervalo entre as duas etapas depende da logística de envio do material radioativo.
“Para cada paciente é calculada a dose necessária, que é preparada em laboratório especializado nos Estados Unidos e enviada diretamente ao hospital credenciado. No Espírito Santo, o Hospital Santa Rita possui a estrutura e o credenciamento necessários para a realização desse tipo de tratamento”, afirmou.
Com a realização do procedimento, o hospital passa a integrar o grupo de centros brasileiros habilitados a realizar a radioembolização com microesferas de vidro, tecnologia utilizada em instituições de referência como o Hospital Israelita Albert Einstein e o A.C. Camargo Cancer Center.
Equipe médica
Médico responsável: Dr. Luiz Sérgio Pereira Grillo Júnior – Radiologista intervencionista do Hospital Santa Rita
Proctor: Dra. Aline Cristine Barbosa Santos Cavalcante – Radiologista intervencionista do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP e do A.C. Camargo Cancer Center
Planejamento e cálculo da dose: Dra. Letícia Rigo – Médica nuclear do A.C. Camargo Cancer Center
Medicina Nuclear – Hospital Santa Rita: Dr. Daniel Camisão Bortot – Médico nuclear e Dra. Karina Nique Franz Silbermann – Física médica
Instituto do Coração – Hemodinâmica: Dr. Renato Serpa – Coordenador do Serviço de Hemodinâmica, com equipe de enfermeiros e técnicos da unidade
O que é a TheraSphere
A radioembolização hepática com esferas de vidro, conhecida pela marca TheraSphere, é uma tecnologia de radioterapia interna seletiva (SIRT) utilizada no tratamento de tumores hepáticos, especialmente o carcinoma hepatocelular e algumas metástases, principalmente quando a cirurgia não é possível.
O tratamento utiliza microesferas de vidro que contêm o radioisótopo Ítrio-90. Essas partículas são administradas diretamente na artéria que irriga o tumor, permitindo que a radiação seja liberada de forma altamente direcionada.
Como funciona a tecnologia
Diferentemente da quimioembolização, procedimento já amplamente utilizado, a radioembolização tem como principal mecanismo de ação a radiação, e não o bloqueio do fluxo sanguíneo.
As microesferas possuem cerca de 32 micrômetros e se alojam nos pequenos vasos que irrigam o tumor. O Ítrio-90 emite radiação beta de alto poder, capaz de penetrar aproximadamente 2,5 milímetros no tecido, destruindo as células tumorais.
As esferas de vidro permitem a aplicação de doses mais elevadas de radiação, sendo especialmente eficazes em tumores sólidos primários.
O procedimento é realizado por meio de cateterismo arterial, geralmente pela artéria da virilha, guiado por imagem, sem necessidade de incisões cirúrgicas e com recuperação rápida.
Vantagens da radioembolização
Entre os principais benefícios estão a alta precisão, com a radiação direcionada diretamente para o tumor, preservando o tecido hepático saudável; menor toxicidade sistêmica em comparação com a quimioterapia convencional; e recuperação mais rápida.
A internação, quando necessária, costuma ser curta, geralmente em torno de 24 horas. O Ítrio-90 possui meia-vida de cerca de 64 horas, mas o efeito terapêutico pode persistir por até 11 dias.
Indicações
A radioembolização é indicada para pacientes com carcinoma hepatocelular irressecável, metástases hepáticas colorretais, colangiocarcinoma e tumores neuroendócrinos.
O procedimento também está incluído no Rol de Procedimentos da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) para o tratamento de carcinoma hepatocelular em estágio intermediário ou avançado, quando a quimioembolização não é indicada.
Cuidados
Apesar de ser minimamente invasivo, o tratamento exige acompanhamento rigoroso. Entre os possíveis riscos estão a descompensação da doença hepática, podendo causar icterícia (coloração amarelada da pele) ou ascite (acúmulo de líquido no abdômen), em decorrência do impacto da radiação sobre o fígado remanescente.
