A poluição do ar é um problema que, muitas vezes, passa despercebido na rotina cotidiana, mas que provoca impactos profundos e silenciosos na saúde da população. Quando se fala em poluição atmosférica — especialmente nas partículas finas suspensas no ar — estamos diante de uma das maiores ameaças à saúde pública nas áreas urbanas, tanto em escala global quanto aqui, no Espírito Santo.
Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) demonstram de forma consistente que a exposição a partículas inaláveis está associada ao aumento de doenças respiratórias e cardiovasculares, ao câncer de pulmão e à elevação do risco de mortalidade prematura. Esses números evidenciam que a poluição do ar não é apenas um incômodo ambiental, mas um fator que compromete diretamente a qualidade e a expectativa de vida da população.
No Espírito Santo, esse debate é ainda mais próximo da realidade dos moradores. O convívio com o chamado pó de minério é antigo e segue sendo alvo de fiscalizações por órgãos públicos e de discussões recorrentes na sociedade. Neste início de ano, moradores de diferentes municípios voltaram a relatar os impactos do problema. Em Vitória, especialmente na região da Enseada do Suá, houve aumento das reclamações sobre a presença do pó preto dentro das residências. Em Cariacica, moradores do bairro Porto de Santana chegaram a se mobilizar publicamente, denunciando transtornos causados por uma empresa instalada na região, que há anos afeta a qualidade do ar local.
Os riscos da poluição atmosférica vão muito além do desconforto visual ou da sujeira aparente. As partículas poluentes são pequenas o suficiente para penetrar profundamente nos pulmões e, em alguns casos, alcançar a corrente sanguínea. Esse processo desencadeia inflamações no organismo e contribui para o surgimento ou agravamento de doenças como asma, bronquite e enfisema, além de piorar quadros em pacientes com doenças cardiovasculares. A exposição prolongada também está associada ao aumento do risco de câncer de pulmão e a outras complicações sistêmicas.
Os efeitos tendem a ser ainda mais intensos em pessoas que já convivem com doenças respiratórias crônicas. Nesses casos, a poluição do ar agrava os sintomas, elevando a demanda por atendimentos de emergência e internações hospitalares. Crianças, idosos e indivíduos com condições de saúde pré-existentes formam o grupo mais vulnerável, sofrendo de maneira mais significativa os impactos dessas partículas nocivas.
Diante desse cenário, a qualidade do ar precisa ser tratada como uma prioridade de saúde pública. Monitoramento ambiental eficiente, fiscalização rigorosa e políticas públicas efetivas são medidas indispensáveis para reduzir os danos causados pela poluição atmosférica. Da mesma forma, é fundamental ampliar a conscientização da população sobre os riscos invisíveis presentes no ar que respiramos diariamente. Cuidar do ar é, acima de tudo, cuidar da saúde coletiva. Ignorar esse problema significa aceitar que seus efeitos silenciosos continuem adoecendo pessoas e sobrecarregando o sistema de saúde.
Jessica Polese é pneumologista e especialista em Medicina do Sono e vice-presidente da Associação Brasileira do Sono – Regional ES
