João Batista Dallapiccola Sampaio – “O canto da sereia”

Em 21 de fevereiro de 1848, um documento de profunda ressonância histórica foi lançado ao mundo: o Manifesto Comunista, obra de Karl Marx e Friedrich Engels. Publicado em meio à efervescência da Primavera dos Povos, um período de intensas revoluções e transformações sociais na Europa, o Manifesto prometia uma nova era, livre das amarras da exploração e da desigualdade. Suas palavras, carregadas de um idealismo revolucionário e de uma visão utópica de uma sociedade sem classes, ecoaram como um canto sedutor, uma melodia que prometia a libertação e a justiça absoluta para as massas oprimidas.

Essa promessa, contudo, assemelha-se perigosamente ao canto das sereias na epopeia homérica da Odisseia. Na narrativa de Homero, as sereias, com suas vozes maravilhosas e irresistíveis, atraíam os marinheiros para um destino fatal, onde seus navios se despedaçavam contra as rochas e suas vidas eram ceifadas. A doçura de seu chamado mascarava a destruição iminente, e apenas Ulisses, amarrado ao mastro de seu navio e com a tripulação de ouvidos vedados, conseguiu testemunhar a sedução sem sucumbir à sua força aniquiladora. O Manifesto Comunista, em sua essência, apresentou-se como um convite igualmente irresistível, um apelo à revolução que, sob o véu de uma retórica de emancipação, conduziria a humanidade a um abismo de infâmia e sofrimento.

As ideias contidas no Manifesto, embora apresentadas como o caminho para a redenção social, revelaram-se, na prática, a gênese de uma das maiores chagas da história humana. A busca pela utopia comunista, que prometia o paraíso na terra, frequentemente se traduziu em regimes totalitários, supressão das liberdades individuais, perseguição política e crises humanitárias de proporções catastróficas. Exemplos como a União Soviética e a Coreia do Norte, entre outros, servem como testemunhos sombrios de como a promessa de libertação se converteu em opressão e miséria para milhões. A voz que prometia igualdade e prosperidade para todos, em muitos contextos, silenciou a dissidência, esmagou a iniciativa individual e mergulhou nações inteiras em um ciclo de pobreza e opressão.

Entretanto, a crítica a esse “canto” não deve ser interpretada como uma anuência ao capitalismo selvagem, que, em sua busca desenfreada pelo lucro, muitas vezes ignora a dignidade humana e a justiça social, valores expressamente consagrados na Constituição Federal de 1988. O verdadeiro desafio do governante e do indivíduo consciente reside na busca pelo “meio termo” — o centro político e ético. É nesse equilíbrio que se encontra a verdadeira arte da administração pública: a capacidade de promover a liberdade econômica e a iniciativa individual sem abdicar da responsabilidade social e da proteção aos mais vulneráveis. O objetivo supremo de qualquer sistema deve ser, invariavelmente, o bem-estar dos administrados, garantindo que o progresso material caminhe lado a lado com a justiça e a estabilidade democrática.

Assim, o 21 de fevereiro de 1848 não é apenas uma data de publicação, mas um marco que assinala o início de uma trajetória que, sob a bandeira de uma revolução libertadora, pavimentou o caminho para a tirania e a desumanização em larga escala. O “canto da sereia” do comunismo, com suas promessas de um mundo ideal, seduziu milhões, mas, ao invés de levá-los a um porto seguro, os conduziu a um naufrágio coletivo, deixando um legado de dor e uma mancha indelével na civilização. A história, com sua impiedosa clareza, demonstra que as mais belas utopias, quando impostas pela força e desprovidas de respeito pela dignidade humana, podem se transformar nos mais cruéis dos pesadelos.

*Artigo escrito pelo advogado João Batista Dallapiccola Sampaio em parceria com o advogado Américo Pereira Rocha.

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Diretor de conteúdo – Eduardo Caliman

Jornalista formado pela Ufes (1995), com Master em Jornalismo para Editores pelo CEU/Universidade de Navarra – Espanha. Iniciou a carreira em A Tribuna e depois atuou por 21 anos em A Gazeta, como repórter, editor de Política, coordenador de Reportagens Especiais e editor-executivo. Foi também presidente do Diário Oficial, subsecretário de Comunicação do ES e, de 2018 a 2024, coordenador de comunicação institucional no sistema OAB-ES/CAAES.

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