João Gualberto – “A Fazenda Morro das Palmas”*

O escritor capixaba Geremias Pignaton é autor de um livro muito interessante sobre a história do desenvolvimento de sua região de origem, onde hoje estão municípios como Ibiraçu, Fundão, João Neiva e Aracruz. A obra narra esse processo histórico a partir da existência da Fazenda Morro das Palmas. Para o autor, como registra no texto, a fazenda foi sede da primeira tentativa de implantação de uma colônia de imigrantes italianos no Brasil.

Ali, em 1874, Pietro Tabacchi, então proprietário da fazenda, tentou instalar a colônia Nova Trento nos confins de suas imensas terras, nas proximidades do que hoje é a cidade de Fundão, em uma empreitada que acabou destinada ao fracasso.

Com o fim da escravidão, os fazendeiros entendiam ser necessário renovar a força de trabalho. Os italianos vieram tanto para se tornarem proprietários de pequenas glebas de terra quanto para trabalhar nas fazendas. Houve também um processo de divisão das grandes propriedades, com a venda de porções de terra a longo prazo para os imigrantes. Esse modelo transformava os antigos donos de grandes fazendas em compradores do café produzido por uma multidão de pequenos produtores, passando a comandar uma extensa rede de interesses comerciais na cadeia produtiva do café, então carro-chefe da economia do Espírito Santo.

O mesmo processo ocorreu, por exemplo, na Fazenda do Centro, no atual município de Castelo, e também em grandes porções de terra em Iconha. Cada um desses municípios gerou figuras centrais do coronelismo, como o Coronel Duarte, em Iconha. Esse é, aliás, um dos elementos mais centrais do coronelismo capixaba: a existência de pequenos produtores imigrantes organizados em redes comerciais por fazendeiros já estabelecidos e próximos ao poder.

É importante lembrar que não é apenas a propriedade da terra que determina a formação social de um coronel. O fator decisivo é o controle de uma extensa rede de favores. O domínio sobre a compra da produção dos pequenos proprietários permitiu a construção dessas redes de favorecimento e auxílio cotidiano. O homem pobre, naquele período, não tinha acesso a quase nada: saúde, educação ou financiamentos.

No caso específico da Fazenda Morro das Palmas, o empreendimento de Pietro Tabacchi não prosperou, e isso está diretamente relacionado às condições de negócio que ele próprio estabeleceu. Segundo as informações organizadas por Geremias Pignaton, as promessas feitas aos italianos não foram cumpridas, as condições de sobrevivência eram precárias e os recém-chegados acabaram se revoltando.

Nesse contexto, muitos partiram em busca de novos horizontes, dirigindo-se, em sua maioria, para outro empreendimento da colonização italiana no Espírito Santo, a colônia de Santa Leopoldina. Essa experiência pioneira fracassada acabou produzindo, a partir do deslocamento desses colonos insatisfeitos, o surgimento da cidade de Santa Teresa, fato histórico relevante que merece, por si só, um texto específico.

Entretanto, não foi apenas esse grande empreendimento que marcou a história da Fazenda Morro das Palmas. Anos mais tarde, já na década de 1890, seu novo proprietário, o influente militar, político e homem de negócios Aristides Guaraná, instalou ali uma grande usina de produção de açúcar, uma das maiores do Brasil à época: o Engenho Guaraná.

Em uma história pouco conhecida pela maioria dos capixabas, destaca-se o protagonismo de um militar que atuou na Guerra do Paraguai, onde, inclusive, perdeu um dos braços. Por esse motivo, gozava de grande prestígio junto à família imperial, especialmente com o Conde d’Eu. Esse prestígio se estendeu ao início da República, em razão de sua amizade com o presidente Deodoro da Fonseca, com quem havia convivido nos campos de batalha da Guerra do Paraguai.

O Dr. Guaraná, que também era engenheiro, é descrito na obra como um escravocrata radical e perverso, responsável por diversos atos de selvageria contra trabalhadores submetidos ao regime forçado em suas terras. Chegou a ser deputado provincial defendendo a continuidade da escravidão. Graças a suas relações e influência política, obteve um grande empréstimo para implantar, a cerca de dois quilômetros da Fazenda Morro das Palmas, um enorme engenho de açúcar, batizado de Engenho Central Guaraná. As obras tiveram início em 1890, e a inauguração oficial ocorreu em 1900. Apesar de sua grandiosidade e importância industrial para a época, o empreendimento fracassou completamente.

De toda essa trajetória restaram ruínas e o nome de um distrito do município de Aracruz, situado às margens da BR-101. O resgate dessa história exigiu pesquisa, esforço e dedicação de Geremias Pignaton, mais do que suficientes para celebrar a escrita histórica desse importante trabalho. A leitura da obra é altamente recomendada para quem deseja conhecer fatos tão relevantes da trajetória histórica do Espírito Santo.

*João Gualberto Vasconcellos é mestre e professor emérito da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Doutor em Sociologia pela Escola de Altos Estudos em Ciência Política de Paris, na França, Pós-doutorado em Gestão e Cultura. Foi secretário de Cultura no Espírito Santo entre 2015 e 2018.

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Diretor de conteúdo – Eduardo Caliman

Jornalista formado pela Ufes (1995), com Master em Jornalismo para Editores pelo CEU/Universidade de Navarra – Espanha. Iniciou a carreira em A Tribuna e depois atuou por 21 anos em A Gazeta, como repórter, editor de Política, coordenador de Reportagens Especiais e editor-executivo. Foi também presidente do Diário Oficial, subsecretário de Comunicação do ES e, de 2018 a 2024, coordenador de comunicação institucional no sistema OAB-ES/CAAES.

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