João Gualberto – “Doutrina do engrossamento”

O título do artigo é o mesmo de um livro muito importante na crítica política brasileira. Publicado originalmente em 1901, a edição que me chegou às mãos – cedida gentilmente pelo escritor Pedro J. Nunes – é de 2016, daEditora do Ifes, organizada por Raoni Huapaya. O autor da obra é Graciano Neves, importante político capixaba do período do início da republica, tendo sido presidente do Espírito Santo eleito em1896, em sucessão à Muniz Freire.

Graciano Neves era médico e jornalista, um intelectual de olhar crítico, com raízes no positivismo e leitor atento do marxismo, dizem os seus estudiosos. Foi redator-chefe deO Norte do Espírito Santo, jornal editado, em São Mateus. Pertencia aos quadros do Partido Construtor, que era comandado por Muniz Freire, um grande líder capixaba na primeira república, e foi nosso grande oligarca no seu período inicial.

Como editor do Norte do Espírito Santo, foi crítico voraz do despotismo estabelecido pelo Marechal Deodoro da Fonseca – a quem chamava “tirano vulgar” – e o atacou duramente quando dissolveu o Congresso. Na presidência de Floriano Peixoto, contando ainda 23 anos, obteve rápida ascensão política quando foi indicado como parte da Junta Governativa do Estado, do fim de 1891 a 1892. Mais tarde, foi eleito presidente do Estado, tendo sidoempossado em 23 de maio de 1896. Assumindo em meio a grave crise econômica e política, realizou vários cortes orçamentários e interrompeu investimentos iniciados por Muniz Freire, seu antecessor e correligionário, criando sérios problemas no seu grupo político. A instabilidade gerada, levou-o à renúncia em setembro de 1897. Em 1906, foi eleito deputado federal. 

 Foi, portanto, um ator político de primeira linha na política brasileira, conheceu, certamente os bastidores daqueles primeiros tempos. O elitismo da república dos coronéis não permitia forte controle social da governança pública. As grandes ações eram combinadas com antecedência entre os poderosos e os ritos democráticos tinham grande dose teatral. Foi esse o ambiente que ele criticou de forma brilhante em Doutrina do Engrossamento, expressão que ele usa como sinônimo de puxa-saquismo, de uma bajulação subserviente que toma conta do poder no Brasil. Até hoje. 

 São palavras dele no texto: O que há de curioso e digno de sérios estudos nessa transição da rebeldia para a obediência, da guerra para a paz, é o processo infinitamente judicioso dos políticos profissionais para consolidar a Ordem sem prejuízos dos interesses particulares: – partilhar as comodidades oficiais, extorquindo-as com ternuras sábias, já que não é possível alcançá-las por meio da violência, nem tampouco pelos pronunciamentos eleitorais. A essa descoberta feliz e admiravelmente oportuna a voz pública afixou o nome de Engrossamento.

 

Continuo a transcrever: Engrossamento quer dizer na significacão moderna uma delicada e inteligente espécie de adulação, uma fina combinação de servilismo, hipocrisia e egoísmo, alguma coisa enfim de eminentemente salutar para os interesses do indivíduo e da sociedade. Na acepção antiga Engrossamento é aumentação de volume, alargamento de dimensões, o que se pode traduzir em robustecimento  Assim, que os indivíduos perturbadores, os políticos profissionais, compenetraram-se da ineficácia da oposição para ganhar o poder – passaram logo a aderir ao governo, dando-se aliás perfeitamente com essa simpática palinódia, o que decidiu a maioria dos ambiciosos a adotá-la comoprocesso mais fácil de sucessão governamental.

 O tratado bem-humorado de Graciano Neves não para aí, traça um perfil de como deve-se comportar um jovem que deseja vencer entre a elites brasileiras, tem muita ironia misturada com verdades. A genialidade do texto do nosso ex-presidente Graciano Neves está na sua visão de um estilo de ação que se transformou em elemento da nossa cultura política, que se reproduz até hoje. Quando os militares chegaram ao poder em 1964, vimos esse engrossamento. Também o vemos vastamente quando um novo governador chega ao poder, mesmo aqui no Espírito Santo, seus partidos engordam muito. Para darmos um último exemplo da doutrina do engrossamento, vamos nos lembrar como brotaram no nada direitistas fanáticos quando Jair Bolsonaro chegou ao poder, ou seja, mesmo em processos ditos disruptivos lá está a nossa cultura da acomodação, conciliação e puxa-saquismo.

 A adesão oportunista ao poder faz parte dos traços políticos da nossa sociedade, o mesmo traço que impede que os partidos ganhem densidade programático, porque quando um deles chega ao poder, esvazia outros discursos e faz da bajulação e das imensas tentativas de agradar os poderosos, elementos marcantes do nosso dia a dia. Acredito que só a maturidade política da nossa sociedade vai nos livrar desses elementos.

*João Gualberto Vasconcellos é mestre e professor emérito da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Doutor em Sociologia pela Escola de Altos Estudos em Ciência Política de Paris, na França, Pós-doutorado em Gestão e Cultura. Foi secretário de Cultura no Espírito Santo entre 2015 e 2018.

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Diretor de conteúdo – Eduardo Caliman

Jornalista formado pela Ufes (1995), com Master em Jornalismo para Editores pelo CEU/Universidade de Navarra – Espanha. Iniciou a carreira em A Tribuna e depois atuou por 21 anos em A Gazeta, como repórter, editor de Política, coordenador de Reportagens Especiais e editor-executivo. Foi também presidente do Diário Oficial, subsecretário de Comunicação do ES e, de 2018 a 2024, coordenador de comunicação institucional no sistema OAB-ES/CAAES.

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