Como todos sabem, afinal foi fartamente noticiado, o filme brasileiro O Agente Secreto, dirigido por Kleber Mendonça e tendo Wagner Moura como protagonista, recebeu quatro indicações ao Oscar: melhor seleção de elenco, melhor filme internacional, melhor ator para Wagner Moura e melhor filme. Essas indicações, em si mesmo, já atestam a importância atual deste filme em especial, e do cinema brasileiro como um todo. Isso porque ele vem de uma trajetória de prêmios como o festival de Cannes, na França, o Globo de Ouro, nos Estados Unidos. São todas premiações importantes.
Esse crescimento qualitativo do nosso cinema não é obra do acaso, é o resultado, em primeiro lugar, do talento do nosso povo para as artes, basta lembrar que nossa música também é genial e tem destaque internacional. Outras linguagens, como a literatura, também têm mostrado a força da criatividade brasileira, nosso soft power. Também é resultado de uma trajetória de grandes talentos, onde destaca-se Glauber Rocha e sua genialidade, e o chamado Cinema Novo, que deu grande projeção a toda uma geração de diretores como Nelson Pereira dos Santos e Cacá Diegues, todos geniais. Temos essas escolas criativas e, mais recentemente, políticas públicas como a Lei Rouanet, que muito alimentam o surgimento de tantos talentos.
Na minha infância, íamos ao cinema ver Oscarito e Grande Otelo, Ankito; depois tivemos Mazzaropi, que minha mãe adorava — ria como criança quando via seus filmes — e tantos outros artistas populares que levavam drama e alegria por todo o país. O grande sucesso, nacional e internacional, das novelas da Rede Globo também criou uma escola de dramaturgia importante.
Quero com tudo isso dizer que, por trás do sucesso tão merecido de Kleber Mendonça e do seu filme, de todo o competente elenco e da equipe técnica que participou de O Agente Secreto, há uma história coletiva, só interrompida nos trágicos anos do governo Bolsonaro, que tentou desqualificar tudo isso em nome de uma estética brega e de uma afirmação mais bruta no sentido da vida cultural brasileira, alicerçada na força e no machismo tóxico.
Mas vamos falar do que me tocou de forma especial nesse delicado filme com tanta cara do Nordeste brasileiro, para mim que me interesso em estudar a sociologia do nosso cotidiano, expressa no campo das artes, seja ela literatura ou cinema. Não me aventuro em fazer uma análise como crítico de cinema, que não sou; meu olhar é outro. É dele que posso dizer que temos no filme um retrato muito fiel do que se passava no Brasil de 1977, que vivi também. O clima de desconfiança, em que parecia sempre haver alguém nos espionando, era sempre presente.
Um governo autoritário faz perversidades explícitas como as mostradas no filme que ganhou o Oscar anos passados, o excelente Ainda Estou Aqui, mas também cria outras circunstâncias igualmente ruins. Quando a ditadura brasileira prendeu e expulsou do nosso território artistas como Chico Buarque, Caetano, Gil, Geraldo Vandré, Glauber Rocha e centenas de ativistas, intelectuais e políticos, ela queria provocar o fim das atividades de contestação da ordem vigente, mas queria também provocar o medo na juventude e nos que não concordavam com o que estava se passando. O meu sentimento naqueles anos era o de que a inteligência no Brasil estava se esvaindo; os que a tinham não podiam exercê-la. Vivíamos essa asfixia diária.
No ambiente universitário que eu frequentava, não havia mais atividades políticas explícitas; estudante era feito para estudar, gostavam os homens da ordem de repetir. A censura inibia as manifestações artísticas na literatura, na imprensa, no cinema, no teatro ou onde quer que elas estivessem. Para todo esse aparelho repressivo funcionar, foi necessário criar um sistema de informantes, os tais agentes secretos aos quais o título do filme faz referência. Sempre havia a sensação de que, na sala de aula, tinha alguém do pavoroso SNI; na mesa próxima no bar também alguém nos escutava todo o tempo. Qualquer conteúdo mais crítico só podia ser dito nas nossas casas ou em ambientes controlados.
O Agente Secreto mostra esse clima, as histórias que a imprensa inventava para ocupar os espaços censurados, como parece ser a tal “perna cabeluda”, criada em Recife nesse contexto. O ar que nos asfixiava o tempo todo está lá na obra de Kleber Mendonça, retratado com rigor e competência em um filme que merece tanta premiação. E pensar que existem brasileiros interessados no retorno de tempos tão tristes; por isso é preciso que os que não viveram aquelas barbáries as conheçam. Recomendo com convicção que todos os que ainda não viram o filme não o percam. Ele é simplesmente genial.
*João Gualberto Vasconcellos é mestre e professor emérito da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Doutor em Sociologia pela Escola de Altos Estudos em Ciência Política de Paris, na França, Pós-doutorado em Gestão e Cultura. Foi secretário de Cultura no Espírito Santo entre 2015 e 2018.
