Li recentemente uma coletânea de artigos organizada por Selma Pantoja e Estevam Thompson denominada Em torno de Angola: narrativas, identidades e conexões atlânticas. São comunicações apresentadas em um seminário internacional que teve o mesmo nome da obra. O evento, por sua vez, foi realizado na Universidade de Brasília em 2011, através de dois de seus programas de pós-graduação que se ocupam dos chamados Estudos Atlânticos.
Esse esforço para a formação de um fórum internacional de pesquisas e debates históricos, culturais e literários parte de uma releitura de eventos da história nos três continentes banhados pelo Atlântico: Europa, África e América. O que se vê nos vários artigos que compõem o livro é a descrição, com detalhes, dessa tragédia moderna chamada escravidão negra. Todos sabemos que o aprisionamento e a escravização de povos vencidos em guerras sempre fizeram parte da história da humanidade; inclusive os povos originários tanto da América quanto da África praticavam a escravidão. Isso sem contar com o passado bíblico que também conhecemos do Velho Testamento.
Entretanto, a escravidão negra que marcou o chamado mercantilismo e que vigorou em boa parte do mundo ocidental até o século XIX é uma instituição muito diferente daquela havida nos povos da Antiguidade. Muito mais complexa, e com desdobramentos mais profundos no nível da construção imaginária das sociedades que compõem o nosso mundo. Só os muito ingênuos, mal informados ou mal-intencionados podem acreditar que a base desse processo era desempenhada por africanos que, por ganância, prendiam pessoas de outros grupos para vendê-las aos mercadores europeus.
O sistema criado pela mais extrema perversidade dos povos europeus era uma verdadeira cadeia de produção de escravizados e de morte. Todo um aparato estatal e comercial, muito lucrativo, teve que ser criado para sustentar um comércio que enriqueceu muita gente e que foi mesmo o centro econômico de sociedades como a brasileira daqueles tempos. Presídios, estruturas de poder voltadas para garantir a busca e o aprisionamento, e o fortalecimento de elementos culturais eram necessários para sustentar a escravização de milhões de pessoas durante séculos.
A leitura de Em torno de Angola não deixa dúvidas quanto à complexidade dessa máquina que engendrou desespero, sacrifício e morte de tantos irmãos africanos, tendo produzido a maior diáspora de todos os tempos. Mas também produziu fortunas extraordinárias e deixou um rastro de desigualdades até os dias atuais. O racismo, o desprezo pelos diferentes na cultura e na cor é uma delas, e que está infelizmente novamente na pauta. É só observar o que se passa com o ideal da supremacia branca no mundo de Donald Trump, e ainda a aversão do mundo tido como desenvolvido pelos povos nascidos nos países pobres.
Creio que toda a engenharia social que esteve por trás do comércio atlântico de seres humanos não seria possível sem que houvesse uma ideia de que o europeu era superior, que portava uma semente do progresso que os povos originários da América e da África não tinham. Foi essa superioridade que permitiu que o mundo não europeu fosse todo desorganizado para dar lugar a um casamento desigual de culturas. O racismo foi o suporte narrativo e intelectual dessa monstruosidade chamada escravidão moderna, sobretudo a dos africanos, mas também a dos indígenas no Brasil e de outros povos originários do que se chamava Novo Mundo.
Cornelius Castoriadis, em um texto chamado Reflexões sobre o Racismo, publicado no livro O Mundo Fragmentado, faz uma afirmativa que me parece definitiva para a nossa análise:
“Na minha opinião, a ideia central é a seguinte: o racismo participa de alguma coisa muito mais universal do que aceitamos admitir habitualmente. O racismo é uma transformação ou um descendente especialmente violento e exacerbado (arrisco-me até mesmo a dizer: uma especificação monstruosa) de uma das características empiricamente quase universais das sociedades humanas. Trata-se da aparente incapacidade de constituir-se como si mesmo sem excluir o outro; em seguida, uma aparente incapacidade de excluir o outro sem desvalorizá-lo, chegando finalmente a odiá-lo.”
Para o filósofo grego, que produziu toda a sua obra radicado em Paris na segunda metade do século XX, o ódio ao diferente, a intolerância de qualquer ordem, vem dessa incapacidade de ser sem excluir e odiar o outro. É a raiz da intolerância religiosa e de gênero, por exemplo, em nossos dias no Brasil. O ser que não precisa excluir e odiar para ficar de pé, para existir com autonomia, é um ideal social importante nos dias atuais. Vencer o racismo também é vencer a existência de pessoas que se instituem pelo ódio.
