João Gualberto – Uma história de amor”

Há tradição na historiografia francesa de estudar aquilo que podemos aqui chamar – sem muitas preocupações em discutir de forma mais rigorosa classificações – de história do cotidiano. Nela, ao contrário de grandes narrativas épicas, cheias de heroísmo e valentia, estuda-se o dia a dia das sociedades, suas manifestações mais corriqueiras e, através delas, como se forjaram hábitos e costumes na construção de seu imaginário social.

Também podemos chamar essa corrente de micro-história, embora eu não goste muito do termo, seguindo a mesma lógica de estudar eventos, indivíduos ou comunidades em pequena escala para entender fenômenos sociais mais amplos, focando em detalhes, subjetividades e práticas cotidianas, em contraste com as narrativas grandiosas da história tradicional, que a maioria de nós certamente estudou nas escolas. A Escola dos Annales, uma corrente presente na academia na França, prestou grandes contribuições a esses estudos, assim como o historiador italiano Carlo Ginzburg com o seu clássico O Queijo e os Vermes.

Para citar um outro exemplo dessa produção historiográfica que me parece importante, lembro o excelente O Limpo e o Sujo: uma história da higiene corporal, de Georges Vigarello, publicado originalmente em francês com o título de Le Prope et le Sale, em 1985. Nele, é bem explorada a história dos banhos no mundo ocidental, e particularmente na França, sobre a higiene e os hábitos em torno desse fenômeno desde o tempo em que se tomava apenas um banho por ano, na Idade Média. Muito pode ser desvendado de uma sociedade ao se debruçar sobre temas simples como a cama onde se dorme, as vestimentas ou a alimentação, embora a maioria de nós dê pouca atenção a tudo isso.

Lembrei-me desses temas quando reli recentemente um clássico da literatura brasileira: O Cortiço, de Aluísio Azevedo, uma grande expressão do chamado naturalismo brasileiro, publicado originalmente em 1890, portanto no alvorecer da nossa República. Segundo a própria apresentação da edição que li da obra, trata-se de um romance que denuncia as mazelas sociais enfrentadas pelos moradores de um cortiço e pelas pessoas ligadas a ele no Rio de Janeiro durante o século XIX. João Romão, Bertoleza, Pombinha, Rita Baiana, Piedade e Jerônimo são os principais personagens, cujos cotidianos são descritos, cujas vidas são mostradas de forma dura, cruel. Nada escapou à percepção crítica do autor.

Esses cortiços eram habitações populares onde se amontoavam as famílias de pequeno poder aquisitivo, em condições higiênicas precárias, sem privacidade alguma e vivendo em constantes conflitos derivados dessas mesmas condições. O objetivo desse gênero literário, na esteira do sucesso europeu, sobretudo de Émile Zola, era justamente denunciar a nossa dura realidade, contribuindo para criar a consciência da necessidade de superá-la. Entretanto, a leitura nos permite outras interpretações da vida cotidiana brasileira há mais de um século.

Chama a atenção como em um espaço de habitação popular os casais são apresentados, mostrando uma espécie de história das relações entre casais no Brasil. Há duas moradias de membros das elites: a do dono do cortiço e a de seu vizinho, dono de uma casa tipicamente burguesa. Nessa habitam a mulher do proprietário, que o trai constantemente, e também sua filha, Zulmira. Apesar das traições, existem interesses no casamento no plano financeiro, pois ela é que vem de uma família afortunada. Se o casamento se rompesse, ele tudo perderia. Quanto à filha, ela acaba sendo cobiçada pelo dono do cortiço, como forma de ascensão social, de melhorar a sua imagem na sociedade.

A fortuna, assim, compromete os laços afetivos, que ficam sujeitos a interesses, enquanto o verdadeiro jogo de sedução está entre os moradores do cortiço. Lá impera uma sexualidade mais livre, menos sujeita a outros interesses. A mulher pobre e proletária, entretanto, é muito prisioneira de um modelo de amor mais submisso, onde o seu homem pode mais do que ela, onde as traições femininas são tratadas com brutalidade e também submissão.

Comparando o cotidiano dos relacionamentos urbanos entre o Brasil contemporâneo e aquele do final do século XIX, vemos como a noção de amor cresceu na direção da autonomia, da mais ampla liberdade de escolha a cada um de nós. É interessante pensar como há uma trajetória histórica do amor no Brasil, fortemente impactada pelo movimento de construção das mulheres em busca de liberdade e felicidade, mesmo que não inteiramente compreendido por todos os homens. A luta cotidiana das mulheres por liberdade, afinal, é uma das grandes conquistas do século XX.

*João Gualberto Vasconcellos é mestre e professor emérito da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Doutor em Sociologia pela Escola de Altos Estudos em Ciência Política de Paris, na França, Pós-doutorado em Gestão e Cultura. Foi secretário de Cultura no Espírito Santo entre 2015 e 2018.

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Diretor de conteúdo – Eduardo Caliman

Jornalista formado pela Ufes (1995), com Master em Jornalismo para Editores pelo CEU/Universidade de Navarra – Espanha. Iniciou a carreira em A Tribuna e depois atuou por 21 anos em A Gazeta, como repórter, editor de Política, coordenador de Reportagens Especiais e editor-executivo. Foi também presidente do Diário Oficial, subsecretário de Comunicação do ES e, de 2018 a 2024, coordenador de comunicação institucional no sistema OAB-ES/CAAES.

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