No início do último ano à frente da Assembleia Legislativa do Espírito Santo na atual legislatura, o presidente Marcelo Santos recebeu o News ES em seu gabinete, na sede do Poder Legislativo, para uma entrevista especial.
Nesta segunda parte da conversa, o deputado fez um balanço da gestão e projetou os desafios de 2026. Em um ano marcado pelo calendário eleitoral, o deputado afirmou que o funcionamento da Casa, as votações e as entregas à sociedade capixaba não serão comprometidos pelo acirramento natural do debate político.
Ao longo da entrevista, Marcelo Santos destacou que o respeito institucional tem sido o eixo central de sua condução à frente da Assembleia, orientando tanto as relações internas entre os parlamentares quanto o diálogo com os demais Poderes e órgãos de controle. Segundo ele, esse ambiente de equilíbrio, autonomia e harmonia permitiu à Casa retomar protagonismo, cumprir prazos constitucionais e atuar de forma decisiva em pautas estratégicas para o Espírito Santo.
O presidente também apontou os principais desafios que devem ganhar centralidade em 2026, como os impactos da reforma tributária no Estado, a preservação da segurança jurídica e a responsabilidade do Legislativo em um ano decisivo para o país. Para Marcelo Santos, manter a estabilidade política e o diálogo institucional será fundamental para que a Assembleia continue funcionando plenamente e atendendo às expectativas da população capixaba.

NEWS ES: A Assembleia está entrando no último ano da sua gestão à frente da Casa. Gostaríamos de começar perguntando: qual entrega o senhor considera mais importante para a sociedade capixaba nesta legislatura?
MARCELO SANTOS: Primeiro, quero agradecer pela presença do News Espírito Santo. A imprensa tem um papel muito importante, porque leva informação, ainda mais quando faz isso de forma clara e com imparcialidade, seja para o leitor, seja para o seguidor nas redes sociais.
O principal legado que vou deixar aqui na Assembleia se resume a uma única palavra: respeito. Esse respeito norteou as nossas relações internas — entre eu, enquanto presidente, e meus colegas deputados e deputadas — e também as relações institucionais entre o Executivo, o Judiciário, a Assembleia Legislativa e o Ministério Público.
Mas a principal relação respeitosa que precisamos ter, e que é o verdadeiro resultado do nosso trabalho, é com a população do Espírito Santo.
Esse respeito fez com que, por exemplo, conseguíssemos entregar o orçamento estadual dentro do prazo estabelecido pela Constituição e pelo Regimento Interno da Casa, garantindo que o Governo do Estado pudesse iniciar o ano de 2026 já devolvendo à sociedade ações importantes. Porque ter uma relação respeitosa não significa submissão, nem que um poder tenha protagonismo maior do que o outro. Significa respeitar o cidadão e cumprir o nosso papel.
Acho que o principal legado é termos uma Casa formada por representantes de diversas regiões, colorações partidárias e ideologias diferentes, mas que se respeitam e, acima de tudo, respeitam a população. O respeito resume tudo isso. Esse é o grande legado que deixo na Assembleia Legislativa.

A Assembleia Legislativa passou por grandes mudanças nas últimas décadas. Uma Casa que já esteve envolvida, no passado, em situações polêmicas, inclusive com deputados presos, hoje vive um período de maior estabilidade, sem aquelas notícias do passado. A que o senhor atribui essa mudança no perfil e nos trabalhos da Casa?
Eu atribuo, novamente, a essa palavra curta, simples e extremamente importante: respeito. Mas, além disso, também houve um amadurecimento das instituições e dos poderes constituídos.
Num passado não tão distante, a desorganização e a falta de respeito entre os pares dentro da Assembleia e da Assembleia com outros poderes e instituições geraram uma crise institucional enorme. Quando o Poder Legislativo não mantém uma relação adequada com os demais poderes, isso gera um problema muito grande. O Espírito Santo, inclusive, teve seu crescimento impedido por conta dessa desorganização.
Hoje, temos uma Casa organizada, com diferenças — e isso é natural —, mas que se respeita. Ao mesmo tempo, mantemos a régua da independência e da autonomia, porque somos um poder autônomo. Assim como o Executivo tem sua autonomia, o Judiciário tem a dele, e os órgãos de controle, como o Ministério Público, o Tribunal de Contas e a Defensoria Pública, também têm a sua.
Mas, ao lado da independência, existe a harmonia, e essa harmonia é o diferencial do Estado brasileiro. Mesmo quando não concordamos com matérias do Executivo, do Judiciário ou de qualquer outra instituição, nós respeitamos, dialogamos e conseguimos atravessar e superar várias questões.
A Assembleia que antes produzia pouco ou quase nada e que, em determinado momento, impediu o desenvolvimento do Espírito Santo, não é a Assembleia de hoje. A Assembleia de hoje está antenada, fortaleceu o trabalho parlamentar, fortaleceu as comissões e retomou um protagonismo que jamais deveria ter perdido.
Não é um protagonismo maior nem menor que qualquer outro poder, mas o protagonismo próprio da Assembleia Legislativa. Essa retomada fez com que o Estado pudesse crescer, se desenvolver e gerar muitas ações positivas para a população capixaba.

Deputado, o que os capixabas podem esperar da Assembleia em 2026, um ano eleitoral em que o segundo semestre deve ser bastante influenciado pela pauta das eleições?
O capixaba pode esperar tudo aquilo que sonhou ver se tornar realidade, no que depender da Assembleia Legislativa. Seja no calçamento rural, no recapeamento de trechos da malha rodoviária estadual – que é competência do Estado –, ou na transferência de recursos para os municípios, para que, somados aos recursos próprios das prefeituras, possam melhorar a vida dos cidadãos.
Tudo aquilo que depender da Assembleia para ajudar o Espírito Santo a crescer, se desenvolver e gerar oportunidades, podem contar com total dedicação. Enquanto presidente da Assembleia Legislativa, não vai faltar esforço para ajudar o Estado e o Executivo.
Não existe uma obra financiada com dinheiro público estadual que não tenha passado, primeiramente, pela Assembleia Legislativa, que eu lidero ao lado dos meus colegas deputados, autorizando o governador a realizar esse conjunto de obras que vem sendo executado nas 78 cidades capixabas.
Mas 2026 é um ano importantíssimo para o Espírito Santo e para o Brasil. E também esperamos do cidadão que ele enxergue melhor o que quer para o Estado e para o país. E como ele faz isso? Escolhendo melhor os seus representantes.
Teremos eleições para deputado estadual, deputado federal, senador, governador e presidente da República. E quem escolhe esses atores não é o presidente da Assembleia, não é o presidente do Tribunal, nem o governador do Estado. É o cidadão, que tem em mãos uma ferramenta poderosa: o título de eleitor.
Para isso, é fundamental entender o papel de cada cargo: o que faz um deputado estadual, um deputado federal, um senador, um governador e um presidente da República. Quando se tem essa noção exata, a escolha naturalmente será melhor.
Chamo a atenção do cidadão para que fique atento. Hoje, muita gente gosta de fazer vídeos em redes sociais, postar discursos bonitos, xingar, gritar e até partir para agressões. A pergunta que eu faço é: o que essas pessoas mudaram, de fato, na sua vida?
Não é um vídeo nem um grito que resolvem os problemas. É o diálogo, mesmo na divergência, mas sempre com respeito. Eu posso discordar de você, mas preciso respeitar a sua opinião.
É no diálogo que vamos melhorar ainda mais a segurança pública, o turismo, a saúde, a educação, o lazer e o enfrentamento à violência contra a mulher. O grito não resolve a vida das pessoas.
2026 é um ano desafiador, com limitações impostas pelo regramento eleitoral, mas com muito trabalho pela frente. E, quando chegar o período da eleição, é importante olhar a trajetória de quem se coloca como candidato e perguntar: essa pessoa sabe qual é o papel do cargo que pretende ocupar?
Porque, se não souber, como vai exercer bem o mandato e devolver à sociedade aquilo que ela espera? Não é com conversa fiada, grito ou violência que se melhora a vida das pessoas.
Aqui na Assembleia que eu lidero, não temos essa briga insana. Temos disputas e ideologias, mas, no final, colocamos isso de lado para trabalhar pela melhoria da vida do capixaba. Esse é o grande desafio do Espírito Santo e do Brasil.
Presidente, o Estado será impactado pela reforma tributária. Como a Assembleia vê essa questão e o que pode ser feito para amenizar os prejuízos previstos?
Esse é um tema delicado, e poucas pessoas estão levando em consideração os efeitos colaterais da reforma tributária, que começam a surgir a partir do momento em que ela entra em vigor.
O Espírito Santo talvez seja o Estado mais impactado quando a reforma começar a valer plenamente, a partir de 2032. Somos um Estado que produz muito, mas consome pouco, diferente de São Paulo, por exemplo, que é produtor e também consumidor. Lá, o impacto é quase imperceptível; aqui, não.
Por isso, precisamos nos preparar e chamar os atores políticos para entender melhor esses efeitos negativos. O turismo é um viés importante, mas, sozinho, não resolve. Ele é apenas uma das ações que precisamos promover.
Neste ano, teremos grandes debates sobre o tema, promovidos pela Assembleia. Já estamos preparando materiais e convidando profissionais qualificados, especialmente da área contábil pública, para construir caminhos que minimizem os impactos negativos da reforma.
Embora eu reconheça a importância da reforma tributária, ela acabou se tornando uma espécie de “colcha de retalhos”. Mas ela está posta, vai entrar em vigor, e precisamos enfrentá-la. O Espírito Santo é o Estado da superação, e, com diálogo e união, construiremos soluções.
A Assembleia tem um papel fundamental, mas precisamos unir forças com o Congresso Nacional, o governo federal, a iniciativa privada e a população para garantir a permanência das empresas no Estado.
Somos um Estado que oferece segurança jurídica – talvez a maior do Brasil. A Assembleia revogou mais de 10 mil normas obsoletas, garantindo segurança para quem quer continuar, ampliar ou investir aqui. É uma Casa que responde rápido à sociedade e ao setor produtivo e que não gera instabilidade política, porque instabilidade política afeta diretamente a economia.
Além disso, temos um fundo soberano, algo único na Federação. Se enfrentarmos novamente uma crise, como foi a pandemia da Covid-19, temos instrumentos para reagir.
Estamos nos preparando, promovendo debates e construindo ações para enfrentar os efeitos negativos da reforma tributária e manter o Espírito Santo nos trilhos do desenvolvimento econômico e social, com equilíbrio
