Se estamos achando que as chamadas bikes elétricas são o problema nas ruas de Vitória, talvez ainda não tenhamos entendido o verdadeiro desafio da cidade. Nos últimos meses, cresceram as discussões sobre os riscos dos autopropelidos. Mas, focar apenas no comportamento dos usuários é tratar o sintoma, não a causa. O que realmente está em crise é o espaço urbano.
Boa parte da infraestrutura cicloviária de Vitória é pensada com a mesma lógica das vias para carros: trajetos rápidos, lineares e afastados da vida urbana. Ciclovias extensas em canteiros centrais parecem uma solução eficiente à primeira vista, mas acabam desconectando as pessoas dos destinos cotidianos, como comércios, serviços, praças e ruas do bairro.
Na Avenida Leitão da Silva, por exemplo, ciclovias centrais criam travessias longas e áreas de espera insuficientes. Somadas aos tempos curtos de semáforo, essas condições geram congestionamento de bicicletas.
Outro exemplo claro dessa desconexão urbana aparece na obra do mergulhão de Camburi. Um projeto gigantesco, pensado para reorganizar o fluxo de carros, criar retornos subterrâneos e melhorar o trânsito. Mas que,simplesmente, ignorou a ciclovia que já existia ali há anos. A infraestrutura para carros foi redesenhada. Mas, a mobilidade ativa ficou para depois.
Um desperdício de investimento público e, principalmente, de oportunidade. Enquanto isso, pedestres, ciclistas e usuários de autopropelidos acabam disputando sobras de espaço: calçadas estreitas, ciclovias fragmentadas e pavimentação inadequada.
Em alguns dos pontos mais simbólicos da cidade, a incoerência fica ainda mais evidente. Na região da Prefeitura e Câmara Municipal de Vitória faltam calçadas de qualidade e infraestrutura cicloviária adequada. Ou seja, os próprios centros institucionais da cidade não são acessíveis para quem caminha ou pedala.
Por isso, discutir apenas a regulamentação dos autopropelidos é insuficiente. O problema não é apenas a forma como as bikes elétricas estão sendo usadas. É uma cidade que ainda não entendeu que precisa criar infraestrutura adequada para garantir segurança mínima para todos.
Calçadas precisam ser largas, contínuas e respeitadas; ciclovias precisam estar onde a vida acontece; e mobilidade não pode ser tratada apenas como deslocamento rápido entre dois pontos.
Vitória tem todas as condições para ser referência nacional em mobilidade ativa e elétrica. É uma cidade relativamente compacta, com paisagens privilegiadas e distâncias que favorecem deslocamentos a pé ou de bicicleta.
Mas para isso é preciso vontade política, planejamento consistente e coragem para mudar prioridades. Enquanto continuarmos tratando carros como protagonistas absolutos do espaço urbano, qualquer debate sobre mobilidade sustentável será sempre incompleto.
Mobilidade não é um detalhe da cidade. É a própria forma como a cidade funciona ou, como neste caso, deixa de funcionar.
*Murillo Paoli é arquiteto e urbanista.
