Professor analisou impactos das tensões globais e apontou oportunidades estratégicas para o país durante encontro sobre o futuro do varejo
As transformações que vêm redesenhando o varejo mundial e os efeitos das disputas geopolíticas sobre a economia estiveram no centro dos debates do evento Inovações e tendências no varejo, realizado na última terça-feira (3), no Hotel Senac Ilha do Boi, em Vitória. Promovido pelo Sistema Fecomércio-ES – Sesc e Senac, o encontro reuniu empresários dos setores de bens, serviços e turismo, dirigentes sindicais e especialistas para discutir caminhos estratégicos para o setor.
O destaque da programação foi a palestra do cientista político Heni Ozi Cukier (HOC), referência nacional em geopolítica e economia internacional. Mestre em Resolução de Conflitos e Paz Internacional pela Universidade Americana, em Washington, o professor apresentou uma análise do cenário global e de seus reflexos diretos no ambiente de negócios.
Durante a exposição, HOC contextualizou o atual momento de instabilidade internacional, marcado pela disputa comercial entre Estados Unidos e China e pelas recentes tensões no Oriente Médio. Segundo ele, apesar das incertezas provocadas pelos conflitos, o Brasil ocupa hoje uma posição estratégica singular.
“Geograficamente, o Brasil é o país mais isolado do mundo, e dentro desse cenário geopolítico atual isso é maravilhoso. Se tivermos um cenário de conflito cada vez maior, nós estamos protegidos fisicamente”, afirmou.
Para o professor, a distância dos principais focos de tensão internacional representa um ativo importante em tempos de instabilidade. Ele destacou ainda que o país reúne características que ampliam seu peso estratégico.
“Nós estamos em um lugar com o tamanho, com a população e com o mercado privilegiado. Ao mesmo tempo em que estamos longe dos problemas, passamos a nos tornar estratégicos para muita gente”.
HOC também ressaltou que a cadeia global de valor passa por uma reorganização e que o Brasil tem potencial para ocupar um papel central nesse processo.
“China, Estados Unidos e Europa olharam para o Brasil e o colocaram como centro de gravidade. Isso cria uma oportunidade única, que aparece a cada cem anos”.
Tendências do varejo e inovação

Outro destaque da programação foi a apresentação do estrategista de inovação e inteligência artificial André Magno, representante da Fecomércio-ES na Câmara Brasileira de Tecnologia da Informação e Inovação da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC).
Ele compartilhou insights debatidos na NRF Retail’s Big Show, considerada a maior feira de varejo do mundo, promovida anualmente pela Federação Nacional de Varejo dos Estados Unidos.
Magno apresentou exemplos de empresas que vêm inovando no mercado internacional. Entre elas, citou a Fanatics, gigante global de licenciamento esportivo.
“Fanatics, uma gigante global de licenciamento esportivo, tem se destacado com técnicas como design e fabricação ágil. Por exemplo, após um jogo decisivo de futebol, a empresa vê uma oportunidade de negócio e lança uma nova camisa com um design diferente relacionado ao jogo para venda. Em seguida, investe em uma logística em tempo real, para que a entrega ocorra ainda mais rapidamente”.
Ele também destacou o papel crescente da inteligência artificial no comércio.
“As IAs não recomendam os produtos que elas não confiam. Se seus dados, como preço e estoque, não forem confiáveis, a IA não indica seu produto nos resultados de busca. Outra forma importante de suporte da IA é dentro das empresas: há ferramentas que trabalham nos bastidores e apoiam os funcionários, permitindo foco total no cliente. São plataformas que indicam as preferências dos clientes, para que a venda seja mais assertiva”.
Mercado de trabalho e economias do futuro
O coordenador do Observatório do Comércio do Connect Fecomércio-ES, André Spalenza, apresentou um levantamento sobre as transformações no mercado de trabalho capixaba e as áreas com maior potencial de crescimento.
O estudo analisou cinco grandes eixos estratégicos, classificados como as chamadas Economias do Futuro, conceito desenvolvido pelo Senac Nacional: Economia Verde, Economia Criativa, Economia Digital, Economia do Turismo e Economia do Cuidado.
No Espírito Santo, a Economia Digital foi apontada como o segmento mais dinâmico.
“Entre 2016 e 2024, o número de empregos formais no setor cresceu 75%, alcançando 10.222 vínculos em 2024. Além da expansão expressiva, trata-se de um conjunto de ocupações com elevada remuneração média, que chegou a R$ 6.533. Funções ligadas à tecnologia da informação, desenvolvimento de sistemas, programação e gestão digital lideram esse avanço”.
Segundo Spalenza, o objetivo do estudo é ajudar trabalhadores, empresas e instituições de ensino a se prepararem para as transformações em curso.
“O mercado de trabalho está passando por mudanças profundas, e quem se antecipa sai na frente”.
Relatório de Gestão
Durante o evento, também foi apresentado o Relatório de Gestão do Sistema Fecomércio-ES – Sesc e Senac. O presidente da entidade, Idalberto Moro, destacou a importância da prestação de contas das ações desenvolvidas pela instituição.
“O Relatório é essencial para vermos os avanços, por meio de nossas ações, na economia, na parte assistencial, na educação e no turismo, segmentos que nossa entidade tem como missão promover e desenvolver”.
Moro também ressaltou a importância de manter o debate permanente sobre as transformações do varejo e do cenário econômico global.
“Esse encontro trouxe pautas atuais para os empresários, novos cenários para o varejo, já que tudo muda muito rapidamente e precisamos nos reinventar o tempo todo. Há novas maneiras de se trabalhar, de se comercializar, de atender o consumidor e nós, que somos empresários do comércio, estamos muito atentos a isso”.
