Tribunal orienta Estado e municípios a anteciparem campanhas, simulados de emergência e medidas de prevenção diante dos riscos climáticos previstos para 2026 e 2027 O Espírito Santo deve se preparar para um período de extremos climáticos, com riscos que vão da escassez de água a alagamentos, incêndios e aumento de doenças. Diante desse cenário, o Tribunal de Contas do Estado (TCE-ES) apresentou mais de 50 recomendações ao Governo do Estado e às prefeituras para enfrentar os possíveis impactos do El Niño no biênio 2026/2027. Entre as medidas estão campanhas para estimular o uso racional da água e prevenir a dengue, além da realização de simulados com moradores e estudantes para que a população conheça previamente rotas de fuga e pontos de encontro em situações de emergência. Segundo informações utilizadas pelo TCE-ES, análises do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) e simulações do Centro Europeu de Previsões Meteorológicas (ECMWF) indicam que o El Niño de 2026 poderá atingir intensidade elevada, com aquecimento superior a 2°C acima da média no Pacífico Central. O relatório também considera dados de órgãos meteorológicos dos Estados Unidos e da Austrália. As orientações do Tribunal buscam fazer com que Estado e municípios se antecipem aos possíveis impactos, planejando contratações preventivas e reservando recursos para enfrentar riscos climáticos, hídricos, sanitários e epidemiológicos. O cenário pode envolver alterações importantes nos regimes de chuva e temperatura, com períodos de estiagem e ocorrência de eventos extremos. Para a coordenadora do Núcleo de Fiscalização de Meio Ambiente, Saneamento e Mudanças Climáticas do TCE-ES, Ana Emilia B. Thomaz, preparar a população antes de uma situação de emergência é fundamental. “Plano de contingência, rota de fuga e ponto de encontro só têm valor se a população souber que existem. Por isso, o TCE-ES recomenda que estado e municípios comuniquem isso com antecedência, evitando que a urgência do momento da crise seja o primeiro contato do cidadão com as orientações de segurança — informação salva vidas”, afirmou. O Tribunal também recomenda a capacitação integrada de equipes das áreas de Defesa Civil, saneamento, saúde e obras para situações que combinem estiagem, eventos extremos e epidemias. Outra orientação é fortalecer e capacitar brigadas de incêndio, especialmente em áreas de proteção ambiental, além de promover campanhas sobre os riscos de queimadas durante períodos de seca e ondas de calor. A população também deverá ser orientada sobre o descarte correto do lixo. Resíduos levados para sistemas de drenagem e cursos d’água podem obstruir o escoamento da chuva e aumentar o risco de inundações e alagamentos. As recomendações ainda incluem uma articulação entre órgãos como Agerh, Cesan, Coordenadoria Estadual de Proteção e Defesa Civil (Cepdec), Seama, Sesa, Idaf e Serviço Geológico do Brasil para compartilhamento de informações e alinhamento das ações de monitoramento e prevenção. O TCE-ES informou que divulgará uma série de materiais detalhando as recomendações relacionadas ao El Niño. Além das medidas de comunicação e prevenção, as orientações abrangem áreas como Saúde, Educação e Assistência Social.
Gustavo Varella – “O reboco caiu”
Qualquer pedreiro de obra pequena, desses que nunca abriram um livro de engenharia e levantaram metade das casas deste país, sabe de cor uma receita a que chama traço: tantas latas de brita, tantas de areia, uma de cimento, água até dar o ponto. Sabe também, sem que ninguém lhe tenha ensinado a palavra proporção, que o cimento é a menor parte da mistura e a única em que não se pode economizar — posto que a brita dá a dureza, a areia dá o volume, mas é aquele pó cinzento, caro e minoritário, que faz das três coisas uma só. Quando o dono da obra resolve poupar no saco de cimento, o resultado tem nome no canteiro: concreto magro. Fica de pé. Por um tempo, fica de pé. Nações, convenhamos, fazem-se com a mesma receita, e a proporção varia menos do que o orgulho de cada uma gostaria — seja o país rico ou pobre, antigo ou recém-inaugurado, e sem que cor, sexo, religião ou saldo bancário decidam em qual lata cada um vai parar. Há a brita: gente que vive da oportunidade e só dela, e que tanto pode morar num barraco quanto numa cobertura, porque o que a define não é a conta, é a régua — tudo se mede pelo proveito próprio, às vezes até dentro da lei, que também a lei tem as suas frestas para quem sabe procurá-las. Para a brita, autoridade é acidente de percurso: foge-se dela, compra-se, contorna-se. Apanhada, mergulha o tempo necessário para que o assunto esfrie e volta à tona sem um arranhão, seja qual for o governo, seja qual for o valor da moda. É dura, não se liga a nada e sobrevive a qualquer demolição — aliás, é o que sobra dela. Há a areia, muito mais numerosa: gente que nunca soube bem onde acaba o público e começa o privado, que obedece por medo, por cansaço ou por costume, que anda em bando e reclama em coro. Para a areia ninguém presta, toda instituição é um antro e a culpa é sempre do grupo que acabou de chegar ao poder — sem que lhe ocorra que o grupo anterior, o seu, fez rigorosamente o mesmo, e que o próximo fará igual debaixo do seu aplauso. A areia vai para onde a empurram, e é peneirada e reaproveitada a cada eleição. E há o cimento. Não é classe, não é partido, não é diploma. É o gari que varre direito a rua que ninguém fiscaliza, o empresário que paga o imposto xingando mas paga, a mãe que manda o filho voltar à padaria para devolver o troco que veio a mais, o policial que não aceita, o servidor que atende, o professor que insiste, o juiz que se mantém fiel ao juramento mesmo diante das hipocrisias e dos desatinos dos últimos andares da própria carreira, o advogado que — sabendo melhor do que ninguém o quanto o sistema manca — continua a dizer ao cliente que o caminho é o processo e não o atalho. Gente que erra, que se indigna, que cobra, que muda de opinião, mas que não perde de vista uma ideia singela e caríssima: a de que existe uma construção comum, e de que vale a pena pôr nela o seu tempo, o seu talento e a educação dos seus filhos. Todos nós, é claro, já nos matriculamos neste terceiro grupo antes do fim do parágrafo. Convém desconfiar da pressa. Ninguém nasce cimento nem morre brita: transita-se, e o que interessa é em que direção. Com brita e areia as nações sempre conviveram, aos trancos e barrancos. O que nenhuma aguenta é perder a liga. E os vícios de cima, note-se, não são novidade, nem o cimento alguma vez foi ingênuo: sempre soube que havia ferrugem dentro da viga. A diferença é que, durante muito tempo, houve reboco. Havia quem se encarregasse de cortar o que podia, esconder o que não podia e repintar a mancha na véspera da reunião de condomínio — e o morador, não vendo, concedia à estrutura o benefício da dúvida. O reboco caiu. Hoje a ferragem está à mostra na rua, fotografada por todos os celulares, a rachadura verdadeira ao lado da inventada, sem que o morador tenha como distinguir uma da outra — e quando os próprios engenheiros responsáveis pela obra resolvem discutir em praça pública, de dedo em riste, qual deles comprometeu a fundação, já não há laudo que tranquilize ninguém. Não se prega aqui a volta do reboco. A mancha nunca foi a doença; doença era o que a tinta escondia, e estrutura que só se sustenta enquanto ninguém a vê não merece o nome. Mas é preciso entender o que essa exsudação diária faz com quem segura o prédio. Faz isto: ensina. Cada episódio que escorre lá de cima é uma aula, e a lição é sempre a mesma — a brita se deu bem. O pai que pregava respeito ouve do filho a pergunta para a qual já não tem resposta. O empresário faz a conta do que lhe custa ser correto ao lado de quem não é. O servidor sério percebe que a seriedade não lhe rendeu nada além de trabalho. E o cimento não desaparece, que ninguém se console com essa imagem heroica: o cimento migra. Um dia começa a proteger-se, a cuidar só do seu, a procurar também a sua fresta, e virou brita; ou encolhe os ombros, diz que não vai dar em nada, e virou areia. Há aqui uma diferença que importa. O “ninguém presta” da areia é barato: quem nunca acreditou nada perde ao descrer. O “não vai dar em nada” na boca de quem foi cimento é outra coisa — é o extrato de uma conta em que se depositou a vida inteira e de onde outros sacaram. Porque autoridade, e convém lembrá-lo a quem a exerce, é crédito emprestado. Depositou-o o pai quando mandou o filho respeitar o guarda, a professora quando mandou respeitar a
Vitória e Domingos Martins recebem concertos gratuitos de música barroca
“Ecos do Barroco” terá obras de Vivaldi, Purcell e Telemann, além de oficina de violoncelo e ensaio aberto para estudantes A música barroca vai ocupar espaços de Vitória e Domingos Martins com apresentações gratuitas do concerto “Ecos do Barroco”, da orquestra A Trupe Barroca. O espetáculo integra a série Uma Nova Música Antiga e terá sessões na Catedral Metropolitana de Vitória e no Auditório do Colégio Mariano, em Domingos Martins. Os espaços contam com acessibilidade e as apresentações terão intérprete de Libras e audiodescrição realizada pela própria equipe. O repertório reúne obras de três nomes fundamentais do barroco europeu: Henry Purcell, Georg Philipp Telemann e Antonio Vivaldi. Algumas das composições serão apresentadas pela primeira vez no Espírito Santo, ampliando o contato do público capixaba com obras ainda pouco difundidas nas salas de concerto brasileiras. Os violoncelistas Christian Munawek e Hermann Schreiner serão os solistas convidados. Entre os destaques estão dois concertos para violoncelo de Vivaldi. A execução seguirá princípios da interpretação historicamente informada, buscando reproduzir características de sonoridade, articulação, fraseado e estilo dos séculos XVII e XVIII. A direção musical e a regência são do maestro Sérgio Dias, que desenvolve à frente de A Trupe Barroca um trabalho dedicado aos repertórios barroco e clássico. A direção artística é de Washington Sielemann, fundador do grupo e responsável pela concepção e curadoria de projetos voltados à música histórica e à formação de público. Hermann Schreiner é atualmente primeiro violoncelo da Orquestra Sinfônica de Córdoba, na Argentina, e possui experiência em grupos de música antiga da Europa e da América Latina. Já Christian Munawek, radicado no Espírito Santo, integra o Quarteto Anima, colabora com A Trupe Barroca e participa de diferentes projetos da cena musical capixaba. Além dos concertos, a programação inclui a Oficina de Violoncelo Barroco e Moderno, ministrada por Schreiner na Casa da Música Sônia Cabral, em Vitória. As inscrições para alunos já foram encerradas, mas interessados poderão acompanhar as atividades como ouvintes. A oficina abordará técnicas dos instrumentos moderno e barroco, além de articulação, fraseado, ornamentação e estilos históricos. O projeto também realizará um ensaio aberto destinado a estudantes de escolas públicas. Os alunos poderão acompanhar a preparação da orquestra, conhecer os instrumentos e entender o trabalho desenvolvido pelo maestro, solistas e músicos. A atividade terá ainda uma contextualização sobre Purcell, Telemann e Vivaldi e sobre o período histórico em que suas obras foram produzidas. Criada em 2018, a série Uma Nova Música Antiga busca democratizar o acesso à música de concerto e formar novos públicos. A iniciativa combina apresentações gratuitas, atividades pedagógicas e ações de aproximação entre músicos, estudantes e comunidades, inclusive fora dos espaços tradicionalmente associados à música de concerto. “Ecos do Barroco” conta com patrocínio da EDP, parceria do Instituto Brasileiro de Cultura e Artes (IBRAC), apoio cultural da Catedral Metropolitana de Vitória e da Prefeitura de Domingos Martins, por meio das secretarias de Cultura e Turismo e de Educação. A realização é da WS Projetos Criativos e da Lei de Incentivo à Cultura Capixaba (LICC), por meio da Secretaria da Cultura do Espírito Santo. SERVIÇO Concerto “Ecos do Barroco” — Vitória Data: 24 de setembro de 2027 Horário: 20h Local: Catedral Metropolitana de Vitória Entrada gratuita Acessibilidade, intérprete de Libras e audiodescrição. Concerto “Ecos do Barroco” — Domingos Martins Data: 26 de setembro de 2027 Horário: 10h Local: Auditório do Colégio Mariano Entrada gratuita Acessibilidade, intérprete de Libras e audiodescrição. Oficina de Violoncelo Barroco e Moderno Professor: Hermann Schreiner Local: Casa da Música Sônia Cabral, Vitória 21 de setembro: das 8h às 12h 22 a 25 de setembro: das 13h às 17h Inscrições encerradas, com participação permitida como ouvinte.
André Hees – “Deu no NYT: as lições do maior jornal do mundo”
O jornal mais importante do mundo, The New York Times, completou 175 anos nesta sexta-feira, 18 de setembro. A edição comemorativa lembra que o telefone foi inventado há 150 anos e a televisão, há menos de 100 anos. A população dos EUA era de 24 milhões de habitantes, hoje está em 350 milhões. O atual publisher do jornal, Arthur Gregg Sulzberger, pertencente à quinta geração da família, escreveu um artigo em que fala sobre a sua visão do ofício, tão incompreendido nos dias atuais. “No Times, acreditamos que o papel de um jornal é buscar a verdade, ajudar as pessoas a entenderem o mundo e cobrar responsabilidade do poder. Isso significa fornecer às pessoas informações necessárias para a tomada de decisões. Quando erramos, somos transparentes com o público e buscamos evitar futuros erros. Hoje, porém, o futuro da imprensa livre é incerto nos EUA”, diz Sulzberger. Não somente lá. O modelo de negócios baseado em publicidade perdeu receita, que migrou para as grandes plataformas digitais. E o conteúdo produzido por empresas jornalísticas é “roubado” pelas grandes empresas de tecnologia por trás da inteligência artificial – a expressão roubado, “stolen” no original, é dele, e parece bem apropriada. Ao longo desses anos todos, o Times cobriu a Segunda Guerra, o assassinato de Martin Luther King, o ataque às Torres Gêmeas. “Já tive colegas que foram sequestrados, presos e baleados durante o trabalho. Um sobreviveu a uma explosão de mina terrestre, outro a uma queda de helicóptero, muitos foram investigados e processados”, lembra o publisher. Manter essa máquina funcionando exige recursos e coragem. Trabalhei mais de 20 anos em jornal, conheci as principais redações do Brasil e algumas de outros países como Estados Unidos, Colômbia, Venezuela e Equador. Atualmente, como profissional de comunicação que atua em assessoria e consultoria, costumo citar, em media trainings, a frase de um grande jornalista, Carl Bernstein, famoso pelo caso Watergate: “Jornalismo é a melhor versão possível da verdade”. É o primeiro rascunho da história, é o relato mais preciso dos acontecimentos com as informações disponíveis no momento. Com a revolução digital, as redes sociais e a polarização política, contudo, o que se percebe é que muita gente não quer exatamente uma imprensa independente: quer uma imprensa militante, que vocalize a sua visão de mundo, dentro da lógica de polarização estimulada pelas redes. O que as pessoas veem nas suas redes é um espelho de suas preferências. Na imprensa, não é bem assim: a notícia surpreende e nem sempre agrada. Fatos considerados desagradáveis então passam a ser descartados como fakes e as fake news agradáveis são tomadas como verdade. O próprio conceito de verdade factual começa a ficar meio fluido. Qualquer um pode produzir conteúdo com um celular na mão. Mas produzir informação de qualidade exige recursos. Exige tempo, exige profissionais qualificados, tecnologia de produção e distribuição. Um registro em frente ao NYT, em outubro de 2025 As novas tecnologias, as redes e a IA representam um grande avanço sem dúvida, mas a verdade é que temos um elefante na sala. Os veículos tradicionais, que têm compromisso com a busca da verdade, perderam receita e audiência, especialmente nas últimas duas décadas. E as redes sociais, que não têm o menor compromisso com nada a não ser com o próprio faturamento, ampliam a cada dia a audiência e a influência. Não por acaso, teorias conspiratórias, fake news e grupos extremistas ganharam terreno nesse período. E a lógica da polarização das redes invadiu a política. Diante do impasse, não vejo saída a curto prazo, mas não parece haver dúvidas sobre a necessidade de alguma regulamentação das redes e da IA, que de fato ameaçam o futuro da humanidade. O que cada um pode fazer, no momento, é aprimorar a busca do conhecimento e da informação de qualidade, como a que vemos no portal News Espírito Santo. *André Hees é jornalista e consultor em comunicação, com 35 anos de carreira