Qualquer pedreiro de obra pequena, desses que nunca abriram um livro de engenharia e levantaram metade das casas deste país, sabe de cor uma receita a que chama traço: tantas latas de brita, tantas de areia, uma de cimento, água até dar o ponto. Sabe também, sem que ninguém lhe tenha ensinado a palavra proporção, que o cimento é a menor parte da mistura e a única em que não se pode economizar — posto que a brita dá a dureza, a areia dá o volume, mas é aquele pó cinzento, caro e minoritário, que faz das três coisas uma só. Quando o dono da obra resolve poupar no saco de cimento, o resultado tem nome no canteiro: concreto magro. Fica de pé.
Por um tempo, fica de pé.
Nações, convenhamos, fazem-se com a mesma receita, e a proporção varia menos do que o orgulho de cada uma gostaria — seja o país rico ou pobre, antigo ou recém-inaugurado, e sem que cor, sexo, religião ou saldo bancário decidam em qual lata cada um vai parar.
Há a brita: gente que vive da oportunidade e só dela, e que tanto pode morar num barraco quanto numa cobertura, porque o que a define não é a conta, é a régua — tudo se mede pelo proveito próprio, às vezes até dentro da lei, que também a lei tem as suas frestas para quem sabe procurá-las. Para a brita, autoridade é acidente de percurso: foge-se dela, compra-se, contorna-se. Apanhada, mergulha o tempo necessário para que o assunto esfrie e volta à tona sem um arranhão, seja qual for o governo, seja qual for o valor da moda. É dura, não se liga a nada e sobrevive a qualquer demolição — aliás, é o que sobra dela.
Há a areia, muito mais numerosa: gente que nunca soube bem onde acaba o público e começa o privado, que obedece por medo, por cansaço ou por costume, que anda em bando e reclama em coro. Para a areia ninguém presta, toda instituição é um antro e a culpa é sempre do grupo que acabou de chegar ao poder — sem que lhe ocorra que o grupo anterior, o seu, fez rigorosamente o mesmo, e que o próximo fará igual debaixo do seu aplauso. A areia vai para onde a empurram, e é peneirada e reaproveitada a cada eleição.
E há o cimento.
Não é classe, não é partido, não é diploma. É o gari que varre direito a rua que ninguém fiscaliza, o empresário que paga o imposto xingando mas paga, a mãe que manda o filho voltar à padaria para devolver o troco que veio a mais, o policial que não aceita, o servidor que atende, o professor que insiste, o juiz que se mantém fiel ao juramento mesmo diante das hipocrisias e dos desatinos dos últimos andares da própria carreira, o advogado que — sabendo melhor do que ninguém o quanto o sistema manca — continua a dizer ao cliente que o caminho é o processo e não o atalho. Gente que erra, que se indigna, que cobra, que muda de opinião, mas que não perde de vista uma ideia singela e caríssima: a de que existe uma construção comum, e de que vale a pena pôr nela o seu tempo, o seu talento e a educação dos seus filhos.
Todos nós, é claro, já nos matriculamos neste terceiro grupo antes do fim do parágrafo. Convém desconfiar da pressa. Ninguém nasce cimento nem morre brita: transita-se, e o que interessa é em que direção.
Com brita e areia as nações sempre conviveram, aos trancos e barrancos. O que nenhuma aguenta é perder a liga. E os vícios de cima, note-se, não são novidade, nem o cimento alguma vez foi ingênuo: sempre soube que havia ferrugem dentro da viga. A diferença é que, durante muito tempo, houve reboco. Havia quem se encarregasse de cortar o que podia, esconder o que não podia e repintar a mancha na véspera da reunião de condomínio — e o morador, não vendo, concedia à estrutura o benefício da dúvida. O reboco caiu. Hoje a ferragem está à mostra na rua, fotografada por todos os celulares, a rachadura verdadeira ao lado da inventada, sem que o morador tenha como distinguir uma da outra — e quando os próprios engenheiros responsáveis pela obra resolvem discutir em praça pública, de dedo em riste, qual deles comprometeu a fundação, já não há laudo que tranquilize ninguém.
Não se prega aqui a volta do reboco. A mancha nunca foi a doença; doença era o que a tinta escondia, e estrutura que só se sustenta enquanto ninguém a vê não merece o nome. Mas é preciso entender o que essa exsudação diária faz com quem segura o prédio.
Faz isto: ensina.
Cada episódio que escorre lá de cima é uma aula, e a lição é sempre a mesma — a brita se deu bem. O pai que pregava respeito ouve do filho a pergunta para a qual já não tem resposta. O empresário faz a conta do que lhe custa ser correto ao lado de quem não é. O servidor sério percebe que a seriedade não lhe rendeu nada além de trabalho. E o cimento não desaparece, que ninguém se console com essa imagem heroica: o cimento migra. Um dia começa a proteger-se, a cuidar só do seu, a procurar também a sua fresta, e virou brita; ou encolhe os ombros, diz que não vai dar em nada, e virou areia.
Há aqui uma diferença que importa. O “ninguém presta” da areia é barato: quem nunca acreditou nada perde ao descrer. O “não vai dar em nada” na boca de quem foi cimento é outra coisa — é o extrato de uma conta em que se depositou a vida inteira e de onde outros sacaram. Porque autoridade, e convém lembrá-lo a quem a exerce, é crédito emprestado. Depositou-o o pai quando mandou o filho respeitar o guarda, a professora quando mandou respeitar a lei, o cidadão quando aceitou perder uma causa porque um juiz assim decidiu. Quem a desmoraliza lá em cima gasta um capital que não é seu, e gasta-o — aqui, sim, cabe o adjetivo — de maneira aviltante.
Costuma-se imaginar que isso acaba em estrondo, em revolução, em ruptura com data no calendário. Às vezes acaba, e a história guarda os escombros. O mais comum, e o mais triste, é que não acabe: o país continua, menor, cada um atrás da sua grade, confiando apenas no próprio sangue, tudo funcionando mal e ninguém mais esperando que funcione bem. Concreto magro não explode. Fissura, infiltra, mancha, e os moradores vão se habituando à rachadura da sala como se habituaram ao barulho da rua. Quase todo laudo de desabamento conta a mesma história: o prédio avisou.
Os romanos ergueram há dezenove séculos uma cúpula de concreto que continua de pé, sem um ferro dentro — e o segredo, descobriu-se muito depois, nunca esteve na pedra nem na areia, que eram as de sempre, mas na liga. É a única boa notícia deste texto: o cimento nunca precisou ser maioria. Precisa apenas não cair abaixo da dose.
De modo que o chamado é duplo. A quem exerce autoridade, em qualquer andar do prédio: o reboco não volta, e daqui em diante cada escândalo se paga à vista, com o dinheiro dos outros. A quem ainda é cimento: cada “não vai dar em nada” tira do traço mais uma pá — e a obra, convém não esquecer, é a casa onde vão morar os seus filhos.
O prédio está avisando.
*Gustavo Varella é advogado, jornalista, professor e mestre em Direitos e Garantias Fundamentais pela FDV
