O jornal mais importante do mundo, The New York Times, completou 175 anos nesta sexta-feira, 18 de setembro. A edição comemorativa lembra que o telefone foi inventado há 150 anos e a televisão, há menos de 100 anos. A população dos EUA era de 24 milhões de habitantes, hoje está em 350 milhões. O atual publisher do jornal, Arthur Gregg Sulzberger, pertencente à quinta geração da família, escreveu um artigo em que fala sobre a sua visão do ofício, tão incompreendido nos dias atuais.
“No Times, acreditamos que o papel de um jornal é buscar a verdade, ajudar as pessoas a entenderem o mundo e cobrar responsabilidade do poder. Isso significa fornecer às pessoas informações necessárias para a tomada de decisões. Quando erramos, somos transparentes com o público e buscamos evitar futuros erros. Hoje, porém, o futuro da imprensa livre é incerto nos EUA”, diz Sulzberger. Não somente lá.
O modelo de negócios baseado em publicidade perdeu receita, que migrou para as grandes plataformas digitais. E o conteúdo produzido por empresas jornalísticas é “roubado” pelas grandes empresas de tecnologia por trás da inteligência artificial – a expressão roubado, “stolen” no original, é dele, e parece bem apropriada.
Ao longo desses anos todos, o Times cobriu a Segunda Guerra, o assassinato de Martin Luther King, o ataque às Torres Gêmeas. “Já tive colegas que foram sequestrados, presos e baleados durante o trabalho. Um sobreviveu a uma explosão de mina terrestre, outro a uma queda de helicóptero, muitos foram investigados e processados”, lembra o publisher. Manter essa máquina funcionando exige recursos e coragem.
Trabalhei mais de 20 anos em jornal, conheci as principais redações do Brasil e algumas de outros países como Estados Unidos, Colômbia, Venezuela e Equador. Atualmente, como profissional de comunicação que atua em assessoria e consultoria, costumo citar, em media trainings, a frase de um grande jornalista, Carl Bernstein, famoso pelo caso Watergate: “Jornalismo é a melhor versão possível da verdade”. É o primeiro rascunho da história, é o relato mais preciso dos acontecimentos com as informações disponíveis no momento.
Com a revolução digital, as redes sociais e a polarização política, contudo, o que se percebe é que muita gente não quer exatamente uma imprensa independente: quer uma imprensa militante, que vocalize a sua visão de mundo, dentro da lógica de polarização estimulada pelas redes.
O que as pessoas veem nas suas redes é um espelho de suas preferências. Na imprensa, não é bem assim: a notícia surpreende e nem sempre agrada. Fatos considerados desagradáveis então passam a ser descartados como fakes e as fake news agradáveis são tomadas como verdade. O próprio conceito de verdade factual começa a ficar meio fluido.
Qualquer um pode produzir conteúdo com um celular na mão. Mas produzir informação de qualidade exige recursos. Exige tempo, exige profissionais qualificados, tecnologia de produção e distribuição.

Um registro em frente ao NYT, em outubro de 2025
As novas tecnologias, as redes e a IA representam um grande avanço sem dúvida, mas a verdade é que temos um elefante na sala. Os veículos tradicionais, que têm compromisso com a busca da verdade, perderam receita e audiência, especialmente nas últimas duas décadas. E as redes sociais, que não têm o menor compromisso com nada a não ser com o próprio faturamento, ampliam a cada dia a audiência e a influência. Não por acaso, teorias conspiratórias, fake news e grupos extremistas ganharam terreno nesse período. E a lógica da polarização das redes invadiu a política.
Diante do impasse, não vejo saída a curto prazo, mas não parece haver dúvidas sobre a necessidade de alguma regulamentação das redes e da IA, que de fato ameaçam o futuro da humanidade. O que cada um pode fazer, no momento, é aprimorar a busca do conhecimento e da informação de qualidade, como a que vemos no portal News Espírito Santo.
*André Hees é jornalista e consultor em comunicação, com 35 anos de carreira
