Luiz Paulo Comério venceu a principal premiação do XVI Salão Internacional de Artes Visuais SINAP/AIAP/Unesco, em São Paulo, com instalação formada por centenas de tijolos de cerâmica
Durante anos, Luiz Paulo Comério trabalhou com projetos, cálculos e estruturas como arquiteto e urbanista. Foi no barro, no entanto, que encontrou espaço para experimentar com maior liberdade. A mudança de trajetória levou o artista capixaba ao Grande Prêmio do XVI Salão Internacional de Artes Visuais SINAP/AIAP/Unesco, realizado em São Paulo.

Comério (foto acima) conquistou a principal premiação do salão com a obra “(Des)construção Coletiva”. A instalação disputou espaço com trabalhos de mais de 60 artistas de diferentes estados brasileiros e foi apresentada na Galeria Olido, em exposição promovida pelo Sindicato Nacional dos Artistas Plásticos (SINAP-ESP).

A obra é composta por centenas de tijolos de cerâmica. Em uma das faces aparecem palavras como “empatia”, “gentileza”, “honestidade” e “prudência”; no verso, estão seus respectivos antônimos. Mais do que observar, o visitante era convidado a interferir diretamente na instalação, escolhendo um dos tijolos e levando-o para casa.
Com isso, a obra se modificava ao longo da exposição e ganhava novos destinos à medida que as peças deixavam a galeria.
“Esse prêmio me encheu de orgulho. Ver as peças sendo levadas pelos visitantes e ouvir suas histórias foi muito gratificante. É um sentimento de continuidade em cada casa”, conta Luiz Paulo.
Obras que se transformam com o público
A interação entre obra e espectador também está presente em outro trabalho do artista, “Desmanche Programado”, que integra a exposição “Alquimia do Barro – Revolver-se nessa Terra”, em cartaz na Casa Porto das Artes Plásticas, no Centro de Vitória.

Na instalação, barcos feitos de barro são colocados sobre a água e, com o passar do tempo, começam a perder sua forma. Para chegar ao resultado, Luiz Paulo realizou diferentes testes até encontrar o tempo necessário para que as peças começassem a se desfazer.
A proposta aborda questões relacionadas à memória, ao fazer manual e ao desaparecimento de tradições culturais ligadas às comunidades pesqueiras. Mas o artista prefere não estabelecer uma interpretação única para o trabalho.
Durante a exposição, por exemplo, um visitante enxergou na instalação uma representação da perda da beleza. “No início o barco está perfeito e depois vai se desmanchando”, comentou.
“Gosto mais de observar como as pessoas interagem com a obra do que explicar o que ela significa. A arte não precisa ficar distante das pessoas. Aproximá-la é o que busco”, afirma Luiz Paulo.
Para o ceramista, o trabalho se completa justamente quando deixa de pertencer exclusivamente ao artista e passa a incorporar as interpretações e experiências de quem entra em contato com ele.
Da arquitetura para a cerâmica
A mudança profissional de Luiz Paulo ocorreu de maneira gradual. Formado em Arquitetura e Urbanismo e acostumado a trabalhar dentro de normas, medidas, cálculos e demandas de clientes, ele encontrou na cerâmica um território para experimentar, errar e criar com maior liberdade.
Incentivado por uma amiga, começou a frequentar aulas de cerâmica com Águeda Valentim, fundadora da CERAMES. O que inicialmente era uma atividade paralela ganhou espaço até se transformar em profissão. Há seis anos, Luiz Paulo fez a transição definitiva de carreira.
A trajetória também se cruza com a história da CERAMES, associação na qual encontrou ambiente para desenvolver seu trabalho e ganhar confiança para participar de exposições nacionais.
CERAMES celebra 25 anos
A exposição “Alquimia do Barro – Revolver-se nessa Terra”, da qual Luiz Paulo participa, celebra os 25 anos da CERAMES e apresenta diferentes vertentes da produção contemporânea de cerâmica no Espírito Santo.
Criada em 2001, a entidade surgiu da iniciativa de ceramistas interessados em compartilhar conhecimentos e fortalecer uma atividade que, naquele momento, era desenvolvida de maneira mais isolada nos ateliês.
Ao longo de 25 anos, a CERAMES ampliou a integração entre artistas e a presença da produção capixaba em exposições e eventos dentro e fora do Estado. Atualmente, reúne 62 integrantes e já teve cerca de 150 associados ao longo de sua trajetória.
A conquista de Luiz Paulo em São Paulo também reforça essa presença da cerâmica produzida no Espírito Santo no circuito nacional. Entre tijolos que deixam a exposição nas mãos dos visitantes e barcos que desaparecem lentamente sobre a água, o artista constrói trabalhos nos quais público, memória e transformação tornam-se parte da própria obra.
Serviço
Exposição: Alquimia do Barro – Revolver-se nessa Terra
Local: Casa Porto das Artes Plásticas — Centro de Vitória
Visitação: até 16 de agosto de 2026
Entrada: gratuita
Realização: CERAMES
Curadoria: Lindomberto Ferreira Alves
Curadoria adjunta: Amanda Amaral
