Complexo ferroviário inaugurado há 131 anos foi revitalizado, ganhou áreas de convivência e atrações culturais e receberá o Viana Restaurante a partir de 31 de agosto.
Primeira estação construída na ferrovia que ligava Vitória a Cachoeiro de Itapemirim, a histórica Estação Ferroviária Eugênio Leonardo de Souza, inaugurada em 1895, começa a escrever um novo capítulo. Totalmente revitalizado, o complexo foi reaberto nesta quarta-feira (19), em Viana, com novos espaços de convivência, cultura e lazer e receberá, a partir de 31 de agosto, o Viana Restaurante.
A transformação integra a aposta do município em fortalecer o turismo e, especialmente, o agroturismo, preservando um dos símbolos da história ferroviária do Espírito Santo.
A estrutura foi requalificada para receber atividades culturais e de entretenimento, proporcionar mais conforto aos visitantes e transformar a estação novamente em um ponto de encontro da cidade.
Uma das principais novidades é a chegada do Viana Restaurante, empreendimento gastronômico que será aberto ao público no dia 31 de agosto. O espaço será administrado pelo Uaine Group, vencedor da licitação pública realizada pelo município, e terá uma operação integrada às características históricas da estação.

Um vagão ferroviário foi adaptado para funcionar como área de mesas e cadeiras, preservando a ligação do empreendimento com a memória do lugar. A revitalização também contemplou a construção de um novo bloco de cozinhas para atender ao restaurante, área de churrasco de chão e reforma e adequação dos banheiros.

O prefeito Wanderson Bueno destacou que a relação de Viana com a estação ultrapassa a própria estrutura física. Ao longo dos anos, o município realizou reformas e adaptações para manter vivo um dos principais símbolos de sua identidade.

“Nós reformamos toda a nossa estação, que é de 1895, a primeira estação ferroviária construída aqui no Espírito Santo, que vai sediar um belo restaurante, onde nós vamos receber os vianenses, os capixabas e os brasileiros”
Bueno também ressaltou a ligação afetiva dos moradores com o patrimônio. “Nós, enquanto vianenses, sempre tivemos muito carinho por este espaço. A gente sempre defendeu a estação como patrimônio e identidade da cidade. Hoje é com muito orgulho que eu entrego simbolicamente a chave da estação”, declarou.
Para o prefeito, a chegada do restaurante também representa uma oportunidade de inserir Viana no roteiro de quem busca gastronomia, entretenimento e lazer de alto padrão. Segundo ele, a experiência do Uaine Group na Grande Vitória está alinhada à proposta do novo momento do complexo.
“É um sentimento de que agora o vianense precisa se arrumar para ir a um lugar dentro do município”, brincou Bueno. Para ele, poder desfrutar de uma estrutura desse porte na própria cidade é motivo para “bater no peito com orgulho e ver o que Viana se transformou”.
Primeiro empreendimento do grupo fora de Vitória e Vila Velha
O CEO do Uaine Group, Leonardo Freitas, destacou que o Viana Restaurante será o primeiro empreendimento do grupo fora do circuito Vitória-Vila Velha e terá como diferencial funcionar dentro de um patrimônio histórico.

“Ficamos muito felizes com a oportunidade de participar desse empreendimento. Ao longo de mais de um ano acompanhando as obras, acabamos nos apaixonando por Viana e pelo projeto. Podem ter certeza de que vamos cuidar muito bem dessa estação e queremos fazer dela um exemplo para todo o Espírito Santo”, afirmou Freitas.
Antes da abertura oficial ao público, o restaurante terá uma inauguração simbólica nesta quinta-feira (21). Os primeiros convidados serão os 150 profissionais que trabalharam na revitalização da estação. A iniciativa partiu do prefeito após uma conversa com um dos pedreiros envolvidos na obra e busca reconhecer quem participou diretamente da transformação do espaço.
“Nós vamos honrar essas pessoas, porque elas fazem parte dessa entrega”, afirmou Wanderson Bueno.
Palco, áreas verdes e novo entorno
A experiência na estação não ficará restrita à gastronomia. O complexo ganhou um novo palco em formato de vagão, preparado para apresentações artísticas, eventos e outras atividades culturais. As áreas verdes também foram revitalizadas e passaram a oferecer novos espaços de convivência e permanência.

O entorno recebeu uma série de intervenções. As vias de acesso foram pavimentadas em PAVS, enquanto calçadas e áreas de circulação passaram por regularização e adequações. A sinalização foi reorganizada e a iluminação da estação e das áreas próximas foi completamente atualizada.
Novas luminárias inspiradas na estética do período ferroviário foram instaladas para valorizar a arquitetura e os detalhes do complexo. Especialmente durante a noite, a proposta é criar uma atmosfera que dialogue com a história da estação, mas com a estrutura e o conforto de um espaço renovado.
Os acessos também receberam melhorias. O viaduto da BR ganhou nova pintura, as escadarias que levam à estação foram reformadas e um muro de arrimo foi implantado para contenção e estabilização das áreas próximas. As intervenções buscam proporcionar melhores condições de circulação, segurança e utilização do complexo, inclusive no período noturno.
Maria-Fumaça preserva parte da história

Em meio às novidades, alguns dos elementos mais antigos da estação permanecem como protagonistas. É o caso da Maria-Fumaça, locomotiva a vapor fabricada em 1917, nos Estados Unidos, que também passou por reforma e adequações e já está disponível para visitação.
A locomotiva percorreu uma longa trajetória antes de chegar a Viana. Adquirida inicialmente por franceses, foi utilizada durante a Segunda Guerra Mundial. Posteriormente, veio para o Brasil e trabalhou no transporte de cana-de-açúcar em usinas do Rio de Janeiro até a década de 1980.
Mais tarde, integrou uma coleção particular, mantendo preservadas suas características originais. Em 2006, foi adquirida pela Prefeitura de Viana como forma de conservar o patrimônio e reforçar a identidade ferroviária do município.
A própria estação acumula mais de 130 anos de história. Inaugurada em 12 de julho de 1895 pela Companhia Estrada de Ferro Sul do Espírito Santo, foi a primeira construída na linha que ligava Vitória a Cachoeiro de Itapemirim. Posteriormente, passou a integrar a Estrada de Ferro Leopoldina, conectando o Espírito Santo ao Rio de Janeiro. Na década de 1960, chegou a receber o nome de Jabaeté antes de retomar sua denominação original.
Desde 2013, o imóvel funciona como museu e também foi ponto de partida do Trem das Montanhas Capixabas, passeio turístico que seguia inicialmente até Marechal Floriano e, posteriormente, Alfredo Chaves, passando por Domingos Martins. A operação foi encerrada em 2017, mas a possibilidade de retomada do projeto continua em tratativas entre as prefeituras envolvidas, o Governo do Estado e as concessionárias ferroviárias.

Memórias de quem viveu a estação
Entre as pessoas que acompanharam de perto parte dessa história está Joacyr de Abreu, que trabalhou na estação entre 1979 e 2000. Antigo chefe do local, ele comemorou a recuperação de um patrimônio que marcou sua trajetória profissional e familiar.
“É uma alegria muito grande ver a estação revitalizada e movimentada novamente. Esse sempre foi um espaço que recebeu muitas pessoas e agora, com a nova proposta e a chegada do restaurante, se torna ainda mais atrativo. Ver esse patrimônio recuperado, bonito e preparado para receber a população deixa a mim e à minha família muito felizes”, disse Joacyr.
Em 2022, a estação passou a se chamar Eugênio Leonardo de Souza, em homenagem ao ferroviário, policial, juiz de paz e servidor público que viveu em Viana e trabalhou na Rede Ferroviária Federal S.A. (RFFSA), onde se aposentou. Eugênio morreu em 2006, aos 80 anos, deixando esposa e 13 filhos.
Filho do homenageado, Helder Leonardo de Souza ressaltou a importância da preservação do espaço para as famílias que mantêm ligação com a ferrovia e com a história do município.
“É manter viva a história da cidade, a história daqueles que passaram por aqui”, afirmou.
Segundo Helder, muitos antigos trabalhadores da ferrovia ainda vivem em Viana e suas famílias conservam uma relação afetiva com a estação. “É uma memória viva para as famílias desses ferroviários que deram a vida para trazer tudo de bom para nossa cidade”, completou.
Com a revitalização, a Estação Ferroviária Eugênio Leonardo de Souza volta a receber moradores e visitantes com uma nova proposta. Os trilhos, a Maria-Fumaça e a arquitetura preservam a memória ferroviária, enquanto restaurante, palco, áreas de convivência e espaços culturais abrem caminho para novos usos. Mais de 130 anos depois de sua inauguração, a estação deixa de ser apenas um lugar de memória para voltar a fazer parte do cotidiano de Viana.
