Gustavo Varella – “A procuração de oito anos que ninguém lê antes de assinar”

Existe uma categoria de documento que as pessoas assinam sem ler. O contrato de adesão de algum serviço de streaming, os termos e condições que ninguém aceita sem rolar até o fim, a ata de condomínio que aprova obras que ninguém pediu. A esses documentos de leitura voluntariamente dispensada, acrescentamos, a cada dois anos, um outro — menos comentado, muito mais consequente: o voto para senador. Uma procuração de oito anos, outorgada com a solenidade de um clique, em nome de um estado inteiro, a alguém que, em boa parte dos casos, mal conhecemos e sobre o qual, francamente, preferimos não nos deter.

Essa displicência com o que assinamos não é, porém, um hábito isolado. É o reflexo de algo maior e mais antigo: a displicência com as palavras – e, por extensão, com o peso que elas carregam. A palavra – falada ou escrita, sussurrada ou vociferada – um dos recursos mais preciosos e prodigiosos da nossa condição humana, é hoje tratada com uma leveza que beira o escândalo. E o adágio popular, velho e sábio como costumam ser os adágios, estará de acordo: falar até papagaio fala – o que serve para lembrar que promessas e discursos vazios são manufaturados com uma facilidade que envergonharia qualquer artesão honesto, ao passo que as escolhas concretas, essas sim, custam atenção, coragem e, às vezes, a disposição de assumir que erramos na assinatura.

Observem, por exemplo, o que fazemos com termos como “amor” e “amizade” – palavras que carregam, ou deveriam carregar, o peso de sentimentos sublimes: o vínculo de uma mãe com seu filho, o elo profundo que une duas pessoas ao longo de uma vida inteira. Essas mesmas palavras, no entanto, volta e meia as ouvimos empregadas para registrar o êxtase de alguém diante de um prato de batatas fritas, ou para nomear o vínculo entre um usuário de rede social e algum desconhecido que vive do outro lado do planeta e que, por razões que ninguém sabe ao certo, solicitou ingresso no rol de “amigos” – e foi aceito, naturalmente, porque rejeitar desconhecidos na internet exige uma firmeza de caráter que nem sempre temos, nem sempre queremos ter.

Talvez por cultivar a palavra como instrumento máximo de comunicação, ou por venerá-la como vetor cultural de primeira grandeza, ou ainda por uma curiosidade etimológica que nunca me abandonou, sempre que posso reflito sobre o que falo, leio ou ouço – uma homenagem silenciosa e modesta, mas também um exercício de higiene intelectual, porque é preciso corrigir percepções, confirmar impressões e, quando possível, aprender alguma coisa antes que o dia acabe.

“Senado” – e é ela a nossa palavra de hoje. Objetivamente, nos remete a uma das duas câmaras que compõem o Congresso Nacional, onde atuam oitenta e um senadores eleitos para mandatos de oito anos, representando os estados e o Distrito Federal, com a missão de criar e revisar leis, fiscalizar o governo e julgar autoridades, entre outras atribuições que a Constituição lhes conferiu com uma generosidade que, convenhamos, alguns trataram como carta branca. A etimologia nos leva mais longe: a palavra remonta ao latim senatus, que designava o conjunto de anciãos, os chefes do patriarcado que exerciam papel central nos tempos do Império Romano – homens de experiência, de gravidade, de uma solenidade que não era postura nem encenação, mas a expressão natural de quem carregava sobre os ombros o destino de um povo. Esse, de maneira singela, é o seu significado.

Quando mudamos a lente, porém, e passamos a examinar a significância – e é aqui que a coisa fica séria, e também um pouco triste, e também, convenhamos, levemente cômica, como costumam ser as tragédias brasileiras – deparamo-nos com algo que deveria ser importante, grave, relevante e, sobretudo, solene. A senatoria é, na minha opinião, a maior distinção representativa, a maior honra eletiva que um cidadão pode ostentar neste país. A Presidência da República, os governos estaduais, as prefeituras são, sem dúvida, funções imensamente dignificantes –mas a escolha de um presidente ou de um prefeito admite, e todos sabemos disso ainda que poucos o admitam em voz alta, razões as mais variadas e algumas delas as mais tortuosas: a confiança na figura do candidato, a falta de opção melhor, o fato de ser o menos horroroso entre as alternativas disponíveis, a promessa de alguma recompensa – material, simbólica ou simplesmente o imperativo de um “vote com nóis” proferido por alguém com autoridade suficiente para que não fosse ignorado.

Escolher um senador, porém, é – ou deveria ser – diferente. Ao menos pela solenidade que a função historicamente ostenta. E por solenidade não me refiro aos rapapés protocolares ou às liturgias do poder, mas à consciência de que se está elegendo alguém para representar um estado inteiro, com toda a sua complexidade humana, econômica e cultural, por oito longos anos durante os quais muita coisa pode acontecer – e geralmente acontece.

Ajuda bastante, nesse ponto, recorrer a certas instituições consagradas pela experiência coletiva, como o casamento. Ninguém comparece a uma cerimônia de casamento – seja entre pessoas riquíssimas e famosas ou entre pessoas humildes e desconhecidas – de chinelo de dedo, sunga de praia e mastigando uma mexerica: seria, e é quando acontece, um desrespeito para com os noivos, suas famílias, os presentes e as autoridades que oficializam ou abençoam o enlace. Há ocasiões que exigem de nós uma postura à altura – não por vaidade, mas por respeito: pelo ato, pelos outros e por nós mesmos.

Ocorre que – e cada dia nos oferece novos e mais eloquentes indicativos disso – nos tempos presentes, assistimos a uma banalização inquietante na composição do nosso Senado. Cenas mais próprias a ambientes circenses, a delegacias de polícia ou a brigas de vizinhos enciumados vêm tomando de assalto, subvertendo e personalizando – no pior sentido possível – não apenas a Instituição e seu papel fundamental, mas o próprio conceito de representação política que seus membros deveriam encarnar com alguma dignidade.

São consequências, em parte, da ignorância que grassa no país, do apequenamento dos valores que outrora, se não habitavam entre nós, ao menos eram reverenciados à distância, e da mediocridade hoje alçada à condição de mola propulsora da fama e do poder almejados a qualquer preço – e o preço, todos sabemos, costuma ser pago por outros. Mas a covardia, a ausência de senso do ridículo e a falta de compromisso individual com a construção da cidadania aceleram o processo de aviltamento moral que observamos cada dia mais insuflado entre nós, temperado pela sanha estelionatária e hipócrita que muitos disfarçam com discursos e ações vazios de tudo: sentido, dignidade, propósitos humanistas e, sobretudo, honestidade intelectual.

Imediatistas por formação ou por conveniência, muitas pessoas se empenham em debates – às vezes fratricidas, sempre exaustivos – que têm como objeto a figura que concorre à Presidência, aos governos estaduais ou às prefeituras, supondo que são essas funções que preponderam na construção de um país melhor. Pouco se dão ao escrutínio, ainda que superficial, das ideias, das propostas e, mais importante que tudo, da história de vida daqueles e daquelas que se apresentam candidatos ao Senado. O que se colhe é o produto desse descaso: dos oitenta e um homens e mulheres que exercem a senatoria no Brasil, raros são os que compreenderam seu papel, sua missão, a solenidade e a honra exigidas no desempenho de mandatos confiados por milhões de pessoas que mereciam – e merecem – algo substancialmente melhor.

Qualquer brasileiro pode, cumpridos os requisitos que a Constituição e a legislação eleitoral impõem, submeter seu nome à votação popular – e isso é legítimo, é democrático, e assim deve ser mantido e permanentemente aperfeiçoado. Todavia, a escolha pelo eleitor impõe, ao menos para os que compreendem a importância desse direito sagrado, um mínimo de razoabilidade, de inteligência e de compromisso coletivo – independentemente de ideologias, credos ou quaisquer outros elementos subjetivos que dirigem os dedos à urna eletrônica. Porque ao apertar o botão “confirma”, estamos assinando uma procuração com validade de oito anos. E nenhuma medida se apresenta mais reveladora do caráter de alguém do que as escolhas que faz ao longo de sua existência – especialmente as que faz em nome de todos nós.

Gustavo Varella é advogado, jornalista, professor e mestre em Direitos e Garantias Fundamentais pela FDV

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Diretor de conteúdo – Eduardo Caliman

Jornalista formado pela Ufes (1995), com Master em Jornalismo para Editores pelo CEU/Universidade de Navarra – Espanha. Iniciou a carreira em A Tribuna e depois atuou por 21 anos em A Gazeta, como repórter, editor de Política, coordenador de Reportagens Especiais e editor-executivo. Foi também presidente do Diário Oficial, subsecretário de Comunicação do ES e, de 2018 a 2024, coordenador de comunicação institucional no sistema OAB-ES/CAAES.

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