Gustavo Varella – “A seleção, o mágico e o coelho que teima em não sair da cartola”

Há algo de profundamente ancestral, quase comovente na sua obstinação, no jeito como o brasileiro para tudo a cada quatro anos e decide, com uma convicção que dispensaria qualquer evidência, que chegou a hora, que desta vez é diferente, que os astros se alinharam de maneira que só pode ser explicada por uma combinação de destino manifesto e escalação correta do centroavante, e que o troféu que está guardado em algum cofre em Zurique — cidade que o brasileiro médio só conhece por causa dessa taça e por causa de investigações da Polícia Federal — está praticamente embalado para envio, faltando apenas a formalidade de jogar as partidas, detalhe logístico que o entusiasmo nacional trata como burocracia dispensável.

Mas convém, antes de embarcar nessa viagem quadrienal, notar que o Brasil de hoje não é exatamente o Brasil de 1970, quando o ouro parecia brotar do chão junto com os jogadores, quando os campinhos de terra eram fábricas a céu aberto de gente que entendia o futebol como língua materna, idioma aprendido antes do português formal, antes da tabuada, antes de qualquer coisa que a escola pudesse oferecer. Esses campinhos foram engolidos — e aqui a palavra é precisa, é digestiva, é irreversível — pelos empreendimentos imobiliários, pelo crime organizado que tomou de assalto os territórios onde a pobreza criava, paradoxalmente, alguma liberdade, e pela indiferença sistemática de quem decide onde vai o dinheiro e concluiu que campo de futebol em comunidade carente tem rentabilidade inferior à de um galpão logístico.

O craque, portanto, não brota mais do chão. Ou brota mais raro, ou brota e é imediatamente exportado antes de criar raízes, ou brota e descobre que entre ele e o estádio há um intermediário, um empresário, um contrato, uma cláusula de imagem, uma marca de chuteira que precisa ser respeitada, e que o futebol em si, a bola rolando, é apenas o pretexto, o evento gerador de conteúdo, a matéria-prima que alimenta uma cadeia de valor que não tem a menor intenção de partilhar o valor com quem corre.

E nesse contexto, nesse Brasil que mudou, mas não gosta muito de reconhecer que mudou, chegamos ao momento da convocação, que é sempre um teatro em vários atos com os mesmos personagens usando figurinos ligeiramente diferentes. O técnico — importado, desta vez, com currículo internacional que o brasileiro respeita com a deferência de quem não confia inteiramente em si mesmo, o que é uma forma interessante de amor-próprio coletivizado — olhou para o plantel disponível, pesou as opções e decidiu convocar aquele jogador.

Aquele jogador que todos sabem quem é sem que seja necessário nomear, porque o Brasil tem apenas um desses por geração, e a característica principal dessa categoria não é só o talento — que existe, que é real, que em dias de graça faz o estádio inteiro esquecer por um momento toda a decepção acumulada — mas a capacidade extraordinária de gerar, fora do campo, um volume de narrativa que rivaliza com o que acontece dentro dele. As lesões que chegam na hora errada com uma pontualidade que seria admirável se fosse em outro contexto. As polêmicas que se sucedem com a regularidade de uma série com roteirista preguiçoso. A vida pessoal transformada em reality show por vontade própria e depois tratada como invasão de privacidade quando o show desagrada. Tudo isso foi pesado, e o técnico decidiu que o talento justifica a bagagem, o que pode até ser verdade, mas é uma aposta, e apostas no Brasil de hoje têm uma conotação nova e levemente sórdida que merece pelo menos um parêntese.

Porque as casas de apostas — esse parasita elegante que chegou vestido de entretenimento e ficou como vício — fizeram algo que nenhum adversário em campo conseguiu: transformaram o futebol de experiência coletiva em transação individual, de rito comunitário em cálculo privado, de coisa que você assiste com o pai, com o filho, com os amigos, discutindo e rindo e sofrendo juntos, em algoritmo que vibra no celular e te lembra, com notificações cuidadosamente cronometradas pela ciência comportamental, que você pode ganhar dinheiro se souber escolher o jogador certo. O mesmo jogador que o técnico convocou. O mesmo jogador em cujas chuteiras depositamos, como sempre, o peso desproporcional de uma nação que quer muito acreditar em alguma coisa.

E aqui chegamos ao nó central desse rito que se repete, ao ponto onde a honestidade intelectual exige que se pare e se diga, claramente e sem a vaidade fácil de qualquer um dos dois lados: não sabemos. Não sabemos se vai ser campeão. Não sabemos se vai cair na fase de grupos. Qualquer pessoa que afirmar uma coisa ou outra com convicção, antes que uma bola seja chutada, está vendendo alguma coisa — otimismo de varejo ou pessimismo de boutique, mas vendendo, performando, ocupando espaço na narrativa nacional com a autoridade de quem confunde achismo com análise. O torcedor que grita “hexa é agora” e o analista que suspira “vai dar errado como sempre” estão, no fundo, fazendo a mesma coisa: aparecer. Usar a Copa como palco para uma personagem que construíram e que precisam alimentar, independentemente do que acontecer em campo.

O futebol, esse jogo que um dia foi simples a ponto de precisar apenas de uma bola e um espaço vago, tornou-se o espelho mais fiel que temos, nós brasileiros, de tudo que somos e de tudo que não conseguimos resolver. A corrupção dos dirigentes que se perpetua porque os dirigentes são eleitos por dirigentes. O talento desperdiçado em estruturas que não foram feitas para aproveitá-lo. A saudade de uma grandeza que existiu de verdade, mas que viramos mito antes do tempo, antes de entendermos o que a produziu e o que seria necessário para reproduzi-la. E, sobre tudo isso, a camada espessa do barulho — o barulho dos que já estão comemorando e o barulho dos que já estão lamentando, ambos igualmente prematuros, ambos igualmente vazios, ambos cumprindo a função de preencher o silêncio desconfortável que viria se alguém parasse e perguntasse, com sinceridade: o que esse resultado vai mudar, de fato, na vida de qualquer um de nós?

A resposta, claro, é que não vai mudar nada. O Brasil campeão acorda no dia seguinte com os mesmos problemas. O Brasil eliminado também. As ruas ficam limpas do confete — cada dia mais raro de tempos para cá, numa despedida silenciosa do costume que pintava calçadas e janelas e automóveis de verde e amarelo com uma energia que não precisava de convocação nem de aplicativo — em dois dias. Os dirigentes continuam nos seus cargos. O campinho de terra não volta. A criança que teria sido craque, mas cresceu sem espaço para isso não reaparece. E o jogador — aquele jogador, o de sempre, o inevitável — volta para o clube europeu, ou para a polêmica seguinte, ou para a lesão seguinte, carregando o peso de um messianismo que não pediu, mas também não recusou, porque recusar exigiria uma humildade que é rara em qualquer pessoa e rara ao quadrado em quem aprendeu desde cedo que no Brasil, se você não vender sua própria lenda, ninguém vende por você.

Somos, no fim, um país que joga futebol com o coração na garganta e o cérebro em algum lugar que ainda não localizamos com precisão, que ama com uma intensidade que envergonha e decepciona com uma regularidade que já deveria ter ensinado algo, e que volta, quatro anos depois, exatamente igual, exatamente esperançoso, exatamente despreparado para qualquer resultado que não seja o que já decidiu que merece.

E isso, pensando bem, talvez seja a coisa mais humana que existe em nós.

Gustavo Varella é advogado, jornalista, professor e mestre em Direitos e Garantias Fundamentais pela FDV

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Diretor de conteúdo – Eduardo Caliman

Jornalista formado pela Ufes (1995), com Master em Jornalismo para Editores pelo CEU/Universidade de Navarra – Espanha. Iniciou a carreira em A Tribuna e depois atuou por 21 anos em A Gazeta, como repórter, editor de Política, coordenador de Reportagens Especiais e editor-executivo. Foi também presidente do Diário Oficial, subsecretário de Comunicação do ES e, de 2018 a 2024, coordenador de comunicação institucional no sistema OAB-ES/CAAES.

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