Conta-se de um homem que comprou um cavalo branco pintado de listras negras, e o detalhe que torna a história digna de registro é que ele sabia — sabia da tinta, sabia do pincel, sabia até o nome do pintor —, mas pagou o preço de zebra assim mesmo, posto que não estava comprando um animal, estava comprando o olhar dos vizinhos, o cochicho na esquina, a inveja alheia enfeitada de admiração, essa moeda que não circula em banco algum, mas que move mais gente do que o dinheiro propriamente dito.
Ninguém compra zebra para montar. Compra-se zebra para ser visto montando.
E é aqui que o cavalo pintado encontra a manada, porque o sujeito que se traveste de diferente e o sujeito que corre atrás dos iguais são, convenhamos, o mesmo sujeito: um quer parecer especial, o outro tem pavor de ficar de fora, e ambos deixaram de perguntar a coisa mais elementar que se pergunta diante de qualquer negócio — o que é isto, afinal? —, porque a pergunta elementar é humilde, e a vaidade não se dá com a humildade nem em dia de festa. É assim que se formam as filas na beira dos buracos: um desceu e voltou com pepita, ou disse que voltou, e os demais descem em cardume, não porque tenham visto o ouro, mas porque viram o vizinho descer, e a ideia de assistir da superfície ao enriquecimento alheio dói mais do que o risco do soterramento, que é, veja-se, exatamente o mecanismo pelo qual os soterramentos acontecem.
Às vezes casos rumorosos apelidados de “pirâmides” ou outros sinônimos eufemísticos para “golpe”, “fraude”, “esquema criminoso” ou qualquer outro título mais comum quando seus envolvidos não frequentam ambientes mais nobres vêm à tona para que muita gente boa redescubra essa aritmética antiga. O que se vendia como sofisticação — o clube seleto, o gestor de fala mansa ou de hábitos estudadamente estravagantes, a rentabilidade que os comuns não alcançavam — vai se revelando, à medida que o rombo cresce a cada edição dos jornais, algo mais próximo de um bingo elegante entre pessoas autoproclamadas elegantes, e não falta quem lembre o último baile da Ilha Fiscal, aquele de novembro de 1889, em que a corte dançou faustosamente seis dias antes de descobrir que o Império havia acabado: dança-se sempre melhor quando não se sabe que a música está no fim.
Nas guerras, há quem chore os mortos e há quem lucre vendendo caixões.
E é por isso que, mal a poeira sobe, chegam eles, pontualíssimos, os primeiros a pisar em qualquer terreno conflagrado: os videntes que sempre souberam, embora só contem depois, as carpideiras profissionais que choram mais alto que a viúva, os camelôs de milagre oferecendo o antídoto, a aplicação nova, segura, garantida, diferenciada — o mesmo embrulho, note-se, apenas com outro laço —, e as autoridades instantâneas, especialistas em assuntos de que jamais tinham ouvido falar até meia hora antes do desastre, agora distribuindo diagnósticos com a segurança de quem esqueceu que também estava na fila do buraco. Esses vendedores de espuma não distinguem freguês: engambelam o miserável e o engalanado com idêntico sucesso, porque não vendem investimento, vendem pertencimento, e dessa fome padecem igualmente o barraco e a cobertura.
Compreende-se, claro, o desejo de multiplicar o que se juntou com trabalho e bons negócios passados — ninguém aqui prega o dinheiro no colchão, que aliás já fez as suas viúvas. O que se estranha é outra coisa: é que gente capaz de pesquisar três semanas o preço de uma geladeira entregue as economias de uma vida a quem promete o dobro em metade do tempo, sem fazer a pergunta da geladeira, e a resposta para o estranhamento já foi dada lá atrás, no cavalo pintado — não se estava comprando aplicação, estava-se comprando o direito de dizer que se tinha.
Curiosas também, nesses episódios, três indagações “metafóricas” (que quase nunca são feitas). A primeira: se água ao nível do mar ferve-se a 100 graus Celcius, numa caneca simples sobre as chamas de um prosaico fogão, qual a utilidade prática de uma geringonça tecnológica caríssima, que entrega o mesmo resultado? A segunda: se determinado líquido de cor caramelo, gaseificado, saborizado como “Cola”, adocicado e engarrafado pode ser produzido, engarrafado e distribuído por um décimo do custo unitário dos tradicionais, vendidos pelas grandes marcas mundiais, não seriam essas as primeiras a fabricar e comercializar essas maravilhas, aumentando, exponencialmente, suas margens de lucro? Finalmente a terceira: se determinado segredo ou método inovador e infalível, guardado no recôndito mais escuro possível, sucumbe diante de um simples acender de lâmpada, não seria ele, o segredo, apenas uma construção mental de seus detentores e o tal método tão somente um bicho peludo que mia e anda pelos telhados e becos caçando ratos, com um crachá pendurado no pescoço escrito “elefante”?
Outrossim, como ensina a “psicologia da criança arteira”, aos amados pestinhas menos importam as consequências de seus atos, a bronca dos pais desgostosos com a obediência ou as reprimendas escolares decorrentes de sua ação, do que serem flagrado nelas, ruindo, em público, a aura de inteligência e bom comportamento, que era “vendida” como sinal de genialidade ou habilidades incomuns.
Aos soterrados de agora, e aos que ainda contemplam a beira do buraco, valem os conselhos que ouvíamos dos avós, que não conheciam derivativos mas conheciam gente: no escuro, não se dá passo à frente sem antes saber onde se está e o tamanho das próprias pernas; quando tudo desaba, a primeira melhor reação é, muitas vezes, não reagir, porque quem cava desesperado atrás do prejuízo costuma apenas aprofundar o buraco, acreditando que a solução está sempre a mais umas cavadas de distância; e que prudência, caldo de galinha e uma noite dormida entre dois dias ruins evitaram mais tragédias do que muita consultoria cara.
Do avião que caiu, ainda não se conhece a extensão dos destroços, nem a lista completa de passageiros, nem quem pilotava, nem — o que talvez seja o mais doloroso — quem estava no chão, alheio a tudo, quando a fuselagem desceu. Saber-se-á, com o tempo, porque essas coisas sempre se sabem.
O que já se sabe é a lição, que é velha: a tragédia é uma grande professora, talvez a maior de todas, com um único defeito — cobra a matrícula adiantada, em dinheiro vivo, e só aceita como aluno quem admite que ainda tinha o que aprender. Os demais ficam na porta da escola, esperando a próxima zebra.
*Gustavo Varella é advogado, jornalista, professor e mestre em Direitos e Garantias Fundamentais pela FDV
