Ou: o vício nacional de terceirizar a redenção e culpar o entregador
Tem um momento muito revelador na vida política brasileira — e não é a eleição, não é o golpe, não é a crise. É o dia seguinte à decepção com o salvador. Porque o Brasil não elege candidatos. Elege redentores. E a diferença não é retórica — é clínica.
Um candidato é alguém a quem se delega poder dentro de um contrato com prazo, limite e cláusula de rescisão. Um redentor é alguém a quem se transfere responsabilidade integral pelo próprio destino — e com ela, toda a conta do fracasso coletivo. O brasileiro médio não vota pensando “o que esse governo vai fazer e como vou cobrar”. Vota pensando “finalmente alguém que vai resolver”. E essa distinção muda tudo, porque quem terceiriza a redenção não precisa fazer nada. Só precisa esperar. E depois, se necessário, se decepcionar com elegância.
O mecanismo é sofisticado demais para ser ingenuidade.
Funciona assim: elege-se o salvador com fervor quase religioso — e fervor religioso não por acaso, porque a estrutura é a mesma. Há a figura messiânica, há o povo sofrido que aguarda, há a promessa de um tempo novo, há os inimigos que precisam ser derrotados. O que não há, em nenhum momento desse roteiro, é o cidadão como agente. Ele é sempre plateia. Às vezes coro. Nunca protagonista.
Quando o salvador falha — e falha, porque salvadores são humanos administrando sistemas complexos — o mecanismo completa seu ciclo com eficiência perturbadora: a decepção é tão intensa quanto a expectativa era desproporcional, a traição é declarada com a mesma intensidade do amor anterior, e o antigo redentor vira o novo demônio. Sem que ninguém, em nenhum momento, questione por que entregou a chave da própria casa para um desconhecido e ficou surpreso quando a porta não abriu.
E aqui está o núcleo do problema, o que ninguém quer ver: a dependência do herói não é fraqueza. É estratégia.
Quem delega integralmente não pode ser cobrado integralmente. Se o país não melhora, a culpa é do líder que falhou, do sistema que sabotou, dos inimigos que impediram — nunca do cidadão que votou, não acompanhou, não pressionou, não organizou, não se informou, não apareceu. A terceirização da redenção é, no fundo, uma blindagem sofisticada contra a responsabilidade pessoal. É possível, com esse modelo, ser ao mesmo tempo vítima do presente e inocente do futuro. É um negócio excelente.
O problema é o preço.
O preço é que democracia não funciona com plateia. Funciona com participação contínua, pressão organizada, cobrança sistemática, presença nas pequenas decisões que ninguém filma e ninguém aplaude. Funciona com cidadãos que não precisam de herói porque assumiram que o protagonista são eles. Esse modelo exige muito mais do que comparecer de quatro em quatro anos com um dedo sujo de tinta e uma foto no Instagram.
Exige, sobretudo, abrir mão do conforto de ter alguém para culpar.
E esse é o passo que o brasileiro médio — não todos, não sempre, mas com frequência suficiente para importar — sistematicamente recusa dar. Porque no fundo, a decepção com o salvador é mais confortável que a responsabilidade de ser o agente. A decepção tem fim. A responsabilidade, não.
Enquanto o próximo redentor não chega, o país espera.
E chama isso de política.
*Gustavo Varella é advogado, jornalista, professor e mestre em Direitos e Garantias Fundamentais pela FDV
