Lugar que ajudou a construir a história do Espírito Santo durante o período colonial, antiga Fazenda de Araçatiba ganha novo espaço de visitação e preservação cultural em Viana
A antiga Igreja Nossa Senhora da Ajuda, monumento histórico do século XVIII localizado na comunidade de Araçatiba, em Viana, foi entregue à população capixaba nesta quinta-feira (7), após passar por um amplo processo de restauração e readequação. O espaço agora integra o novo Centro de Interpretação Fazenda de Araçatiba, concebido para reunir preservação histórica, experiências interativas, ações culturais e valorização da memória jesuíta no Espírito Santo.

Mais de mil pessoas, entre moradores, autoridades e religiosos, participaram da solenidade de entrega do espaço. O monumento pertence à Arquidiocese de Vitória do Espírito Santo. A obra foi realizada pelo Instituto Modus Vivendi por meio do edital Resgatando a História, do BNDES, com patrocínio da EDP e da Vale, através da Lei Rouanet.
Além da igreja, o projeto contemplou áreas anexas, incluindo a antiga residência dos jesuítas — que estava em ruínas —, o espaço onde funcionou uma unidade da Cesan, áreas de convivência, museu interpretativo, café, loja e novos espaços de visitação.

A proposta do Centro de Interpretação Fazenda de Araçatiba é oferecer ao público uma imersão na história e na cultura local por meio de uma linguagem contemporânea e interativa.
Durante a inauguração, a Mitra Arquidiocesana de Vitória e a Prefeitura de Viana assinaram um Termo de Anuência relacionado aos terrenos no entorno do monumento. Pelo acordo, a Mitra doou os terrenos a moradores da região e a Prefeitura assumiu o compromisso de regularizar os imóveis sem custos para as famílias em até 90 dias após o evento.

Antes do restauro, o monumento esteve interditado pelo Corpo de Bombeiros por anos devido às condições precárias da estrutura, incluindo buracos no telhado de quase um metro e instalações elétricas sem condições de uso, colocando em risco tanto o patrimônio arquitetônico quanto as pessoas que circulavam pelo local.
Restauro envolveu pesquisa histórica e recuperação de estruturas originais

O processo de restauração foi desenvolvido a partir de estudos históricos aprofundados e seguiu normas internacionais de conservação do patrimônio, tendo como referência a Carta de Veneza, documento internacional voltado à preservação de bens culturais.
A obra incluiu restauração, conservação e modernização das estruturas, recuperação de muros, paredes e pinturas, além do restauro do mobiliário antigo e implantação de novos ambientes destinados à visitação pública.
Entre os espaços criados estão o museu interpretativo, café, loja, banheiros e áreas de convivência voltadas à comunidade e aos visitantes. O café recebeu o nome de “Mãe da Ajuda”, escolhido após votação popular promovida pelo Instituto Modus Vivendi.
O conjunto histórico é formado pela Igreja Nossa Senhora da Ajuda, a antiga residência dos jesuítas — hoje transformada em parte do museu —, pátio externo, café, loja e áreas paisagísticas contemplativas.

Segundo o projeto, o monumento remonta aos séculos XVII e XVIII e é considerado um dos principais símbolos da presença jesuíta no Brasil. Tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), o espaço é a única construção remanescente da antiga Fazenda de Araçatiba, que ocupava extensa área territorial e foi posteriormente dividida em sete partes: Araçatiba, Cachoeira, Jucuruaba, Jucuna, Camboapina, Palmeiras e Ponta da Fruta.
Pinturas históricas e imagem sacra passaram por recuperação
Durante o restauro, foram realizadas novas prospecções estratigráficas, com remoção de camadas de tinta até alcançar as pinturas mais antigas do monumento. O trabalho revelou pinturas marmorizadas na nave e sacristia, além de cores originais nos adornos do arco cruzeiro.
Um dos destaques do projeto foi a restauração da imagem de Nossa Senhora da Ajuda, considerada uma das primeiras devoções marianas do Brasil. A peça, de origem portuguesa e esculpida em cedro, passou por minucioso processo de recuperação, incluindo remoção de sucessivas camadas de pintura aplicadas em intervenções anteriores, revelando a policromia e os douramentos originais.
Outro importante trabalho envolveu o restauro do retábulo do altar-mor, entalhado em madeira rara, além da recuperação de crucifixos, castiçais antigos de madeira, bancos, púlpito, objetos litúrgicos e altar lateral.
Também foram implantadas melhorias estruturais e funcionais, incluindo acessibilidade, climatização, sistemas de combate a incêndio, SPDA, iluminação, sonorização e novas instalações elétricas.
Museu interpretativo terá maquete, objetos históricos e realidade virtual

A antiga residência dos jesuítas, antes em ruínas, foi integrada ao novo museu interpretativo. No local foi instalada uma grande caixa de vidro que abriga uma maquete da antiga fazenda com aproximadamente 4 metros por 2,5 metros.
O ambiente conta ainda com climatização, telas interativas, objetos históricos e uma área dedicada aos povos indígenas. O espaço também terá sala de realidade virtual.
A antiga estação da Cesan foi incorporada ao conjunto museológico para ampliação das áreas de visitação.
Roteiro Jesuítico do Espírito Santo
O restauro integra o projeto Roteiro Jesuítico Espírito Santo, considerado o mais completo roteiro jesuítico do Brasil, com 137 quilômetros de extensão.
O trajeto parte do Santuário Nacional de São José de Anchieta, em Anchieta, passa por Araçatiba, em Viana, pelo Palácio Anchieta, em Vitória, e termina na Igreja dos Reis Magos, na Serra.
Segundo o material institucional, a Fazenda de Araçatiba foi a maior fazenda jesuítica do Espírito Santo no século XVIII. Os jesuítas utilizavam as propriedades para sustentar as atividades de catequização e educação no Brasil colonial.
O local escolhido para construção da igreja e da residência jesuíta foi próximo ao Morro Araçatiba, cujo nome significa “lugar de araçás”. A fazenda prosperou economicamente principalmente com a produção de açúcar.
Autoridades destacam importância histórica e cultural do projeto

O arcebispo de Vitória, Dom Ângelo Ademir Mezzari, afirmou que a entrega do monumento simboliza renovação para a comunidade local.
“Inaugurar o restauro da igreja de Araçatiba, dedicada à Nossa Senhora da Ajuda é um sinal de que aqui a vida continua. A história das pessoas, a caminhada da comunidade, o crescimento do lugar que ao longo do tempo acolhe novos moradores que se integram e se tornam vizinhos, amigos, parentes e ao mesmo tempo fortalecem as memórias e agregam novos modos de ser e novas esperanças”, declarou.
O governador Ricardo Ferraço, presente ao evento, destacou que “por onde as pessoas passam no Espírito Santo, encontram um legado estruturado.

“Nós precisamos continuar estruturando a memória do povo capixaba. O que o Instituto Modus Vivendi tem feito pelo Estado do Espírito Santo, apoiado pelos governos municipal e estadual, pelo setor privado e pelo deputado federal Gilson Daniel, é algo extraordinário. Esse é mais um importante restauro porque, junto com Reis Magos, na Serra, e com o Santuário de Anchieta, nós estamos fazendo um circuito dos jesuítas no Espírito Santo.”
O prefeito de Viana, Wanderson Bueno, destacou o papel do patrimônio histórico na identidade do município.

“Quando a gente recupera um patrimônio como esse, não está só cuidando de pedra e madeira, está cuidando da identidade de um povo. Viana assume aqui o papel de referência em como preservar e, ao mesmo tempo, gerar vida, turismo e renda”, afirmou.

A presidente do Instituto Modus Vivendi, Erika Kunkel, (foto) classificou o projeto como um dos trabalhos mais significativos desenvolvidos pela instituição.
“Este foi um dos trabalhos mais significativos do Instituto, tanto pelo estado em que o monumento se encontrava quanto pelos desafios na captação de recursos. Tenho a convicção de que ele se tornará um importante destaque do turismo histórico-religioso no Espírito Santo”, disse.
A superintendente da Área de Relacionamento, Marketing e Cultura do BNDES, Marina Moreira, afirmou que o projeto demonstra como a preservação do patrimônio histórico pode gerar valor cultural, social e econômico.
“Apoiar a revitalização da igreja Nossa Senhora da Ajuda é reafirmar o compromisso do BNDES com a valorização da memória brasileira e com iniciativas que aproximam a população de sua própria história”, declarou.
O presidente do Iphan, Deyvesson Gusmão, ressaltou que o restauro fortalece a identidade local e a preservação da memória coletiva.
“Esse restauro é fundamental para a preservação da memória e o fortalecimento da identidade local e reafirma a importância das políticas públicas no âmbito do patrimônio cultural”, afirmou.
Já o CEO da EDP na América do Sul, João Brito Martins, destacou o investimento sociocultural realizado pela empresa.
“Preservar o passado é uma forma de construir o futuro. Contribuir para a restauração de patrimônios culturais é manter viva a história e permitir que as pessoas conheçam as suas raízes”, disse.
A diretora do Museu Vale, Cláudia Afonso, afirmou que a iniciativa reforça o entendimento da cultura como compromisso social.
“A restauração da igreja Nossa Senhora da Ajuda e a criação do Centro de Interpretação Fazenda de Araçatiba traduzem, na prática, o entendimento da Vale de que a cultura é um pilar do seu compromisso social”, destacou.
Funcionamento
O Centro de Interpretação Fazenda de Araçatiba será aberto ao público a partir do dia 15 de maio.
Visitação:
Sexta, sábado e domingo
Das 9h às 17h30
Ações educativas com agendamento:
Terça, quarta e quinta
Das 9h às 17h30
