Cecília Perini – “Mães, dinheiro e sobrecarga: o desafio da segurança financeira feminina no Brasil”

O Dia das Mães costuma reforçar o papel central das mulheres na organização da vida familiar. São elas que, em milhões de lares brasileiros, administram o orçamento, priorizam despesas essenciais e garantem o equilíbrio financeiro da casa. Mas, por trás dessa responsabilidade cotidiana, existe um dado preocupante: quem cuida das contas da família também está entre as pessoas mais pressionadas financeiramente no país.

O cenário revela uma contradição importante. As mulheres avançaram em autonomia, ampliaram sua presença no mercado de trabalho e passaram a liderar financeiramente milhões de famílias. Segundo dados da Fundação Getulio Vargas (FGV), mais de 41 milhões de lares brasileiros já são chefiados por mulheres. No entanto, esse protagonismo vem acompanhado de acúmulo de responsabilidades, desigualdade de renda e maior vulnerabilidade financeira.

Os números mostram que as mulheres concentram hoje os maiores índices de estresse financeiro no Brasil. Também são maioria entre as pessoas que gastam mais do que ganham, realidade que reduz a capacidade de poupar, investir e construir segurança patrimonial no longo prazo.

Na prática, isso significa maior exposição a imprevistos e menos proteção financeira para o futuro. A ausência de reserva de emergência, o adiamento da aposentadoria e a dificuldade de investir fazem parte da realidade de muitas brasileiras que, frequentemente, priorizam o bem-estar dos filhos e da família em detrimento do próprio planejamento financeiro.

Essa lógica tem raízes estruturais. Mulheres ainda recebem, em média, salários menores do que homens e acumulam uma carga significativamente maior de trabalho doméstico e cuidado familiar. Isso reduz tempo, energia e capacidade de organização financeira de longo prazo.

Outro ponto fundamental é o acesso à educação financeira. Embora o tema tenha ganhado espaço nos últimos anos, grande parte da população ainda possui pouca familiaridade com investimentos, planejamento patrimonial e construção de reserva financeira. Entre as mulheres, esse desafio muitas vezes é agravado pela sobrecarga da rotina e pela cultura histórica de afastamento das decisões econômicas.

Ao mesmo tempo, há sinais importantes de transformação. O número de mulheres investidoras cresce de forma consistente no Brasil, inclusive em produtos de renda variável. Esse movimento revela uma mudança de comportamento relevante: mais mulheres buscam autonomia financeira, acesso à informação e participação ativa nas decisões sobre patrimônio e futuro.

No Espírito Santo, essa mudança também já é perceptível. O crescimento da presença feminina no mercado financeiro local demonstra que as mulheres estão cada vez mais interessadas em planejamento, investimentos e construção de independência econômica.

Mas o avanço ainda exige atenção. Educação financeira não deve ser tratada como privilégio ou conhecimento técnico distante da realidade cotidiana. Ela é uma ferramenta de proteção, autonomia e redução de desigualdades. Criar o hábito de poupar, investir regularmente e organizar objetivos financeiros precisa fazer parte da rotina, mesmo que com pequenos valores.

Mais do que administrar as contas da casa, mulheres precisam ser incentivadas a construir segurança financeira própria. Afinal, cuidar da família também significa garantir estabilidade para quem sustenta diariamente esse cuidado.

O debate sobre maternidade e finanças não pode se limitar ao consumo ou ao orçamento doméstico. Ele precisa incluir planejamento de longo prazo, aposentadoria, independência financeira e acesso à informação. Porque autonomia econômica também é uma forma de proteção social — e de liberdade.

*Cecília Perini sócia e líder da XP no Espírito Santo

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Diretor de conteúdo – Eduardo Caliman

Jornalista formado pela Ufes (1995), com Master em Jornalismo para Editores pelo CEU/Universidade de Navarra – Espanha. Iniciou a carreira em A Tribuna e depois atuou por 21 anos em A Gazeta, como repórter, editor de Política, coordenador de Reportagens Especiais e editor-executivo. Foi também presidente do Diário Oficial, subsecretário de Comunicação do ES e, de 2018 a 2024, coordenador de comunicação institucional no sistema OAB-ES/CAAES.

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