Na Associação Quilombola de Córrego do Palmito, em Jaguaré, no Norte do Espírito Santo, a agricultora Joselma da Conceição Barbosa Martins, de 51 anos, já percebe no cotidiano os impactos das mudanças climáticas sobre a produção agrícola.
“O meu avô, Antônio Ramiro dos Santos, descendente de africanos escravizados, foi o primeiro a chegar na região, na década de 1950. Ele limpou o terreno e começou a plantar. Três anos depois de sua chegada, casou e constituiu família. A ideia dos quintais produtivos foi dele e a tradição se mantém viva até hoje”, conta.
O quintal produtivo da família reúne oito lotes e cerca de 20 pessoas. No local, são cultivados mandioca, pimenta-do-reino, corante e feijão, além da criação de galinhas. A antiga Casa de Farinha segue em funcionamento. “A gente produz para consumo próprio, mas o que sobra é comercializado”, afirma.

Segundo Joselma, as mudanças no clima têm afetado diretamente o ciclo de produção. “Na época do meu avô, a plantação seguia o ciclo da lua, porque a estação de chuva tinha data certa. Agora, não temos mais essa precisão. A única solução é a pequena irrigação, mas quando esquenta demais, nem isso adianta. Dependendo da situação climática, existe o risco de a gente perder toda a produção, o feijão é o maior problema”, relata.
A realidade vivida por comunidades como a de Joselma reflete um cenário mais amplo. Dados do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima apontam intensificação de eventos extremos no país, como secas prolongadas, chuvas intensas, enchentes e ondas de calor, além de crises hídricas e energéticas mais frequentes.
De acordo com o Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional, cerca de 16 milhões de pessoas foram afetadas por desastres climáticos no Brasil em 2023. No Espírito Santo, o cenário acompanha essa tendência, com exposição a enchentes, secas e incêndios florestais, além de impactos relacionados a extremos de temperatura, especialmente no litoral.

Nesse contexto, o Mutirão Sustentável — formação em ação climática — será realizado nos dias 7 e 8 de maio, na Universidade Federal do Espírito Santo, em Vitória. O evento é gratuito e reunirá representantes de comunidades tradicionais, juventudes, agricultores familiares, lideranças locais, academia e poder público, com foco no desenvolvimento sustentável e na justiça climática.
O projeto é coordenado pela Plataforma CIPÓ, em parceria com a Secretaria Nacional de Povos e Comunidades Tradicionais e Desenvolvimento Rural Sustentável do Ministério do Meio Ambiente, e conta com viabilização por emenda parlamentar da deputada federal Jack Rocha.
A diretora-executiva da Plataforma CIPÓ, Maiara Folly, destaca que a agenda climática internacional abre espaço para ações locais. “Ao valorizar as experiências do Espírito Santo, a iniciativa aposta na ampliação da articulação entre a agenda climática internacional e soluções já em curso em nível local, ampliando sua visibilidade e suas possibilidades de fortalecimento e replicação”, afirma.
Já a deputada Jack Rocha ressalta a urgência do tema. “Não existe mais espaço para tratar a crise climática como um problema distante. No Espírito Santo, isso significa menos produção no campo, mais dificuldade para quem vive da agricultura e mais risco para quem mora nas encostas e nas periferias. Portanto, esse problema já está no prato vazio e no risco de perder a casa. Não dá mais para ficar batendo na mesma tecla sobre se a crise climática existe. A ciência já respondeu essa pergunta. O que falta agora é decisão política e soluções efetivas. Não se trata de uma agenda ambiental, é agenda de sobrevivência, renda e dignidade”, afirma.
A programação inclui atividades formativas, debates e dinâmicas colaborativas, com foco na valorização dos saberes dos territórios e no fortalecimento de redes locais. A iniciativa dá continuidade ao primeiro encontro realizado em novembro do ano passado, ampliando agora o engajamento e a participação social.
As inscrições são gratuitas e podem ser feitas online. As vagas são limitadas.
Fotos: Associação Quilombola de Córrego do Palmito, em Jaguaré. Divulgação
