A menina que viu a mãe sobreviver à violência e hoje ajuda outras mulheres

A violência marcou a infância de Lídia Roque, mas também inspirou uma missão. Ao lado da mãe, ela transformou uma história de dor no Instituto Manancial Mãos Unidas, que hoje acolhe cerca de 250 famílias e mostra que autonomia financeira, rede de apoio e empreendedorismo podem ajudar mulheres a reconstruírem suas vidas.

Por Rachel Martins

Lídia Roque aprendeu muito cedo que a violência doméstica não termina quando a agressão acaba. Ela permanece no medo, no silêncio, na dependência financeira e nas marcas que atravessam toda uma família. Sua história começou antes mesmo que ela pudesse guardar lembranças.

Quando tinha apenas um ano, sua mãe foi brutalmente espancada pelo marido e precisou ser internada em estado grave. Naquele tempo, porém, romper um casamento era quase impensável. Pressionada pelos próprios pais, por questões religiosas, culturais e sociais, voltou para casa. E o que parecia uma segunda chance transformou-se em décadas de sofrimento.

Ao longo de mais de cinquenta anos de casamento, a mãe de Lídia enfrentou violência física, psicológica, sexual, patrimonial e financeira. Criou os quatro filhos convivendo diariamente com o medo e a esperança de que um dia a realidade pudesse ser diferente. “Lembro da violência dentro de casa. Cresci vendo minha mãe passar por tudo isso.”

Em 1993, sua mãe tomou uma das decisões mais difíceis da vida. Deixou a zona rural de Colatina e mudou-se para Jacaraípe, na Serra, para trabalhar como trabalhadora doméstica. Foi o primeiro emprego que lhe deu coragem para tentar romper o ciclo. Mesmo assim, o agressor voltou a convencê-la de que mudaria. A família foi reunida novamente, mas a violência nunca desapareceu completamente. Somente, muitos anos depois, com a morte do marido, aquele relacionamento abusivo chegou ao fim.

Para Lídia, essa trajetória deixou um aprendizado que hoje orienta todo o seu trabalho. “Minha mãe só conseguiu dar os primeiros passos quando teve uma renda. A autonomia financeira muda tudo. Ela devolve à mulher o direito de escolher.”

Enquanto via a mãe reconstruir a vida, Lídia também fazia a sua própria caminhada. Trabalhou como babá, empregada doméstica, balconista de padaria e técnica de enfermagem até conseguir pagar a faculdade de Serviço Social. A escolha pela profissão, conta ela, parecia um chamado. Na igreja, desde criança, já participava de ações solidárias. Depois de formada, passou a trabalhar diretamente com mulheres em situação de violência doméstica. Foi ali que percebeu algo que mudaria completamente seu futuro.

“As mulheres recebiam atendimento jurídico, psicológico e social. Mas muitas voltavam para o agressor porque não tinham dinheiro para recomeçar. Eu sempre me perguntava: ‘como proteger uma mulher que não consegue sustentar os próprios filhos?’”, conta.

“Chegou a hora de tirar o projeto da gaveta”

A resposta começou a nascer em 2020. Naquele período, Lídia havia interrompido temporariamente a carreira para cuidar da própria saúde. Durante um almoço, sua mãe fez uma oração e, logo depois, pronunciou uma frase que ela nunca mais esqueceria: “Filha, chegou a hora de tirar o projeto da gaveta.”

As duas, então, pegaram um guardanapo de papel e começaram a desenhar o sonho que alimentavam havia anos. Ali, decidiram por onde começariam, quem poderiam convidar e o que seria necessário para transformar aquele desejo em realidade.

Foi assim que nasceu o Instituto Manancial Mãos Unidas. No início, praticamente tudo funcionava graças ao trabalho voluntário. Psicólogos, assistentes sociais, advogados, terapeutas, artesãos e amigos abraçaram a causa. Cada um oferecia o que podia. Uns doavam tempo. Outros conhecimento. Além disso, empresas parceiras começaram a contribuir com materiais, recursos e oportunidades.

“Ninguém faz nada sozinho. O Instituto nasceu porque muitas pessoas acreditaram nesse sonho junto conosco”, lembra, emocionada, Lídia.

O atendimento, que começou com apenas 20 mulheres, cresceu rapidamente. Hoje, cerca de 250 famílias recebem acompanhamento da instituição. Além da assistência jurídica, psicológica e social, o Instituto oferece oficinas de artesanato, cursos profissionalizantes, capacitação, geração de renda, atividades culturais, lazer e turismo social. Para Lídia, tudo faz parte do mesmo processo de reconstrução. “Não basta tirar uma mulher da violência. Ela precisa voltar a sonhar”.

Histórias que deixam marcas

Ao longo dos anos, Lídia viu dezenas de mulheres reconstruírem a própria história depois de passarem pelo Instituto Manancial Mãos Unidas. Algumas conseguiram o primeiro emprego. Outras abriram pequenos negócios, recuperaram a autoestima e voltaram a sonhar. Mas há histórias que inevitavelmente a fazem recordar da própria mãe.

Uma das mulheres acolhidas pelo Instituto permaneceu cerca de 50 anos em um relacionamento abusivo. Durante décadas suportou agressões físicas, psicológicas, morais e patrimoniais porque não tinha renda nem condições de recomeçar. Assim como aconteceu com a mãe de Lídia, o ciclo de violência só terminou com a morte do companheiro.

Outra mulher chegou ao Instituto mergulhada em uma profunda depressão. Passava os dias trancada em um quarto, sem acreditar que ainda pudesse reconstruir a própria vida. Depois de receber acolhimento, atendimento psicológico, orientação e participar das ações de capacitação e geração de renda, recuperou a autoestima, voltou ao mercado de trabalho e hoje ajuda no sustento da família.

Para Lídia, histórias como essas reforçam uma certeza construída desde a infância.

“A violência pode atravessar gerações quando a mulher não encontra apoio. Mas quando existe uma rede de acolhimento e oportunidade, a história também pode mudar”, ressalta.

Quando o empreendedorismo abre portas

Ela faz questão de destacar que nenhuma dessas transformações acontece de forma isolada. O empreendedorismo abre portas, mas precisa caminhar junto com proteção jurídica, acompanhamento psicológico, assistência social, capacitação e uma rede de pessoas e instituições dispostas a estender a mão.

Foi exatamente essa rede que sustentou o Instituto Manancial Mãos Unidas desde o início. Empresas também passaram a apoiar o projeto, enquanto parceiros como o Sebrae/ES, a Agência de Desenvolvimento das Micro e Pequenas Empresas e do Empreendedorismo (Aderes), a JL Construtora, a Top Six, a Nivea Brasil, a T4 Transportes, a Lear Transportes e o programa “Cuida de Quem Cuida”, coordenado por Priscila Gama, ajudaram a manter viva uma iniciativa que hoje transforma a vida de cerca de 250 famílias.

Nesse processo, o Sebrae tornou-se um parceiro importante. Segundo Lídia, as capacitações, consultorias e a participação nas feiras realizadas em parceria com a Aderes ajudaram tanto na formação das mulheres quanto na sustentabilidade do próprio Instituto, permitindo pagar despesas e ampliar projetos.

“Ninguém transforma uma realidade sozinho. Cada parceiro, cada voluntário e cada empresa que acredita no Instituto faz parte dessa história. O Sebrae abriu nossos horizontes. Mostrou que empreender também é uma ferramenta de transformação social. Outra parceria marcante veio por meio do programa ‘Cuida de Quem Cuida’, com uma premiação de R$ 10 mil que chegou justamente quando o Instituto perdeu o espaço onde funcionava desde 2020”, lembra.

Sem recursos para alugar outro imóvel, Lídia decidiu ceder um imóvel de sua propriedade para abrigar a nova sede do Instituto Manancial Mãos Unidas. O espaço foi adaptado para receber os atendimentos, mas a estrutura ainda não está concluída e depende do apoio da sociedade. Hoje, a instituição busca parceiros para concluir a obra e ampliar o atendimento.

Empresas podem colaborar com materiais de construção, mão de obra, equipamentos e patrocínio de projetos. Profissionais de diferentes áreas também podem atuar de forma voluntária, enquanto pessoas físicas podem contribuir com doações financeiras, mobiliário, computadores, materiais pedagógicos, itens para oficinas e atividades com crianças e mulheres. O objetivo é finalizar os espaços destinados aos cursos de informática, inglês, corte e costura, balé, judô e outras atividades voltadas à capacitação e ao fortalecimento da autonomia das famílias atendidas.

“Temos espaço. Temos profissionais. Temos mulheres esperando atendimento. O que falta são recursos para concluir essa obra.”

Ao olhar para trás, Lídia faz questão de dizer que não romantiza a violência vivida pela mãe, mas acredita que aquela dor lhe deu sensibilidade para compreender outras mulheres.

“Escolhemos transformar a nossa história em oportunidade para que outras famílias escrevam finais diferentes. Quando uma mulher encontra acolhimento, capacitação, oportunidade de empreender e autonomia financeira, ela não transforma apenas a própria vida. Ela muda a história das próximas gerações.”

“Proteção e autonomia caminham juntas”

Para a coordenadora de Promoção e Defesa dos Direitos das Mulheres da Defensoria Pública do Espírito Santo, Fernanda Prugner, a autonomia financeira amplia as possibilidades de escolha das mulheres e pode ser um fator importante para romper situações de violência. Segundo ela, porém, a renda, sozinha, não resolve o problema.

“A proteção das mulheres exige uma atuação articulada da rede, com acesso à Justiça, medidas protetivas, assistência social, saúde, segurança e oportunidades de geração de renda.”

Além da assistência jurídica gratuita, a Defensoria oferece orientação para medidas protetivas, ações de família, alimentos, guarda, divórcio, partilha de bens e indenizações, de acordo com a necessidade de cada mulher.

Um dos principais canais é o Click Delas, plataforma que permite solicitar orientação jurídica e medidas protetivas de forma online, sigilosa e sem necessidade de boletim de ocorrência. Após o atendimento, mulheres interessadas também podem ser encaminhadas para cursos e mentorias oferecidos pelo Sebrae, graças ao Termo de Cooperação firmado entre as duas instituições.

A parceria prevê ações de educação em direitos, empreendedorismo, inclusão produtiva e fortalecimento da autonomia econômica, reconhecendo que a reconstrução da vida passa tanto pela proteção jurídica quanto pela criação de oportunidades de trabalho e renda.

Essa integração, segundo a Defensoria, reforça uma ideia que a própria trajetória de Lídia ajuda a demonstrar: romper a violência começa pelo acolhimento, mas se fortalece quando a mulher conquista condições concretas para decidir os rumos da própria vida.

Serviço

Onde buscar ajuda

Defensoria Pública do Espírito Santo – entre os serviços oferecidos estão orientação jurídica, solicitação de medidas protetivas de urgência, ações de família, como divórcio, guarda dos filhos, pensão alimentícia e partilha de bens. É possível buscar atendimento presencial em uma das unidades no Espírito Santo.

Click Delas (www.defensoria.es.def.br), canal sigiloso que permite pedir orientação jurídica e medidas protetivas sem a necessidade de boletim de ocorrência. Após o preenchimento do formulário, uma equipe especializada do Núcleo de Defesa dos Direitos da Mulher (Nudem) entra em contato no próximo dia útil.

Em situações de risco imediato, a orientação é acionar a Polícia Militar pelo 190. Para denúncias, informações e orientações sobre violência contra a mulher, o canal nacional é o Ligue 180.

Por meio da parceria entre a Defensoria Pública e o Sebrae/ES, mulheres interessadas também podem ser encaminhadas para cursos, capacitações e mentorias voltados à geração de renda, empreendedorismo e fortalecimento da autonomia financeira.

Como ajudar o Instituto Manancial Mãos Unidas

Empresas, profissionais e cidadãos interessados em apoiar o trabalho desenvolvido pelo Instituto podem contribuir de diferentes formas, como doação de materiais de construção, mobiliário, computadores, equipamentos, materiais para oficinas, apoio financeiro, patrocínio de projetos ou trabalho voluntário. As contribuições podem ajudar a concluir a nova sede da instituição e ampliar o atendimento às cerca de 250 famílias acompanhadas, permitindo a oferta de novos cursos profissionalizantes e atividades voltadas às mulheres e crianças.

sobre nós

Diretor de conteúdo – Eduardo Caliman

Jornalista formado pela Ufes (1995), com Master em Jornalismo para Editores pelo CEU/Universidade de Navarra – Espanha. Iniciou a carreira em A Tribuna e depois atuou por 21 anos em A Gazeta, como repórter, editor de Política, coordenador de Reportagens Especiais e editor-executivo. Foi também presidente do Diário Oficial, subsecretário de Comunicação do ES e, de 2018 a 2024, coordenador de comunicação institucional no sistema OAB-ES/CAAES.

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