Consumo frequente de bebidas açucaradas está associado ao declínio cognitivo, enquanto uma dieta equilibrada pode contribuir para a saúde cerebral ao longo da vida
Aquele refrigerante no almoço, o suco industrializado da tarde ou o energético para enfrentar a rotina podem representar muito mais do que um hábito alimentar. Estudos científicos recentes indicam que o consumo frequente de bebidas açucaradas pode estar relacionado ao aumento do risco de declínio cognitivo e demência, especialmente em pessoas que já apresentam fatores de risco para doenças como o Alzheimer.
As pesquisas mostram que padrões alimentares saudáveis, com baixo potencial inflamatório e ricos em alimentos naturais, podem exercer um efeito protetor sobre o cérebro, contribuindo para preservar as funções cognitivas durante o envelhecimento, inclusive entre pessoas que já possuem alterações biológicas associadas ao desenvolvimento da demência.
Um dos estudos, publicado na revista científica The Journal of Nutrition, Health & Aging, acompanhou mais de 118 mil adultos durante aproximadamente 13 anos por meio do UK Biobank, um dos maiores bancos de dados de saúde do mundo. Os pesquisadores observaram que pessoas que consumiam mais de um copo de bebidas açucaradas por dia apresentavam maior risco de desenvolver demência. Em contrapartida, o consumo regular de café e chá esteve associado a um risco menor da doença.
Segundo a geriatra Fernanda Sperandio, da MedSênior, embora esse tipo de pesquisa não permita estabelecer uma relação direta de causa e efeito, a repetição dos mesmos resultados em diferentes estudos merece atenção.
“Quando observamos esse padrão alimentar associado ao aumento do risco de demência em grandes populações, principalmente entre pessoas com histórico familiar ou outros fatores de risco, é um sinal importante de alerta”, afirma.
Quem apresenta maior risco?
A idade continua sendo o principal fator de risco para o desenvolvimento de demências, sobretudo após os 65 anos. No entanto, pessoas com histórico familiar de Alzheimer, hipertensão, diabetes, obesidade, colesterol elevado, doenças cardiovasculares, sedentarismo, tabagismo, perda auditiva não tratada e baixa escolaridade também apresentam maior probabilidade de desenvolver algum tipo de demência ao longo da vida.
De acordo com a especialista, o problema vai além do excesso de açúcar ou do ganho de peso.
“O consumo frequente dessas bebidas favorece alterações metabólicas, como resistência à insulina, obesidade e diabetes, além de contribuir para um estado inflamatório crônico e aumentar o risco de doenças cardiovasculares. Todos esses fatores estão relacionados ao maior risco de declínio cognitivo e demência”, explica.
Os mecanismos que ligam alimentação e saúde cerebral ainda são estudados, mas pesquisas apontam que alterações metabólicas, inflamação crônica, estresse oxidativo e prejuízos à saúde vascular podem acelerar o envelhecimento do cérebro e comprometer as funções cognitivas.
Entre os idosos, o cenário preocupa ainda mais. Segundo Fernanda Sperandio, o cérebro envelhecido torna-se mais vulnerável às alterações metabólicas e vasculares, e uma alimentação rica em açúcar, ultraprocessados e gorduras de baixa qualidade agrava esse processo.
Pesquisa brasileira reforça os resultados
Os achados internacionais também encontram respaldo no Brasil. Dados do estudo ELSA-Brasil, considerado a maior pesquisa sobre saúde de adultos da América Latina, apontam que uma maior participação de alimentos ultraprocessados na dieta está associada a um declínio cognitivo mais acelerado ao longo do tempo.
Embora nenhum alimento, isoladamente, seja responsável pelo desenvolvimento do Alzheimer, especialistas destacam que manter hábitos alimentares saudáveis ao longo da vida é uma das principais estratégias para reduzir o risco de comprometimento cognitivo.
O que evitar e o que incluir no cardápio
Para a nutricionista Giselli Prucoli, o primeiro passo é deixar de considerar bebidas açucaradas como parte da rotina.
“Refrigerantes, sucos industrializados, energéticos, chás prontos, refrescos em pó e bebidas adoçadas não devem ser vistos como formas de hidratação. A água deve ser a principal bebida do dia a dia”, orienta.
Ela recomenda que esses produtos sejam consumidos apenas ocasionalmente, principalmente por pessoas com maior risco para demência, diabetes, doenças cardiovasculares ou obesidade. Outro cuidado importante é observar os rótulos dos alimentos.
Segundo a nutricionista, a nova rotulagem brasileira, que identifica produtos com alto teor de açúcar adicionado por meio do símbolo da lupa, facilita a escolha de opções mais saudáveis.
Dieta neuroprotetora
Uma alimentação considerada benéfica para o cérebro deve priorizar alimentos naturais e minimamente processados, como frutas, verduras, legumes, feijão, lentilha, grão-de-bico, ervilha e cereais integrais, além de incluir gorduras saudáveis presentes no azeite de oliva extravirgem, castanhas, nozes, amêndoas e peixes ricos em ômega-3, como sardinha e salmão.
Também fazem parte desse padrão alimentar proteínas magras, ovos, aves sem pele, laticínios com menor teor de gordura e carnes magras.
Por outro lado, a recomendação é reduzir ao máximo o consumo de alimentos ultraprocessados, refrigerantes — inclusive os sem açúcar —, sucos adoçados, bolachas recheadas, salgadinhos, embutidos, sobremesas industrializadas, cereais açucarados, frituras frequentes, gorduras trans e excesso de açúcar.
Além disso, alimentos ricos em antioxidantes, compostos bioativos e especiarias como cúrcuma, gengibre e ervas aromáticas ajudam a reduzir processos inflamatórios e favorecem a manutenção da saúde cerebral ao longo dos anos.
