Aos 85 anos, Leonor Rato lança livro sobre a origem do Bairro de Fátima e a construção de santuário

Obra de 272 páginas reúne fotografias históricas e memórias da família de Henrique Rato, imigrante português que participou da formação do bairro e idealizou o templo dedicado a Nossa Senhora de Fátima

A história da formação do Bairro de Fátima, na Serra, e da construção de um dos principais espaços de devoção religiosa da região ganha um novo registro com o lançamento do livro “O Manto que me deram”, de Leonor Rato. Aos 85 anos, a autora reúne lembranças familiares, documentos e fotografias para contar a trajetória de seu pai, Henrique Rato, imigrante português que participou do desenvolvimento urbano da Grande Vitória ao longo do século XX.

O lançamento será realizado no próximo domingo (15), após a missa das 10h30, no salão anexo ao Santuário de Nossa Senhora de Fátima, na Serra. Com 272 páginas e 52 capítulos, a publicação aborda a imigração portuguesa, os empreendimentos da família e a transformação de uma antiga fazenda no bairro que hoje abriga o santuário.

A narrativa começa em Portugal, no início do século passado, e acompanha a chegada de Henrique Rato ao Brasil, em 21 de março de 1929. Aos 26 anos, ele desembarcou no Rio de Janeiro a bordo do vapor inglês Astúrias, com o objetivo de construir uma nova vida e preparar a vinda da mãe e do irmão mais novo, que enfrentava uma doença grave.

Depois de trabalhar no comércio carioca, Henrique recebeu uma oportunidade profissional em Vitória, onde participou da implantação das Casas Pernambucanas, na Vila Rubim, e da abertura de filiais no Espírito Santo e em Minas Gerais. No interior capixaba, conheceu Anna Fiorotti, com quem se casou e constituiu família.

Sua trajetória empresarial passou por diferentes atividades. Em Itarana, investiu na produção de aguardente, negócio interrompido durante a Segunda Guerra Mundial por restrições governamentais. Para garantir o sustento da família, passou a transportar café do interior do Espírito Santo para o Rio de Janeiro, enfrentando viagens de até cinco dias por estradas de terra.

Após a guerra, retomou a fabricação da bebida, comercializada como Cachaça Ipiranga. O livro apresenta registros desse período, incluindo um rótulo original da década de 1940. Foi durante suas viagens pelo Estado que Henrique identificou a oportunidade de adquirir as terras que dariam origem ao Bairro de Fátima.

De uma fazenda ao surgimento de um bairro

A antiga Fazenda Pau Brasil, localizada na Serra, foi adquirida inicialmente para o cultivo de cana-de-açúcar. Os planos mudaram após uma visita do então bispo de Vitória, Dom José Joaquim Gonçalves, que sugeriu a construção de um santuário dedicado a Nossa Senhora de Fátima e a criação de um loteamento ao redor do templo.

A proposta começou a se concretizar na década de 1950. A intenção era estabelecer um novo centro de devoção religiosa na Grande Vitória, somando-se ao Convento da Penha, em Vila Velha. Ao apresentar sua ideia, o bispo afirmou que o santuário seria o coração da futura comunidade.

A transformação da propriedade rural em bairro exigiu investimentos na abertura de ruas, construção de moradias e implantação de serviços. Henrique chegou a criar uma linha de ônibus para facilitar o deslocamento dos moradores e doou uma área de seis mil metros quadrados para a construção de uma escola estadual, posteriormente batizada com o nome de sua mãe, Clotilde Rato.

Além dos empreendimentos imobiliários, Henrique também ficou conhecido pela criação do restaurante Madragoa, que se tornou uma referência gastronômica e ponto de encontro da sociedade capixaba.

Uma devoção iniciada em Portugal

A relação de Henrique Rato com Nossa Senhora de Fátima começou ainda na adolescência, em Lisboa, quando acompanhou, em 1917, a movimentação de fiéis em direção à cidade portuguesa de Fátima.

Ao longo da vida, manteve consigo uma pequena imagem da santa, que o acompanhava durante as mudanças de residência e viagens. Em um trecho do livro, Leonor descreve o significado desse objeto para a família: “A Santa não era apenas uma estátua. Era o ponto fixo em meio às mudanças”.

A imagem também esteve envolvida em um episódio marcante da infância da autora. Quando Leonor ainda era bebê, em Itarana, uma vela acesa em devoção à santa atingiu uma cortina e provocou um incêndio. A menina foi retirada do berço pela tia pouco antes de as chamas se espalharem. A imagem ficou danificada pelo fogo e, anos depois, foi restaurada pela própria Leonor.

Outro acontecimento registrado na obra ocorreu em 17 de abril de 1953, quando a imagem peregrina de Nossa Senhora de Fátima, trazida de Portugal, visitou o terreno onde seria construído o santuário.

Henrique participou da organização da celebração e providenciou transporte para meninas do Orfanato Santa Luzia acompanharem a solenidade. Na ocasião, foi lançada a pedra fundamental do templo. Leonor, então com 12 anos, presenciou o evento, que reuniu autoridades religiosas e moradores da região.

Para financiar a construção, a família promoveu campanhas de arrecadação, distribuiu cartões que simbolizavam tijolos e organizou rifas de terrenos. Ainda crianças, Leonor e sua irmã Adelaide percorriam residências em busca de contribuições.

Henrique também encomendou ao artista Carlo Crepaz uma imagem de Nossa Senhora de Fátima esculpida em madeira de jacarandá. Enquanto o santuário não estava concluído, a escultura permanecia na residência da família e era levada à capela de madeira para celebrações religiosas.

O sonho que a família preservou

A construção do santuário enfrentou dificuldades ao longo dos anos. O projeto original previa uma torre de grandes proporções, mas a proximidade com o aeroporto de Vitória impôs restrições à altura da estrutura. Mudanças na administração religiosa também contribuíram para a interrupção das obras.

Henrique Rato morreu em 11 de julho de 1984, sem ver o templo concluído. Antes de falecer, porém, pediu aos filhos que preservassem o terreno destinado à construção. Diante da possibilidade de comercialização da área, deixou uma orientação que se tornou parte da memória familiar: “Este terreno não se vende”.

O compromisso foi mantido pelos descendentes. Cerca de duas décadas depois, a imagem de jacarandá que permanecia na casa da família foi transferida definitivamente para o altar-mor do Santuário de Nossa Senhora de Fátima.

Memórias preservadas para novas gerações

Além da trajetória de Henrique, o livro destaca a participação das mulheres na história familiar. As lembranças da avó Clotilde, as experiências de Anna Fiorotti e as recordações da própria Leonor ajudam a reconstruir episódios da imigração portuguesa e das transformações sociais e urbanas do Espírito Santo.

A obra reúne dezenas de fotografias do acervo da família Rato, com registros da vida em Portugal, da chegada ao Brasil, dos primeiros empreendimentos e da construção do Bairro de Fátima.

A produção editorial ficou a cargo de Ana Cristina Rato Schultz, filha da autora, que participou da organização das memórias e da transformação dos relatos em capítulos. O livro também recupera a origem do sobrenome Rato, que, segundo a tradição familiar, foi recebido pelo avô José como um gesto de acolhimento e pertencimento.

Leonor Mendonça Martins Rato Schultz não tinha experiência como escritora. A decisão de publicar surgiu do desejo de preservar as histórias que acompanhou ao lado do pai, inclusive durante sua participação nos negócios imobiliários da família.

Com a colaboração da filha, as conversas e recordações ganharam forma literária. O resultado é um registro que ultrapassa a história particular dos Rato e documenta aspectos da imigração, do empreendedorismo, da religiosidade e do crescimento urbano da Grande Vitória.

Nas páginas finais, Leonor resume o significado da publicação: “Henrique atravessou um oceano para plantar. Eu atravessei a memória para colher”.

Publicado em 2026, em edição da própria autora, “O Manto que me deram” tem capa de Rubens Lima e produção editorial de Ana Cristina Rato Schultz. A obra está disponível em pré-venda pelo Clube de Autores.

Lançamento

Livro: O Manto que me deram

Autora: Leonor Rato

Data: domingo, 15 de novembro de 2026

Horário: após a missa das 10h30

Local: salão anexo ao Santuário de Nossa Senhora de Fátima, Bairro de Fátima, Serra

Pré-venda: https://clubedeautores.com.br/livro/o-manto-que-me-deram

sobre nós

Diretor de conteúdo – Eduardo Caliman

Jornalista formado pela Ufes (1995), com Master em Jornalismo para Editores pelo CEU/Universidade de Navarra – Espanha. Iniciou a carreira em A Tribuna e depois atuou por 21 anos em A Gazeta, como repórter, editor de Política, coordenador de Reportagens Especiais e editor-executivo. Foi também presidente do Diário Oficial, subsecretário de Comunicação do ES e, de 2018 a 2024, coordenador de comunicação institucional no sistema OAB-ES/CAAES.

compromisso e propósito

O NewsEspíritoSanto nasceu com compromisso de levar informação precisa, relevante e independente para os capixabas. Nosso propósito é ser uma fonte confiável para quem busca entender os acontecimentos do Estado, valorizando a transparência, a ética e a pluralidade.

Política de Privacidade: acesse aqui

contato

E-mail:

contato@newsespiritosanto.com.br

WhatsApp:

27 999204119

Participe do conteúdo do News ES: encaminhe a sua sugestão de pauta para o nosso e-mail.