De Lisboa a Vitória: pai e filha preservam a tradição da azulejaria portuguesa

Rachel Martins

Há histórias que atravessam oceanos e gerações. A de Vitor Manuel Alves Francisco reúne as duas. Aos quase 90 anos, o português, nascido em Lisboa, continua produzindo todos os dias em seu ateliê, na Serra. Trabalha em silêncio, criando lindas peças de cerâmica com a precisão de quem passou mais de seis décadas aperfeiçoando o ofício, encarando cada nova obra com a delicadeza que sempre esteve em sua alma. Ao seu lado está a filha, Liliana Alves Francisco, mais conhecida como Lana, que herdou não apenas a profissão, mas uma forma de enxergar o mundo através da arte.

Juntos, eles transformaram uma pequena loja, em Jardim da Penha, em Vitória, a Gres Arte Cerâmica, em um espaço onde a tradição da azulejaria portuguesa continua viva, agora reinterpretada com cores, paisagens e influências brasileiras.

“Meu pai é uma formiguinha. Trabalha da manhã até o fim da tarde, todos os dias. É um exemplo de dedicação e de paixão pelo que faz”, conta Lana.

Uma vida inteira pela arte da cerâmica

Vítor nasceu em Lisboa, em 1936. Ainda adolescente, emigrou para o Brasil, em 1950, tornando-se brasileiro poucos anos depois. Em 1957, iniciou sua trajetória profissional na cerâmica, em São Paulo, na Hauner Cerâmica, onde aprendeu com o mestre italiano Angelo Taccari. Foi nessa época que também conheceu o artista português João Martins, conhecido também como João Ninguém, outro apaixonado pela arte cerâmica.

Desde então, Vitor nunca mais deixou o que mais ama fazer: a cerâmica. Ao longo da carreira, trabalhou com revestimentos, esculturas, louças, painéis, objetos decorativos e, principalmente, azulejos pintados à mão. Sempre buscando novas soluções, tornou-se pioneiro em diferentes áreas da indústria cerâmica.

Foi um dos responsáveis pelo desenvolvimento de fornos de passagem rápida sobre rolos para queima de azulejos, tecnologia que acabou sendo estudada e reproduzida por fabricantes de equipamentos do setor. Também esteve entre os primeiros profissionais a produzir pisos vitrificados no Brasil, ainda na década de 1960, quando esse tipo de acabamento praticamente não existia no país. Mais tarde repetiria a inovação em Portugal.

“Nunca tivemos medo de experimentar. Se víamos uma técnica diferente, observávamos e estudávamos até descobrir como fazer”, conta Lana.

Essa curiosidade permanente moldou toda a trajetória da família. Ao contrário de muitos artistas, Vitor e Lana nunca dependeram de outra profissão. A cerâmica sempre foi a única fonte de renda da família. Eles viveram da própria produção artística no Brasil e também em Portugal. Não enriqueceram, como fazem questão de dizer, mas colecionaram experiências que poucos artesãos podem contar.

“Nunca fomos ricos, não acumulamos bens. Mas vivemos da nossa arte durante todos esses anos. Isso é algo de que temos muito orgulho.”

Essa dedicação também influenciou Lana. Embora sempre gostasse de desenho e pintura, foi convivendo diariamente com o pai que descobriu seu caminho profissional. Sem frequentar cursos formais, aprendeu observando, desenhando, testando e repetindo o processo inúmeras vezes. Hoje, ela é responsável principalmente pela pintura, decoração e identidade artística das obras produzidas pela dupla.

“Meu pai pertence a uma geração autodidata. Aprendeu lendo livros e fazendo. Eu também aprendi assim. Sempre acreditamos que olhar atentamente para uma peça pode ensinar muito”, ressalta.

De Lisboa ao restauro dos grandes painéis portugueses

Anos depois de construir uma sólida carreira no Brasil, pai e filha voltaram às origens. Durante oito anos viveram novamente em Portugal. Lá trabalharam em um dos períodos mais intensos de restauração do patrimônio histórico português, impulsionado pela revitalização dos centros urbanos e pelo crescimento do turismo. Participaram de mais de cinquenta projetos de restauração de painéis históricos, atuando em edifícios tradicionais de Lisboa e em locais emblemáticos como o Miradouro de Santa Luzia, próximo ao Castelo de São Jorge.

“Também produzimos reproduções fiéis de painéis clássicos portugueses em azul e branco para clientes brasileiros e estrangeiros. Foi uma experiência que aprofundou ainda mais o vínculo da nossa família com uma tradição artística iniciada há séculos”, lembra Lana.

A tradição portuguesa com alma brasileira

Embora preservem as técnicas clássicas da azulejaria portuguesa, o trabalho desenvolvido por Vitor e Lana, hoje, em Vitória, ganhou identidade própria. As influências vão muito além dos antigos painéis portugueses. Nas obras aparecem referências de artistas como Cândido Portinari, Manuel Cargaleiro, Jorge Colaço, Querubim Lapa, Pablo Picasso e Joan Miró.

“Mas há também elementos da cultura brasileira, das cores tropicais e das paisagens capixabas. É justamente essa mistura que torna cada peça única. A tradição portuguesa permanece presente, mas dialoga naturalmente com a identidade brasileira. É um pequeno ateliê que guarda uma grande e rica história”, explica.

Depois da pandemia de Covid-19, problemas pessoais fizeram com que Vitor e Lana encerrassem a empresa que mantinham em Portugal e retornassem definitivamente ao Brasil, para Vitória, para recomeçar. Hoje, trabalham em um pequeno ateliê instalado em uma antiga banca de revistas na Avenida Dante Michelini, em frente ao restaurante Tarrafas.

Quem passa pelo local encontra muito mais do que peças de cerâmica. Encontra histórias. Cada azulejo pintado à mão carrega décadas de conhecimento, técnicas transmitidas entre gerações e a certeza de que o artesanato continua sendo uma das formas mais bonitas de preservar a memória de um povo.

“Enquanto muitos processos se tornam automatizados, meu pai continua pintando, modelando, esmaltando e queimando cada peça como sempre fez. Aos quase 90 anos, ele mostra que algumas tradições sobrevivem porque alguém decide, todos os dias, continuar fazendo”, conclui Lana.

É exatamente isso que acontece naquela pequena loja e no ateliê de Vitória, onde Portugal e Espírito Santo se encontram por meio da arte centenária da cerâmica.

Serviço

A Gres Arte Cerâmica funciona na Avenida Dante Michelini, em frente ao restaurante Tarrafas, em Jardim da Penha, Vitória.

O espaço abre de quarta-feira a sábado, das 10h30 às 17h, e aos domingos, das 10h30 às 15h.

sobre nós

Diretor de conteúdo – Eduardo Caliman

Jornalista formado pela Ufes (1995), com Master em Jornalismo para Editores pelo CEU/Universidade de Navarra – Espanha. Iniciou a carreira em A Tribuna e depois atuou por 21 anos em A Gazeta, como repórter, editor de Política, coordenador de Reportagens Especiais e editor-executivo. Foi também presidente do Diário Oficial, subsecretário de Comunicação do ES e, de 2018 a 2024, coordenador de comunicação institucional no sistema OAB-ES/CAAES.

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