Oferta de componentes de ponta deve levar até 2028 para se normalizar e já afeta empresas que pretendem colocar projetos de inteligência artificial em operação
A corrida pela inteligência artificial esbarrou em um problema que vai além da tecnologia: faltam equipamentos. A escassez global de processadores, GPUs e SSDs de última geração, somada à alta dos preços e aos prazos maiores de entrega, está levando empresas brasileiras a rever seus planos de infraestrutura e buscar cada vez mais soluções em nuvem.
O cenário é apontado pelo estudo ISG Provider Lens Private/Hybrid Cloud Data Center Services 2026 Brasil, que prevê que a oferta desses componentes só deve se normalizar entre 2027 e 2028. Até lá, ampliar data centers próprios significa enfrentar uma disputa mundial por equipamentos especializados e custos mais elevados.
A situação ganha ainda mais peso diante do avanço da inteligência artificial dentro das empresas. Segundo o levantamento, três fatores devem influenciar as decisões de infraestrutura no país: o crescimento do uso da IA, o custo elevado de hardware especializado e as exigências relacionadas à soberania e à proteção dos dados. A tendência é de expansão dos modelos híbridos, combinando estruturas privadas com serviços de IA disponíveis em nuvens públicas.
Para Lucas Pires, Head de Infraestrutura e Cloud da Globalsys, a dificuldade de acesso aos equipamentos já interfere diretamente no planejamento das empresas. Projetos que dependeriam da compra de novos servidores podem levar meses para sair do papel, enquanto a contratação de capacidade disponível em nuvem permite acelerar testes e colocar aplicações de IA em produção sem esperar pela normalização da cadeia de suprimentos.
A migração, no entanto, não significa levar toda a operação para a nuvem pública. Informações sensíveis e sujeitas a regras específicas de governança podem permanecer em ambientes próprios ou privados, enquanto o processamento mais pesado, que exige GPUs de alto desempenho, é direcionado para estruturas onde existe capacidade disponível. É justamente essa combinação que fortalece o modelo de nuvem híbrida.
Outro movimento apontado pelo estudo é o avanço da automação das operações de tecnologia, acompanhado de controles mais rígidos. Em ambientes considerados críticos, empresas têm adotado mecanismos que mantêm a aprovação humana para determinadas decisões tomadas por sistemas de IA e registros capazes de permitir a auditoria das ações realizadas.
A expectativa é que esse cenário se mantenha nos próximos dois anos. Enquanto a oferta mundial de hardware de ponta não voltar à normalidade, a combinação entre nuvem pública, estruturas privadas e mecanismos de governança tende a ganhar ainda mais espaço nas operações de inteligência artificial das empresas brasileiras.
