Toda escola tem o seu pátio, e todo pátio tem a sua coreografia, que não muda de geração para geração por mais que mudem os uniformes, os aparelhos no bolso e os nomes dos envolvidos. Há o menino que provoca, quase sempre o mais franzino, o mais ressentido, o que carrega em silêncio um catálogo de pequenas humilhações e descobriu cedo que não precisa de punhos para vingá-las, bastando-lhe a língua e a paciência de sussurrar, na hora certa, ao ouvido certo, que fulano disse isso ou aquilo da sua mãe. Há o menino que briga, o que tem mais testosterona do que massa encefálica — a proporção, diga-se, costuma ser inversa —, que ouve o sussurro, incha o pescoço e atravessa o pátio já sem camisa, sem saber direito por quê e sem a menor curiosidade de saber. E há, encostado na parede da cantina, com a mochila bem fechada e a cara de quem apenas assiste, o real interessado, aquele a quem o resultado da briga aproveita, seja porque o perdedor lhe devia alguma coisa, seja porque a confusão lhe serve para esconder a prova que copiou, seja simplesmente porque a dor alheia, para certos temperamentos, é um espetáculo que não cobra ingresso.
O que briga perde. Perde o recreio, perde a nota de comportamento, perde o dente, perde a suspensão, que a mãe pagará em vergonha e o pai em silêncio constrangido no grupo de mensagens dos pais da turma. E perde, sobretudo, o que lhe sobrava em dignidade, que não era muito, posto que, se fosse, não teria ido atrás de um sussurro. O que provocou não perde nada, e ainda é chamado à diretoria como testemunha, onde declara, com a voz compungida que a ocasião exige, que até tentou (!) apartar. O que estava encostado na parede nem é chamado.
Eis a coreografia. Pode-se apenas mudar a idade dos bailarinos.
Pode-se, por exemplo, pô-la em escala de continente. As grandes potências — e aqui a história registra fatos que a diplomacia prefere chamar por outros nomes — sentaram-se em Berlim, no inverno de 1884, com um mapa da África e uma régua, e repartiram entre si territórios onde quase nenhum dos presentes havia posto os pés, traçando fronteiras que cortavam ao meio povos que viviam juntos havia milênios e juntavam sob a mesma bandeira povos que se detestavam havia outro tanto. Foi a semente plantada com método: gente que nunca tivera entre si mais do que as desavenças ordinárias de vizinhança ganhou, de presente, um motivo permanente para brigar. E brigaram, e brigam, e os mesmos que manejaram a régua voltaram depois vendendo o que se vende a quem briga — primeiro os fuzis, depois a proteção contra os fuzis, depois os empréstimos para pagar a proteção, depois os mediadores para negociar a paz que lhes convém, tudo faturado na moeda forte deles e pago no sangue fraco dos outros. O interessado, note-se, jamais atravessa o pátio sem camisa. Ele vende a camisa.
Que ninguém se console com a distância: o pátio é aqui.
Há no Brasil de hoje uma briga que se diz de direita contra esquerda, e que os que brigam sustentam com a ferocidade de quem defende a honra da mãe, embora um número considerável deles tivesse dificuldade em apontar, se lhes pedissem no plano estritamente geográfico, qual das duas mãos é a direita e qual é a esquerda. Brigam por valores que não sabiam ter até a semana passada, quando alguém os entregou prontos, embalados, com o rótulo e o inimigo já impressos na caixa, como quem terceiriza um serviço — e o conflito, convenhamos, é o serviço mais terceirizado da história humana. Brigam miseráveis contra miseráveis, miséria ora de bolso, ora de cabeça, com frequência das duas, e brigam em nome de quem há séculos vive do suor e do sangue alheio, de quem nunca meteu a mão na massa e não pretende começar agora, de quem, ao sentir que a boquinha periga, descobre num instante um novo motivo para que terceiros se engalfinhem no seu lugar.
Compreende-se, claro, a engenharia. É mais barato acender uma fogueira na casa do vizinho do que explicar o que se guarda no próprio quintal, e a fumaça, além de cobrir, aquece. Quem provoca a briga não paga as contas que fez em proveito próprio, porque o credor está ocupado brigando; não presta esclarecimentos, porque ninguém os pede no meio do tumulto; e, se por acaso perde — porque às vezes perde, as coreografias não são infalíveis —, retira-se do campo sem uma ferida sequer para lamber, lambendo de longe os lucros, e vai para o mais longe possível do cemitério, de onde, com a fama intacta de líder corajoso, anuncia a vingança dos soldados que mandou morrer pelas suas perspectivas exclusivas. Os soldados, esses, não anunciam nada. Estão no cemitério.
Alguém dirá que sempre foi assim, e dirá com razão, e é precisamente essa a parte que incomoda: que seja assim há tanto tempo e que continuemos atravessando o pátio ao primeiro sussurro, com a mesma falta de curiosidade do menino de pescoço inchado, sem perguntar quem sussurrou, por que sussurrou, e sobretudo quem está encostado na parede da cantina com a mochila fechada.
Porque a conta chega. Chega sempre. E não chega para quem encostou na parede, nem para quem sussurrou, nem para quem vendeu a camisa. Chega para o que brigou, que a paga primeiro com o pouco que tinha, depois com o que não tinha, e por fim com o que os filhos ainda não ganharam — a chamada conta histórica, que é o nome elegante que se dá ao prejuízo quando ele já atravessou uma geração. Quem paga a conta no final é quem nunca foi consultado sobre o cardápio.
E paga, o que é pior, com cara de quem achou que a briga era sua.
*Gustavo Varella é advogado, jornalista, professor e mestre em Direitos e Garantias Fundamentais pela FDV
