A força das parcerias e dos bons relacionamentos
A advocacia se constitui em muito estudo, trabalho, transpiração, ética, relacionamento, confiança, cumprir prazos imediatamente, prestar boas constas, respeitar e se dar ao respeito. Diante de colegas e autoridades e fundamentalmente, como diz Dona Noemia, minha primeira e atual cliente, “Doutor João a confiança é tudo”.
Por trás de cada causa bem conduzida e de cada prazo cumprido em situação adversa, há quase sempre uma rede de pessoas que contribuiu para aquele resultado. A advocacia é, antes de tudo, uma profissão de relacionamentos, e saber cultivá-los com respeito e espírito de colaboração é parte essencial do seu bom exercício.
Ser aprazível, amigável, gentil e solícito não significa ser submisso nem abrir mão de prerrogativas. Significa compreender que a forma como tratamos as pessoas influencia diretamente a maneira como seremos recebidos. O cumprimento cordial ao servidor do balcão, a gentileza com o estagiário, a paciência com o atendente sobrecarregado e o agradecimento sincero constroem, ao longo dos anos, uma reputação que nenhum cartão de visitas substitui.
O ordenamento reconhece esse valor. O Estatuto da Advocacia (Lei nº 8.906/1994), em seu artigo 6º, dispõe que não há hierarquia nem subordinação entre advogados, magistrados e membros do Ministério Público, devendo todos tratar-se com consideração e respeito recíprocos. O Código de Ética e Disciplina da OAB impõe ao advogado o dever de urbanidade, e o Código de Processo Civil, em seu artigo 6º, consagra o dever de cooperação entre os sujeitos do processo. A cooperação exigida pela lei floresce com muito mais facilidade onde há cordialidade e confiança.
Poucas profissões permitem transitar por ambientes tão diversos. Num mesmo dia, o advogado conversa com juízes, desembargadores, promotores, procuradores, delegados, servidores, peritos, gestores públicos e com o trabalhador humilde que busca ajuda pela primeira vez.
Cada encontro é uma porta. O estagiário do gabinete pode ser o magistrado de amanhã; o colega recém-formado que pediu orientação no corredor do fórum pode se tornar o parceiro que indicará clientes. As carreiras se cruzam de formas imprevisíveis, e as pessoas costumam lembrar com fidelidade de como foram tratadas.
Essas relações trazem, ainda, o conhecimento prático que não está nos livros e convites para eventos, comissões e projetos que ampliam a visibilidade profissional.
Entre advogados, a parceria se revela no colega que nos substitui numa audiência, que compartilha sua experiência numa área pouco conhecida, que nos indica um cliente ou que divide conosco uma causa complexa. Ninguém domina todo o Direito, e o profissional que sabe a quem recorrer presta serviço muito melhor do que aquele que, por vaidade, aceita tudo e entrega pouco. Vale lembrar que o adversário de hoje pode ser o parceiro de amanhã: é possível divergir com firmeza nos autos e apertar a mão do colega com sinceridade ao final da audiência.
A troca de favores, no seu sentido saudável, é essa reciprocidade natural: a informação compartilhada, a indicação, o modelo de peça emprestado, a orientação sobre um procedimento.
Tem, porém, um limite intransponível, que é a ética. Bom relacionamento não se confunde com tráfico de influência nem com a busca de privilégios perante quem deve ser imparcial. As boas relações servem para facilitar o diálogo e agilizar o que é legítimo, nunca para contornar regras. A confiança de anos se perde num único gesto impróprio.
Os ganhos são concretos, reputação sólida, fluidez no trabalho, indicação de clientes e aprendizado constante. Há também ganhos menos visíveis, como a qualidade de vida numa profissão desgastante e a existência de uma rede de apoio para os momentos difíceis.
Para cultivá-la, bastam atitudes simples: tratar todos com igual respeito, do porteiro ao presidente do tribunal; cumprir a palavra dada; retribuir gentilezas; participar da vida institucional da classe; acolher os mais jovens; e manter contato com as pessoas, não apenas quando delas precisamos.
A competência técnica é indispensável, mas não basta.
O conhecimento jurídico ganha força quando acompanhado de humanidade e da capacidade de construir pontes. A advocacia não se faz sozinha. Faz-se com pessoas, e é no modo como as tratamos que se revela a verdadeira grandeza do profissional.
*João Batista Dallapiccola Sampaio e Ben-Hur Farina são advogados.
