Pare de fingir que você não sabia.
Não da forma técnica, não com número de processo e nome de operação — mas sabia. Sabia do jeito que se sabe dessas coisas no Brasil: pela reputação que antecede a denúncia, pelo vocabulário elogioso que a classe média e a elite reservam para quem “conhece o jogo”, “tem trânsito”, “sabe se virar”. Antes de virar réu, o personagem já era aquele. E aquele era admirado.
O espanto que vem depois é mentira. Não inocência — mentira. Calculada, funcional, socialmente útil.
Quem se escandaliza em público está executando um rito de absolvição: ao vituperar contra o réu da vez, sinaliza que está do outro lado, que sua indignação é prova de sua distância moral do esquema. O escândalo vira espelho em que ninguém se reconhece — e é exatamente isso que ele precisa ser para funcionar. Não serve para iluminar. Serve para absolver. A plateia se lava na lama do réu e sai limpa.
É um negócio conveniente para todo mundo.
Para o sistema, porque o ciclo de indignação substitui a transformação — drena energia que poderia virar pressão real e a converte em barulho controlado, com prazo de validade. Para os próximos réus, porque o escândalo de hoje é o ensaio geral da impunidade de amanhã: o antecessor foi pego, processado, sobreviveu, voltou a circular — a lição não é “não faça”, é “não se exponha tanto”. E para a plateia, que é a parte mais cínica dessa equação, porque após o pico de indignação vem o que sempre vem: a normalização silenciosa, o acordo fechado longe das câmeras, o próximo escândalo tomando o lugar, e o réu de ontem voltando a ser recebido nas mesmas mesas, com o mesmo aperto de mão, e às vezes com mais respeito — porque sobreviveu.
Isso não é fraqueza de caráter. É cultura. É ethos. É o produto de um país que nunca separou de verdade o público do privado, que foi construído sobre a gestão dessa fronteira por quem tem acesso a ela, que tem no “jeitinho” não um traço pitoresco mas uma tecnologia social de captura — captura do Estado, das instituições, das consciências. A corrupção no Brasil não é anomalia. É, em boa medida, um dos sistemas. Paralelo, complementar, às vezes mais eficiente que o oficial.
O que muda a cada ciclo não é a prática. É o elenco.
E o elenco se renova porque a plateia deixa. Não por ingenuidade — por cumplicidade ativa. Porque no Brasil há um vocabulário inteiro, rico e sofisticado, para descrever com admiração disfarçada de ironia o talento para a pilantragem ainda não processada. “É esperto.” “Sabe o que faz.” “Conhece todo mundo.” Tradução: este aqui tem perfil, tem vocação, tem a arquitetura moral necessária — só ainda não teve a oportunidade de deflagrá-la formalmente. Quando tiver, o espanto será o mesmo. A indignação, idêntica. E a confraternização subsequente, inevitável.
O problema do brasileiro não é que tolera a corrupção.
É que a tolera depois de se indignar com ela — o que é moralmente mais grave, porque acrescenta ao conivente a pose do indignado. É a hipocrisia como estilo de vida coletivo. É a consciência que sabe, vê, nomeia — e no dia seguinte estende a mão.
O espanto não é o começo de uma reação.
É o fim dela. É onde a reação vai para morrer com honras de virtude.
*Gustavo Varella é advogado, jornalista, professor e mestre em Direitos e Garantias Fundamentais pela FDV
