A advocacia está entre as profissões mais antigas da humanidade, ao lado da agricultura, do fazendeiro, e do artesanato. Desde que existem conflitos entre pessoas, existe também quem se disponha a falar em nome de outrem, a defender uma causa alheia e a buscar, pela palavra e pelo argumento, uma solução justa, perfeita e regular. A própria Bíblia traz registros de pessoas que assumiam esse papel de intercessão e defesa em favor de terceiros, o que mostra como a função de advogar acompanha a história da civilização muito antes de se tornar uma profissão regulamentada.
No Brasil, a advocacia como profissão organizada tem uma data de nascimento bem definida. Em 11 de agosto de 1827, Dom Pedro I sancionou a lei que criou os primeiros cursos jurídicos do país, instalados em São Paulo e em Olinda. Antes disso, quem quisesse estudar Direito precisava se deslocar até Coimbra, em Portugal. Com a criação desses cursos, o Brasil passou a formar seus próprios bacharéis e lançou as bases da advocacia moderna nacional.
É por essa mesma razão histórica que 11 de agosto é celebrado também como o Dia do Estudante. As duas datas nasceram do mesmo marco legal, a criação de cursos superiores, o que reforça a ideia de que a formação jurídica e o exercício da advocacia caminham juntos desde a origem da profissão no país. Comemorar o advogado é, de certa forma, comemorar também aquele que ainda está em formação, o futuro profissional que carrega a mesma vocação de servir à Justiça.
A advocacia ocupa um lugar particular na estrutura da sociedade. O Poder Judiciário é formado por magistrados e servidores que ingressam, em regra, por concurso público. O Poder Legislativo e o Poder Executivo são compostos por representantes eleitos pelo voto popular. O advogado, por sua vez, não é eleito nem aprovado em concurso para exercer sua função junto ao cidadão. Após legalmente habilitado, ele é escolhido diretamente pelo cliente, que deposita nele sua confiança para conduzir uma causa, defender um direito ou orientar uma decisão. Essa escolha pessoal, renovada a cada novo caso, é o que dá à advocacia seu caráter único: a legitimidade do advogado vem da confiança que ele conquista, um a um, com cada pessoa que atende.
Essa relação de confiança não é apenas simbólica. A Constituição Federal, em seu artigo 133, estabelece que o advogado é indispensável à Administração da Justiça. Não se trata de uma frase de efeito, mas de um reconhecimento formal de que não há Justiça plena sem a presença do advogado. Dessa menção, a advocacia é a única profissão mencionada de forma expressa no texto da Constituição. É ele quem traduz o sofrimento e a expectativa do cidadão em linguagem jurídica, quem provoca o Judiciário, quem apresenta provas, quem sustenta teses e quem, muitas vezes, é a única voz que resta a quem se sente sem forças diante do Estado ou de outra parte mais poderosa.
Depois de mais de quatro décadas atuando nessa profissão e sacerdócio, posso dizer que a advocacia exige, além de conhecimento técnico, paciência, escuta e um compromisso diário com a ética. Cada processo carrega uma história de vida, uma expectativa e, muitas vezes, uma angústia que precisa ser acolhida antes de ser transformada em petição. É esse encontro entre técnica e humanidade que faz da advocacia uma profissão insubstituível. Quando uma prerrogativa do advogado é violada, quem efetivamente está sendo violada, é a sociedade.
Neste 11 de agosto de 2026, celebramos não apenas uma data no calendário, mas uma tradição que atravessa séculos, e que no Brasil ganhou forma própria com a lei de Dom Pedro I, que criou os cursos jurídicos em Olinda e São Paulo e ainda instituiu o título de Doutor aos Bacharéis em Direito. Celebramos ainda os estudantes de Direito e aos estudantes em geral, que hoje sonham em vestir a toga, a beca ou a indumentária da advocacia e amanhã serão os responsáveis por manter viva essa indispensável função de defender, orientar e representar quem precisa de Justiça.
