O empreendedor que movimenta 700 mil cocos por ano na Grande Vitória

Denis do Coco começou desempregado, transformou um ponto simples na Praia da Costa em uma rede de distribuição e teve a vida salva por um cliente cardiologista que identificou um grave problema no coração

Por Eduardo Caliman

Às 6h30 da manhã, quando boa parte da Praia da Costa ainda desperta para mais um dia, Adenilson Lima Correia já está trabalhando. Os cocos começam a ser organizados, o ponto é montado e os primeiros clientes logo aparecem. Ao longo do dia, centenas de pessoas vão passar por ali em busca de água de coco gelada, uma das bebidas mais associadas ao clima e ao estilo de vida do litoral capixaba.

Quando a noite chega, o trabalho ainda está longe de terminar. Depois de atender os últimos clientes, é preciso desmontar a estrutura, limpar o espaço e preparar tudo para o dia seguinte. O relógio normalmente marca entre 21h e 22h quando ele finalmente encerra a jornada. São cerca de 14 horas de trabalho por dia, de domingo a domingo, uma rotina que se repete há mais de uma década.

Mas para quem já enfrentou o desemprego e precisou recomeçar praticamente do zero, o esforço nunca foi motivo para desistir. Conhecido por milhares de capixabas como Denis do Coco, ele construiu uma das histórias mais interessantes de empreendedorismo popular da Grande Vitória. O que começou descarregando caminhões se transformou em um negócio que movimenta mais de 700 mil cocos por ano, abastece dezenas de vendedores e gera renda para diversas famílias da região.

O desemprego que virou oportunidade

A história começou em um período difícil. Sem emprego, Denis aceitou um serviço para descarregar um caminhão de cocos. O trabalho parecia apenas uma oportunidade temporária para garantir alguma renda, mas acabou abrindo o caminho para a atividade que mudaria sua vida.

Depois daquele primeiro contato, passou a acompanhar as entregas e conhecer melhor o funcionamento do negócio. Percorrendo as ruas de Vitória e Vila Velha, observava onde os vendedores compravam o produto, como funcionava a logística e quais eram os pontos com maior movimento. Sem perceber, estava aprendendo uma profissão.

Na época, ele não tinha qualquer experiência com o ramo. “Até então eu não entendia nada de coco. Nunca tinha mexido com isso.” Ainda assim, prestava atenção em cada detalhe, especialmente na forma como o antigo patrão comprava a mercadoria diretamente nas fazendas e abastecia os pontos de venda espalhados pela Grande Vitória.

Com o tempo surgiu a oportunidade de conseguir um espaço para trabalhar na Praia da Costa. Foi ali que nasceu o negócio que o tornaria conhecido por moradores, turistas e frequentadores da orla: “Sou muito grato por ter conseguido esse espaço para trabalhar. Foi aqui que tudo começou.”

O crescimento veio aos poucos. Com uma estrutura simples, Denis conquistou clientes pela qualidade do produto e pelo atendimento. Um dos diferenciais que mantém até hoje é oferecer ao consumidor a oportunidade de aproveitar não apenas a água, mas também a polpa do coco.

“Quando eu era ajudante, já via esse costume de abrir o coco para a pessoa comer. Achei que era um atrativo e mantive isso até hoje. O atendimento faz muita diferença.”

Com o passar dos anos, também ampliou a oferta de produtos, incluindo sucos naturais e outras opções voltadas ao público que busca hábitos mais saudáveis.

Hoje, além do próprio ponto de venda, Denis compra coco diretamente nas fazendas e abastece dezenas de vendedores espalhados por Vila Velha, Vitória, Serra e Cariacica. São trabalhadores que atuam nas praias, nos bairros e em diversos pontos da região metropolitana.

“Hoje eu compro e vendo. A gente busca o coco direto na fazenda e abastece outros vendedores.”

Os números impressionam. Atualmente, ele comercializa cerca de três caminhões por semana, com aproximadamente sete mil cocos em cada carga.

No verão, quando a procura aumenta significativamente, esse volume pode chegar a um caminhão por dia. “Água de coco é um produto tropical, saudável e vende em qualquer lugar. Ainda mais numa cidade quente como a nossa”, ressalta.

O cliente que salvou sua vida

Entre as milhares de pessoas atendidas ao longo dos anos, uma delas teve um papel decisivo em sua trajetória.

Há cerca de oito anos, durante mais um dia de trabalho na Praia da Costa, um cliente percebeu que Denis estava diferente. Ofegante, cansado e com dificuldade para falar, ele chamava a atenção de quem o observava mais atentamente.

O que Denis não sabia era que aquele cliente era cardiologista.

Preocupado com a situação, o médico se ofereceu para realizar exames. O diagnóstico revelou um grave problema cardíaco. Denis precisaria passar por uma cirurgia para implantar duas pontes de safena. “Foi um susto muito grande”, recorda.

Hoje, porém, ele prefere lembrar daquele episódio como uma bênção que surgiu justamente através do trabalho.

“Se não fosse esse cliente e o trabalho que me colocou em contato com tanta gente boa, talvez eu nem estivesse aqui hoje.”

Após a cirurgia e o período de recuperação, voltou para a rotina na Praia da Costa com ainda mais disposição. A experiência reforçou uma convicção que ele carrega desde o início da trajetória: “Trabalhar de verdade dá certo.”

Conquistas construídas coco por coco

Ao longo dos anos, Denis reinvestiu no próprio negócio e ampliou sua estrutura. Sem investidores, sem heranças e sem atalhos, foi construindo patrimônio gradualmente a partir do resultado do trabalho diário.

Hoje possui dois caminhões utilizados para buscar o produto diretamente nas fazendas, uma caminhonete para o trabalho, um carro para a família, dois terrenos e duas casas na Bahia.

“Graças a Deus consegui conquistar muita coisa. Tenho dois caminhões, caminhonete, carro, terrenos e construí duas casas na Bahia.”

Mais do que os bens materiais, ele destaca a possibilidade de oferecer segurança e dignidade para a família por meio de uma atividade que começou de forma simples: “Sou muito grato. Tudo o que eu tenho veio daqui. O coco mudou a minha vida.”

Mesmo após tantos anos de crescimento, Denis acredita que ainda há espaço para expandir o negócio. O principal desafio, segundo ele, não está na demanda pelo produto, mas na dificuldade de encontrar mão de obra comprometida.

“Todo empreendedor pensa em crescer. O problema hoje é encontrar pessoas que queiram trabalhar firme.”

Outra preocupação envolve o descarte das cascas de coco. Recentemente, ele investiu quase R$ 10 mil na compra de uma máquina trituradora para reaproveitar o material e buscar uma solução mais sustentável para o problema.

Enquanto planeja novos investimentos, continua mantendo a mesma rotina que começou há mais de uma década. Chega cedo, atende clientes, abastece parceiros e ajuda a movimentar um mercado que gera renda para dezenas de famílias na Grande Vitória.

“Quero continuar nesse ramo enquanto tiver saúde. É o que eu sei fazer e gosto de fazer. Quero melhorar o negócio, ajudar quem trabalha comigo e continuar cuidando da minha família.”

Na Praia da Costa, onde milhares de cocos são abertos todos os meses, a história de Denis mostra que grandes trajetórias de empreendedorismo nem sempre começam com grandes investimentos. Às vezes, elas nascem de uma oportunidade simples, da disposição para trabalhar e da coragem de acreditar que é possível construir algo maior.

sobre nós

Diretor de conteúdo – Eduardo Caliman

Jornalista formado pela Ufes (1995), com Master em Jornalismo para Editores pelo CEU/Universidade de Navarra – Espanha. Iniciou a carreira em A Tribuna e depois atuou por 21 anos em A Gazeta, como repórter, editor de Política, coordenador de Reportagens Especiais e editor-executivo. Foi também presidente do Diário Oficial, subsecretário de Comunicação do ES e, de 2018 a 2024, coordenador de comunicação institucional no sistema OAB-ES/CAAES.

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