Em entrevista ao News Espírito Santo, o ex-deputado estadual e ex-secretário de Estado da Saúde Anselmo Tozi relembrou um dos períodos mais turbulentos da história política capixaba: a crise institucional vivida pela Assembleia Legislativa em 2003. Ele descreveu aquele momento como um ambiente de forte tensão política, marcado por disputas judiciais, mobilização popular e tentativas de impedir mudanças na condução da Casa.
Eleito em seu primeiro mandato justamente naquele contexto, Tozi afirma que a população pressionava por uma renovação da política capixaba e por medidas de combate a privilégios e irregularidades. Segundo ele, a nova legislatura promoveu cortes de benefícios, extinguiu regalias e reorganizou a administração da Assembleia, em um processo que, nas palavras do ex-parlamentar, enfrentou forte resistência interna.
Ao longo da entrevista, Tozi também fez um balanço de sua atuação na saúde pública, destacando a implantação do Samu 192, a modernização da rede hospitalar e a criação de programas como a Farmácia Cidadã. Hoje filiado ao PSD e pré-candidato a deputado estadual, ele defende avanço na conexão entre o Parlamento e as demandas da sociedade, especialmente nas áreas de saúde, mobilidade e segurança.

A entrevista foi concedida ao diretor de Conteúdo do News ES, Eduardo Caliman. Confira os principais trechos:
Entrevista | Anselmo Tozi
News ES: A Assembleia Legislativa está com uma exposição pelos 190 anos da Casa. Gostaria de começar relembrando aquele período tenso de fevereiro de 2003, quando uma eleição da Mesa Diretora foi contestada na Justiça e havia deputados afastados por suspeitas de irregularidades. Como o senhor viveu aquele momento? O senhor estava no plenário quando oficiais de Justiça tentavam entrar para notificar a Mesa Diretora. Como foi aquele dia e aquele período para a história política do Espírito Santo?
Anselmo Tozi: Foi um momento muito conturbado. Aliás, aquele período foi precedido por um grande movimento da população em favor da mudança da situação da Assembleia. A campanha foi marcada por muita mobilização nas ruas, com as pessoas pedindo mudanças e empurrando a gente para esse movimento, assim como o então governador Paulo Hartung.
Aquele dia foi um dos mais difíceis que vivemos dentro da Assembleia. Estávamos acompanhando tudo lá dentro, enquanto a população estava na galeria e do lado de fora. As notícias chegavam a todo momento, muitas vezes desencontradas. Havia deputados experientes, que viviam aquela situação e conheciam bem o funcionamento da Casa, tentando criar um ambiente conturbado.
Só fomos perceber uma reversão da situação quando houve a decisão judicial e a composição que permitiu que assumíssemos a Assembleia para fazer as mudanças que o povo e a sociedade pediam.

Era o seu primeiro mandato como deputado estadual. Como foi chegar à Assembleia justamente nesse ambiente?
Eu tinha uma inexperiência muito grande do ponto de vista da participação político-partidária. Nunca tinha sido deputado. Fui eleito pelo PPS, juntamente com César Colnago, e chegamos num momento muito difícil.
Não havia nada mais difícil para enfrentar do que aquela situação, tentando evitar que o retrocesso continuasse na Assembleia. Foi uma experiência muito grande e muito positiva. Depois, conseguimos fazer as mudanças que pensávamos para a Assembleia e, posteriormente, para o governo do Estado.
De lá para cá, a Assembleia conseguiu sair das páginas negativas dos jornais. Como o senhor viu essa reconstrução?
Anselmo Tozi: Acho que o primeiro passo foi o que nós fizemos lá. Havia muitas penduricalhos, coisas que hoje são muito discutidas no país. Existiam auxílio-paletó, seguros, aposentadorias e outros benefícios. Nós acabamos com tudo isso.
Havia também uma situação absolutamente fora de qualquer padrão: toda a parte de compras e licitações da Assembleia era feita pela associação dos servidores, a Arsal. Tivemos que assumir o controle disso e acabar com esse modelo.
Também havia muita pressão para manter o famoso esquema das diárias e passagens. Muita gente não viajava, mas recebia as diárias. Muitas pessoas que estavam ali vinham do sistema anterior e queriam manter aquelas regalias. Nós tivemos que enfrentar isso.
Não foi fácil. Conseguimos economizar recursos, enxugar o orçamento e devolver dinheiro ao governo do Estado. Naquela época, o Espírito Santo vivia uma situação muito difícil, com salários atrasados e dificuldades de investimento. Aos poucos, fomos acertando a Assembleia e o governo foi acertando o Estado como um todo.
O senhor participou da Mesa Diretora como primeiro-secretário, função tradicionalmente responsável pela gestão administrativa e financeira da Casa.
Exatamente. O primeiro-secretário era o ordenador de despesas, mas dividíamos as responsabilidades com o segundo-secretário, que era Paulo Foletto, e com o presidente Cláudio Vereza.
Funcionávamos como uma espécie de triunvirato, assumindo a responsabilidade pelas despesas e pelas principais decisões da Casa, sempre ouvindo o Colégio de Líderes e os deputados.
Foi uma gestão muito importante para uma Casa que estava em situação complicada. Não foi fácil, porque havia muitas práticas arraigadas, regalias, facilidades, pessoas em cargos e funções que simplesmente não cumpriam suas atribuições. Tivemos que fazer cortes e uma limpeza administrativa.

Sofremos muita resistência e represálias, mas fizemos aquilo que prometemos na campanha e para o que fomos eleitos.
A política mudou bastante desde então, com as redes sociais e a polarização. Como o senhor vê a atuação parlamentar atualmente?
Mudou muito. Hoje há muita coisa instantânea e muita crítica. As pessoas falam mal umas das outras, mas muitas vezes não apresentam soluções ou não sabem fazer.
Acho que a primeira coisa importante é que quem exerce liderança pública, seja gestor ou parlamentar, precisa saber debater os temas, apontar os problemas e indicar soluções, mesmo que não seja o responsável direto por executá-las.
Nós fomos para a Assembleia e para o governo com a proposta de reorganizar o Espírito Santo, tirá-lo das mãos da corrupção e do crime organizado. Depois fui convocado para a Saúde e vimos isso também na gestão pública.
Depois da Assembleia, o senhor assumiu a Secretaria de Estado da Saúde, num momento importante para a implantação do Samu 192 e a construção de grandes hospitais.
Eu já tinha sido secretário de Saúde de Vitória durante oito anos e meio. Estruturamos a atenção primária e a saúde na capital. Vitória passou a ter indicadores muito importantes em saúde e educação.
Com essa experiência, fui para a Assembleia e, depois de dois anos muito difíceis, fui convocado para assumir a Secretaria de Estado da Saúde. Não tive nem como recusar.

Na Saúde, passamos a enfrentar outra crise: hospitais desorganizados, filas, falta de atendimento e problemas de gestão. Conversando com o governador e com toda a equipe, montamos uma estrutura baseada em planejamento e numa gestão técnica e profissional.
Buscamos os melhores profissionais, independentemente de serem aliados políticos ou não. O critério era a capacidade técnica.
Fortalecemos a atenção primária, estruturamos a rede de saúde e iniciamos a reforma e construção de hospitais. Surgiram o Hospital Central, o Hospital Estadual Dr. Jayme Santos Neves e o novo São Lucas.
Fomos buscar referências no Brasil e no exterior. Trouxemos experiências internacionais para construir hospitais mais modernos e preparados para urgência e emergência.
Também organizamos os perfis hospitalares, algo que antes praticamente não existia.
A construção e modernização da rede foi possível graças à organização financeira do Estado?
Sem dúvida. Um exemplo é a Farmácia Cidadã, que não existia. Antes, quem precisava de medicamentos de alto custo enfrentava muita dificuldade. O sistema era precário.
Nós estruturamos a Farmácia Cidadã, informatizamos o atendimento e regionalizamos o serviço em todas as regiões do Estado.
Quando chegamos, o gasto com medicamentos de alto custo era de cerca de R$ 14 milhões. Antes de eu deixar a Secretaria, já ultrapassava R$ 100 milhões.
O orçamento cresceu porque o Estado começou a resolver problemas históricos, eliminando desperdícios e investindo mais na saúde.
O governo federal ajudou naquele início, mas o Estado passou a investir fortemente com recursos próprios.
O próprio Samu 192 era financiado inicialmente com recursos da União, do Estado e dos municípios. Com o tempo, o Estado passou a assumir uma parcela maior desse financiamento.
Também apoiamos fortemente os hospitais filantrópicos, criando critérios e incentivos para melhorar indicadores e ampliar atendimentos.
O Hospital Evangélico é um exemplo dessa transformação.
Quanto tempo o senhor ficou à frente da Secretaria?
Fiquei seis anos consecutivos, de 2005 a 2010.
Qual o maior legado desse período?
O maior legado foi o planejamento e a estruturação da saúde capixaba. Trouxemos sistemas modernos de informatização, organizamos redes de urgência e emergência, oncologia e saúde materno-infantil.
Criamos o Hospital Materno Infantil em Vila Velha, ampliando significativamente sua capacidade.
Também ampliamos a realização de procedimentos de alta complexidade, como cirurgias cardíacas pediátricas, que antes eram realizadas fora do Estado.
Acho que o principal legado foi estruturar a saúde para que pudesse continuar crescendo ao longo do tempo.

O senhor é pré-candidato a deputado estadual pelo PSD. Como surgiu essa decisão?
Não estava nos meus planos. Eu estava trabalhando, cuidando da minha filha, mas, de repente, aconteceu uma mudança e decidi disputar novamente.
Filiei-me ao PSD e estou trabalhando nessa pré-candidatura porque acredito que ainda posso contribuir com o debate da saúde e com bons projetos para o Espírito Santo.
Como o senhor vê a saúde pública no Brasil hoje?
O SUS é uma referência mundial. Sou uma pessoa formada dentro do SUS.
Mas acho que precisamos corrigir alguns rumos. Ainda há muita coisa para fazer e melhorar. O Espírito Santo deu uma pequena contribuição nessa área, organizando serviços e mostrando que é possível fazer gestão com planejamento.
É preciso colocar os recursos no lugar certo, fortalecer a atenção primária e melhorar os indicadores de saúde da população.
Como o senhor avalia hoje o trabalho da Assembleia Legislativa e quais seriam suas prioridades num eventual mandato?
Acho que a Assembleia tem contribuições importantes, mas precisa estar mais conectada às necessidades da população e discutir mais os grandes temas.
Se eu voltar à Assembleia, minha principal contribuição será no debate da saúde, mas também em áreas como mobilidade, meio ambiente, saneamento e recursos hídricos.
O deputado precisa ter capacidade de debater os mais variados temas e perceber as demandas da sociedade.
