Vivemos em um mundo atravessado por telas. A atenção das pessoas é disputada por todo tipo de conteúdo e, não raramente, por desinformação. Nesse ambiente, a ciência nem sempre ganha o devido destaque e circulação, talvez por exigir elementos que nem sempre se ajustam bem à pressa e à lógica de entrega permanente das plataformas digitais.
Quando a ciência surge apenas como um conjunto de fórmulas, nomes difíceis e conceitos sofisticados, ela fica distante das perguntas concretas que movem a curiosidade do público. Quando aparece excessivamente simplificada, perde aquilo que tem de mais importante: sua capacidade de explicar, de tensionar nossas certezas e de ampliar nossa compreensão do mundo.
Entre esses dois extremos, há uma tarefa urgente: construir uma cultura científica pública, capaz de aproximar o conhecimento especializado das conversas cotidianas sem abrir mão do rigor. Não se trata de “traduzir” a ciência para uma linguagem mais simples, como se o público fosse incapaz de lidar com ideias complexas. Trata-se de criar caminhos para que essas ideias possam circular socialmente, informando, encantando e ajudando a sociedade a compreender melhor os desafios do presente e do futuro.
A física quântica é um caso especialmente interessante. Poucas palavras científicas despertam tanto fascínio quanto “quântica”. O termo aparece associado a certo mistério, ao futuro, à tecnologia, à consciência, à inovação e, muitas vezes, a promessas vagas que pouco têm a ver com ciência. Justamente por isso, a palavra “quântica” exige cuidado. A física quântica é estranha, mas não é mágica. É contraintuitiva, mas é também uma das teorias mais rigorosas, precisas e bem testadas da ciência moderna. Quando o termo “quântico” passa a ser usado para legitimar qualquer afirmação, produto ou promessa, o resultado não é aproximação com a ciência, mas confusão. A divulgação científica tem, nesse ponto, uma tarefa delicada: preservar o fascínio, que é real, sem abrir mão da responsabilidade conceitual. Em outras palavras, transformar encantamento em compreensão.
Durante boa parte do século XX, a física quântica foi decisiva para dar base à eletrônica moderna, que tornou possível boa parte da infraestrutura tecnológica da vida contemporânea. Antes de se tornar tecnologia, no entanto, tudo isso dependeu de avanços profundos em ciência fundamental.
Hoje, algo semelhante parece estar em curso com o avanço das tecnologias quânticas: novos dispositivos baseados no controle fino da matéria e da luz. Ainda não sabemos exatamente quais serão todos os seus impactos, nem em que velocidade chegarão ao cotidiano. Mas já sabemos o suficiente para reconhecer que esse campo mobiliza interesses científicos, econômicos, educacionais e geopolíticos.
Por isso, a discussão sobre física quântica não pode permanecer restrita aos laboratórios ou aos departamentos universitários. Ela precisa chegar também à escola, aos meios de comunicação, aos espaços culturais e às políticas de formação científica.
No Espírito Santo, essa aproximação já encontra pontos de apoio importantes. A reativação recente da Secretaria Regional da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência no Espírito Santo, a SBPC-ES, fortalece a articulação entre comunidade científica, educação básica, instituições públicas e sociedade. Ao lado disso, a instalação do IN-FOTON, ligado à pesquisa em fotônica e tecnologias portadoras de futuro, mostra que o estado também começa a se posicionar em agendas científicas e tecnológicas estratégicas. São iniciativas que podem ajudar a transformar a curiosidade pública pela ciência em formação, participação e desenvolvimento.
A física moderna nos ensina, de forma preciosa, que a ciência não é apenas um conjunto de respostas prontas, mas uma maneira de formular perguntas, testar ideias, reconhecer limites e construir conhecimento coletivamente. Quando os estudos sobre elétrons, materiais e semicondutores avançaram, não se poderia imaginar plenamente a sociedade digital em que vivemos hoje. A ciência básica abriu caminhos que depois se transformaram em tecnologia, indústria, comunicação, trabalho, cultura e novas formas de organização social. Com as tecnologias quânticas, talvez estejamos diante de um processo comparável.
Há sinais claros de que novos conhecimentos científicos podem reorganizar setores inteiros da vida social. Por isso, aproximar o público dos temas científicos não é apenas uma questão de curiosidade intelectual, mas uma necessidade democrática. Decisões sobre tecnologia, meio ambiente, saúde, inteligência artificial, energia, educação e inovação dependem cada vez mais de uma população capaz de compreender os debates científicos que moldam o presente e o futuro. Sem cultura científica, a sociedade fica mais vulnerável à desinformação, ao uso de termos científicos como estratégia de convencimento sem base real e à concentração das decisões nas mãos de poucos especialistas ou grupos econômicos.
A revolução quântica, que já começou a reorganizar agendas científicas e tecnológicas no mundo, precisa ser também uma oportunidade para repensarmos a educação científica, a formação de professores, a comunicação pública da ciência e o lugar da escola na preparação para o futuro. Aproximar a ciência da sociedade é, no fundo, ampliar o direito de participar das grandes conversas que definirão esse futuro.
Gabriel Luchini é doutor em Física pela Universidade de São Paulo e professor da Ufes
