Flavia da Veiga – “A NR-01 não é o problema. É o diagnóstico”

Quando a NR-01 atualizou as obrigações das empresas para incluir riscos psicossociais, o debate se dividiu como sempre: de um lado, trabalhadores celebrando uma conquista; de outro, empresários preocupados com a exposição legal. Ambos têm razão parcial. E ambos estão olhando para a árvore sem ver a floresta.

A floresta é muito maior do que uma norma regulamentadora.

Em 2024, o Brasil registrou 472.328 afastamentos por transtornos mentais, alta de 67% em relação ao ano anterior, o maior número da série histórica, segundo o Ministério da Previdência Social. A OMS estima que depressão e ansiedade custam à economia global US$ 1 trilhão por ano em produtividade. O Banco Mundial calcula que os prejuízos da saúde mental no Brasil equivalem a 4,7% do PIB, cerca de R$ 554 bilhões em 2024. O Gallup aponta que o desengajamento dos trabalhadores custou US$ 438 bilhões à economia mundial só em 2024. Isso não é estatística. É o retrato de uma crise civilizatória.

É preciso ser preciso sobre um ponto que o debate frequentemente embaralha: saúde mental é, em sua essência, uma responsabilidade individual. Cada pessoa carrega sua história, sua biologia, seus vínculos, variáveis que nenhuma empresa criou e nenhuma política corporativa resolve sozinha. Mas a empresa pode ser corresponsável pelo adoecimento. E isso não é ideologia, é ciência. Ambientes com liderança abusiva, jornadas cronicamente exaustivas e ausência de reconhecimento ativam respostas de estresse crônico que, como demonstrou o neurocientista Richard Davidson, da Universidade de Wisconsin, alteram estruturalmente a atividade cerebral. O problema não está só na cabeça das pessoas, está também nos ambientes que criamos para elas.

A NR-01 reconhece exatamente isso. Ao pedir que empresas mapeiem riscos psicossociais, a norma não criminaliza o empresário, que, vale dizer, também adoece. Uma pesquisa de 2024 mostrou que 66% dos CEOs nos Estados Unidos atribuem a maior parte do seu estresse ao trabalho. O adoecimento organizacional não escolhe hierarquia.

Mas responsabilizar exclusivamente as empresas é uma simplificação que não resolve o problema. As pessoas chegam ao trabalho carregando o peso de um sistema de saúde que não as alcança, de vínculos comunitários que se desfizeram, de uma infância que não as preparou para a autorregulação emocional. Nenhuma política de RH resolve o que a sociedade como um todo não enfrenta.

É aqui que o exemplo de Dubai importa. Em 2016, os Emirados Árabes Unidos criaram o primeiro Ministério da Felicidade do mundo e lançaram um programa nacional com meta de elevar o índice de felicidade da população a 95%, reunindo deliberadamente governo, empresas, comunidades e indivíduos em torno de uma agenda comum. A grande decisão não foi a meta. Foi reconhecer que bem-estar é um projeto coletivo, que exige a corresponsabilidade de todos os setores da sociedade. O Brasil precisa de uma conversa assim.

No campo corporativo, é preciso desmontar um equívoco: pressão e desafio não são opostos ao bem-estar. São ingredientes legítimos do trabalho. O que adoece não é a performance, é a performance sem suporte, sem sentido e sem humanidade. A pesquisadora Amy Edmondson, de Harvard, demonstrou que equipes em ambientes de segurança psicológica são mais inovadoras e produtivas. A Universidade de Oxford mostrou que trabalhadores mais felizes são, em média, 13% mais produtivos. Indivíduos mais fortes produzem organizações mais fortes, e isso é o que a ciência da felicidade corporativa, aplicada com rigor, oferece.

A crise de saúde mental é o maior desafio de saúde pública do século XXI. Não será resolvida por uma norma, por uma empresa ou por uma consultoria. Será enfrentada quando cada setor — governo, empresas, sistema educacional, famílias e indivíduos — assumir a parte que lhe cabe.

A NR-01 não é o problema. É um diagnóstico parcial de algo muito maior. E diagnósticos bem feitos são sempre o primeiro passo para a cura.

*Flávia da Veiga é CEO e fundadora da BeHappier Consultoria

sobre nós

Diretor de conteúdo – Eduardo Caliman

Jornalista formado pela Ufes (1995), com Master em Jornalismo para Editores pelo CEU/Universidade de Navarra – Espanha. Iniciou a carreira em A Tribuna e depois atuou por 21 anos em A Gazeta, como repórter, editor de Política, coordenador de Reportagens Especiais e editor-executivo. Foi também presidente do Diário Oficial, subsecretário de Comunicação do ES e, de 2018 a 2024, coordenador de comunicação institucional no sistema OAB-ES/CAAES.

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