Imigração, pertencimento e a memória curta de quem também já foi de outro lugar
A festa e o que ela não diz.
Entre os dias 5 e 28 de junho de 2026, Santa Teresa — aquela cidade serrana do Espírito Santo que o tempo tratou de fazer italiana sem pedir permissão à geografia — celebra mais uma edição da sua Festa do Imigrante. Haverá polenta, vinho colonial, bandeiras tricolores, músicas em dialeto vêneto que os bisnetos cantam sem entender a letra e com uma emoção que dispensa tradução. Haverá orgulho — e o orgulho é legítimo, é merecido, é bonito de se ver. Há muito a comemorar. Há muito a agradecer. Há, sobretudo, muito a reconhecer naquilo que esses homens e mulheres e crianças que chegaram ao Espírito Santo entre o final do século XIX e o início do XX construíram com as mãos, a teimosia e uma fé que devia ser grande para sobreviver à travessia.
Mas existe, a par das festas maravilhosas e da memória afetiva dessa população espetacular e dos filhos que gerou em terras capixabas, uma questão de fundo que comumente fica obliterada — ora pelos que fazem vistas grossas a ela por conveniência ideológica, ora pelos que se acham e continuam se achando credores permanentes desse acolhimento, ora pelos que enxergam o mundo apenas até o muro dos próprios quintais. É uma questão que afeta o planeta inteiro, que sempre afetou, e que hoje mostra traços de uma crueldade sem precedentes na visibilidade — não porque seja mais cruel do que foi no passado, mas porque os meios de comunicação não existiam com essa imediatez quando os bisavós de Santa Teresa embarcavam em Gênova sem saber se voltariam. Hoje, a travessia se faz ao vivo. O afogamento também.
A dívida que virou identidade
Há uma dívida que o Espírito Santo raramente admite — não porque a negue, mas porque a incorporou tão profundamente à própria pele que deixou de enxergá-la como dívida e passou a chamá-la de identidade. As colônias italianas da Serra, de Venda Nova do Imigrante, de Domingos Martins e da própria Santa Teresa; os descendentes de pomeranos que ainda hoje falam uma língua que a Alemanha quase esqueceu; os sírio-libaneses que construíram o comércio de Vitória com as mãos e o crédito na palavra; os japoneses que transformaram a cafeicultura do estado; os alemães que plantaram no sul do Espírito Santo uma outra Europa possível — todos chegaram carregando muito pouco nas malas e muito mais do que isso na obstinação.
Deles herdamos a gastronomia, o traço arquitetônico das cidades do interior, os sobrenomes que tropicalizamos sem cerimônia, a fé que se misturou com outras fés e produziu algo que não é bem de nenhum lugar e por isso mesmo é completamente nosso. A própria língua que falamos no estado — esse português capixaba com suas entonações que os mineiros acham italianas e os cariocas acham alemãs — é resultado disso. O Espírito Santo que existe hoje é, em sentido bastante literal, uma obra coletiva de pessoas que vieram de fora e encontraram aqui não apenas terra para plantar, mas chão para se tornar outra coisa.
O Brasil, visto de fora, sempre foi essa promessa — o país que absorve, que mistura, que não pergunta de onde você veio antes de lhe oferecer um prato de comida. Há generosidade real nessa imagem, e não é inteiramente mito. A miscigenação brasileira, com todas as suas violências históricas e contradições não resolvidas, produziu também uma capacidade singular de reinvenção cultural, uma porosidade entre tradições que países mais homogêneos simplesmente não têm. A culinária, a música, a língua que falamos — esse português que engoliu o tupi, o iorubá, o italiano, o árabe e os devolveu transformados — são evidências de que algo extraordinário aconteceu aqui. E os imigrantes estão no centro disso.
Ninguém deixa a própria terra por vontade
Mas há uma conversa que a narrativa celebratória da imigração costuma adiar com elegância: ninguém deixa a própria terra por vontade. Não da forma como a imigração em massa se dá, não na escala em que ela ocorre. O italiano que embarcou em Gênova para o Brasil no final do século XIX não estava em busca de aventura — estava fugindo da fome, da miséria, da servidão disfarçada de arrendamento rural, de um norte da Itália recém-unificado que prometeu muito e entregou pouco aos camponeses do Vêneto. O sírio que desembarcou em Santos no início do século XX não veio por curiosidade exótica pelo trópico — veio porque a Síria sob o jugo otomano oferecia apenas pobreza e recrutamento forçado. O venezuelano que hoje atravessa a fronteira brasileira com uma mochila e uma criança no colo não escolheu ser imigrante — foi empurrado por um regime que sequestrou um país inteiro e o transformou em armadilha.
A imigração, na sua forma predominante e histórica, é uma derrota antes de ser uma aventura. É o reconhecimento, doloroso e muitas vezes irreversível, de que o lugar onde se nasceu não tem mais nada a oferecer além da possibilidade de continuar sofrendo. Isso não diminui em nada a coragem dos que partiram — ao contrário, torna essa coragem ainda mais impressionante, porque não é a coragem do herói que escolhe o risco, mas a do ser humano comum que não tem outra saída. Confundir essas duas coisas é, além de erro histórico, uma forma de desumanizar quem partiu: romantizar a travessia é uma maneira confortável de não olhar para o que a causou.
Os fluxos mais recentes repetem a mesma lógica com outras geografias: os haitianos que chegaram após o terremoto de 2010 e hoje compõem a força produtiva de frigoríficos e obras no Sul do país; os venezuelanos que cruzaram Roraima a pé durante anos, num êxodo que o Brasil demorou a nomear com a seriedade que merecia; os bolivianos que costuram em São Paulo a madrugada inteira para que o brasileiro de classe média compre roupas baratas sem perguntar quem as fez; os africanos que tentam alcançar a Europa em embarcações que não foram feitas para o Mediterrâneo e afundam com uma regularidade que o noticiário já não considera extraordinária. Cada um desses grupos traz consigo uma história, uma habilidade, uma dignidade que o mundo receptor frequentemente se recusa a ver.
Os problemas que a festa não cobre
Seria desonesto, no entanto, passar em silêncio pelos problemas reais que a imigração massiva impõe às sociedades que recebem. A integração de populações vulneráveis coloca pressão sobre sistemas de saúde, educação e assistência social que, no Brasil, já funcionam no limite. Há tensões concretas no mercado de trabalho informal. Há choques culturais que não se resolvem com boa vontade e que exigem política pública séria, planejamento e recursos. Há, sobretudo, uma tendência estrutural de que os imigrantes mais pobres — os que chegam sem rede de proteção, sem capital, sem idioma — sejam absorvidos nos estratos mais precários da economia, numa espécie de reedição contemporânea das condições que os fizeram partir.
Os Estados Unidos vivem hoje uma versão agudizada desse impasse. O debate sobre imigração na fronteira sul está contaminado por uma desonestidade simétrica: de um lado, os que recusam enxergar que o fluxo migratório massivo pressiona serviços e cria tensões reais em comunidades que não têm estrutura para absorver populações inteiras; do outro, os que tratam cada imigrante como ameaça cultural ou criminal em potencial, esquecendo convenientemente que os Estados Unidos são, eles mesmos, uma nação construída sobre imigração — frequentemente violenta, frequentemente forçada. A Europa repete o mesmo ciclo com apenas uma ou duas gerações de atraso: acolhe retoricamente, rejeita pragmaticamente, e depois se espanta com a ascensão de partidos que transformam o medo do estrangeiro em plataforma eleitoral.
A diferença entre hoje e o século XIX não está na natureza do fenômeno — está na velocidade com que ele se torna visível. Quando os bisavós de Santa Teresa chegaram ao Espírito Santo, a travessia durava semanas e acontecia longe de qualquer câmera. Hoje, o bote que afunda no Canal da Mancha é filmado em tempo real. O migrante que morre na fronteira do Texas tem um nome que pode ser pesquisado. A crueldade sempre esteve lá — o que mudou foi a impossibilidade de fingir que não estava.
A gramática do favor
O problema mais profundo, porém, não é econômico nem logístico. É moral. E tem a ver com a forma como as sociedades que recebem imigrantes constroem, quase automaticamente, uma gramática do favor.
Nessa gramática, o imigrante não é alguém que chegou porque o país de destino também se beneficia — e se beneficia imensamente, como a história do Espírito Santo demonstra com eloquência. O imigrante é tratado como alguém que recebeu uma concessão, uma gentileza, um gesto de magnanimidade da população local. E concessões se cobram. Favores criam hierarquia. A quem deve gratidão não tem o mesmo status de quem a exige.
Essa lógica produz algo mais danoso do que a xenofobia declarada: produz uma condescendência estrutural que é menos visível precisamente porque se apresenta como generosidade. O descendente de imigrante bem-sucedido, já assimilado, já miscigenado, já com sobrenome abrasileirado, participa dessa condescendência sem perceber que seus próprios antepassados foram seus alvos. A memória é curta porque precisa ser — lembrar que o bisavô chegou sem documentos e foi tratado como mão de obra barata complicaria demais a postura de superioridade que se tem diante do haitiano que hoje faz o mesmo percurso, na mesma condição, com a mesma coragem e a mesma falta de alternativa.
Nos EUA, esse ciclo tem registro histórico e endereço preciso. Comunidades imigrantes italianas, irlandesas, polonesas, chinesas, mexicanas — todas foram, em seu momento, o grupo que a América não queria. Todas foram objeto de leis restritivas, de violência institucional, de estereótipos degradantes que hoje parecem absurdos. E todas, uma vez assimiladas, participaram com entusiasmo da exclusão do grupo seguinte. É um ciclo documentado, previsível, e resistente à consciência histórica com uma tenacidade que deveria envergonhar mais do que envergonha.
Agradecer sem esquecer, celebrar sem condescender
Quando a polenta for servida em Santa Teresa neste junho, quando o vinho colonial circular entre as mesas e a música em vêneto soar nas praças, vale parar um instante antes do brinde. Não para diminuir a festa — a festa é justa, é necessária, é uma forma de honrar quem veio antes. Vale parar para lembrar por que eles vieram.
Não vieram porque o Brasil era generoso. Vieram porque a Itália era cruel com os seus pobres. Não ficaram porque foram acolhidos com facilidade — ficaram apesar das dificuldades, apesar do preconceito, apesar da língua estranha e do clima estranho e da terra que precisava ser dominada antes de dar fruto. Ficaram porque tinham a obstinação dos que não têm para onde voltar. E o que construíram com essa obstinação é, hoje, o orgulho que a festa celebra.
Reconhecer isso não é diminuir a comemoração. É aprofundá-la. É entender que o verdadeiro legado do imigrante não é apenas a culinária ou a arquitetura ou o sobrenome — é a demonstração de que seres humanos, quando tratados com dignidade e deixados em paz para trabalhar, constroem coisas que nenhum projeto de Estado teria condições de planejar. E é entender, por extensão, que o venezuelano que hoje dorme numa rodoviária de Boa Vista, o haitiano que carrega sacos num frigorífico de Santa Catarina, o senegalês que vende relógio na Avenida Paulista — todos eles são, neste exato momento, a versão contemporânea dos bisavós de Santa Teresa. Com a mesma fome. Com a mesma coragem. Com a mesma ausência de alternativa.
Tratar essas pessoas como seres humanos de segunda categoria não é apenas injustiça. É amnésia. É esquecer que somos, todos nós, de algum lugar que um dia ficou pequeno demais para nos conter — e que tivemos a sorte, ou a graça, de encontrar outro lugar que nos coubesse. Nem todos tiveram essa sorte. Os que não tiveram merecem, no mínimo, que não lhes cobremos o ingresso.
A festa de Santa Teresa é bonita. E os bisavós que ela homenageia merecem que a gente entenda, de verdade, por que eles vieram.
Gustavo Varella é advogado, jornalista, professor e mestre em Direitos e Garantias Fundamentais pela FDV
