Jardim reúne as iniciais de pacientes e reconhece famílias que, em meio à perda, autorizaram a doação
O Hospital Vitória Apart inaugurou, na sexta-feira (25), um memorial em homenagem às famílias que autorizaram a doação de órgãos e tecidos de seus entes queridos. Instalado na Serra, o espaço preserva a memória dos doadores e reconhece uma decisão que pode ajudar outras pessoas a continuar vivendo.
As iniciais dos pacientes foram incorporadas a diferentes pontos do hospital, como o jardim ao lado da capela e a recepção. A cerimônia também teve uma apresentação do coral da instituição, em homenagem às famílias que permitiram que outras histórias continuassem mesmo diante da perda.
A iniciativa integra as ações do Setembro Verde, mês de conscientização sobre a importância da doação de órgãos e tecidos para transplantes. Para Rafael Brum, diretor técnico do Hospital Vitória Apart, o memorial é uma forma de reconhecer a generosidade das famílias.
“A decisão de autorizar uma doação acontece em um momento de muita dor, mas pode representar uma oportunidade enorme para outras pessoas e suas famílias. É um ato de generosidade que merece ser reconhecido e lembrado” , destaca.

Um olhar que continua
Entre as histórias lembradas no memorial está a de Robson José Fernandes, que morreu em 2021 após um acidente. As córneas dele foram doadas. A filha, Amanda Fernandes, não sabe quem as recebeu, mas encontrou na doação uma forma de manter vivo o vínculo com o pai.
“Às vezes dá vontade de saber para onde ele está olhando. A gente sabe que não tem como, porque é um protocolo, mas isso acaba confortando o coração da gente. É saber que, de alguma forma, o olhar dele ainda está por aí. Ele está vendo a vida ainda. E eu sinto gratidão, porque respeitamos o desejo dele e conseguimos ajudar outras pessoas”, afirma Amanda Fernandes.
Entenda as etapas da doação de órgãos
1. A equipe tenta salvar o paciente
A prioridade é sempre tratar o paciente. Em algumas situações, porém, apesar dos esforços médicos, a lesão é irreversível e ocorre a morte encefálica. A partir daí, começa um processo delicado para a família.
2. A morte encefálica é confirmada
O diagnóstico segue um protocolo rigoroso, realizado por médicos habilitados, para comprovar a perda completa, definitiva e irreversível das funções do cérebro e do tronco encefálico.
“Talvez essa seja uma das coisas mais difíceis de compreender quando uma família está dentro de uma UTI: Como meu familiar pode ter morrido se o coração dele ainda está batendo? E essa dúvida é absolutamente compreensível. O coração pode continuar batendo porque a medicina intensiva consegue, temporariamente, manter a oxigenação e a circulação com aparelhos e medicamentos. Por isso, morte encefálica é morte, mesmo que aparelhos mantenham temporariamente a respiração e os batimentos cardíacos”, explica Lívia Frigeri, intensivista e coordenadora médica do Hospital Vitória Apart.
3. A família recebe acolhimento e informações
Depois da confirmação da morte encefálica e da avaliação sobre a possibilidade de doação, a equipe conversa com os familiares e esclarece suas dúvidas.
4. A família autoriza a doação
No Brasil, a doação depende da autorização da família, formalizada por meio de um termo. Por isso, conversar sobre o desejo de ser doador ainda em vida é importante.
“No caso de maiores de 18 anos, a autorização pode ser dada por familiares até o segundo grau de parentesco. Para menores de idade, é necessária a autorização da mãe e do pai, ou do responsável legal. A família, portanto, tem o direito civil sobre o corpo e sobre essa decisão”, esclarece Andreia Pereira, presidente da comissão de doação de órgãos do Hospital Vitória Apart.
5. O potencial doador é avaliado e a captação é organizada
Exames e avaliações clínicas identificam quais órgãos e tecidos podem ser utilizados com segurança. A Central Estadual de Transplantes coordena o processo, enquanto equipes especializadas realizam a captação. A distribuição segue os critérios do Sistema Nacional de Transplantes e as necessidades dos pacientes que aguardam transplante.
6. Órgãos e tecidos são encaminhados para transplante
Órgãos sólidos precisam ser transportados rapidamente, pois têm tempo limitado de viabilidade fora do organismo. Tecidos, como a córnea, passam por processos específicos de preparação e podem ser utilizados posteriormente.
“O tempo é muito precioso na doação. O coração tem cerca de quatro horas para ser transplantado após a captação, enquanto rins e fígado têm aproximadamente seis horas. Já a córnea pode ser transplantada até seis meses depois da retirada, pois passa por um processo de preparo. Cada órgão e tecido tem um tempo diferente de viabilidade, por isso precisamos correr contra o relógio”, detalha Andreia.
7. Uma doação pode beneficiar várias pessoas
Uma única doação de múltiplos órgãos pode ajudar várias pessoas. O número de beneficiados pode chegar a nove, dependendo dos órgãos e tecidos que possam ser aproveitados.
“Se ele doa os dois rins, por exemplo, eu consigo beneficiar dois pacientes. Se doa as duas córneas, no caso do tecido ocular, são mais dois. Se doa o coração, mais uma pessoa; o fígado, às vezes, pode beneficiar até duas pessoas. E, se houver possibilidade de doação dos pulmões, mais uma. Então, a gente fala que um único doador pode beneficiar muitas vidas, aproximadamente de oito a nove pessoas”, explica Andreia.
