João Gualberto – “Lacy Ribeiro”

Foi publicado, nos primeiros meses deste ano de 2026, portanto recentemente, o livro Lacy Ribeiro: obras completas, tendo como coordenador da edição o professor Francisco Aurelio Ribeiro e, como editor, o escritor e jornalista José Barreto Mendonça. Um trabalho primoroso sob todos os aspectos, que mostra a dedicação de dois estudiosos e amigos da grande escritora, que foi brutalmente assassinada, há 13 anos, aos 64 anos, em sua casa, num bairro da Serra.

O delegado aposentado José Barreto escreveu um outro livro, em 2023, chamado Quem Matou Lacy Ribeiro? A policial civil e escritora capixaba assassinada em 03/01/2013, que contém, na capa, outra pergunta: crime de latrocínio ou de amor bandido? Na narrativa policial investigativa, o autor faz um levantamento minucioso da morte de Lacy, que merece ser lido pelos que se interessam pela vida e pelas obras dela. Um bom trabalho.

É um relato vigoroso das inúmeras contradições que cercam o processo e da demora de 10 anos em descobrir os assassinos. Há lapsos demais para serem apenas questões burocráticas que retardaram a descoberta da autoria do crime bárbaro; afinal foram 13 facadas, uma delas no pescoço, onde a lâmina quebrou e ficou enterrada. Muito bem fez o ex-delegado ao levantar muitas questões que tiveram como resultado a elucidação do crime.

A coletânea, que inclui toda a produção de Lacy Ribeiro em um livro de 499 páginas, foi conduzida pelo professor Francisco Aurelio, que também é o autor de um prefácio muito esclarecedor, no qual situa, no tempo e na vida literária do Espírito Santo, a importância da obra que ele reuniu e organizou. Nele, ficamos sabendo que ela nasceu em Barra de São Francisco, em 1948, tendo vindo para Vitória para trabalhar e estudar aos 16 anos, chegando aqui no fatídico 31 de março de 1964, data de péssima memória, pois foi o dia em que os militares deram o seu golpe, que nos privou de liberdade, instituiu a censura, prendeu e matou em pavorosas sessões de tortura.

Lacy tornou-se adulta no mesmo momento em que o Brasil mergulhava em trevas, e isso marcou enormemente a sua obra. Além disso, nos anos 1960 e 1970, Vitória foi palco de uma mudança muito grande em seu tecido social. Antes, concebida ao longo da Primeira República pelas elites capixabas para ser a sua “cidade presépio”, foi invadida, em seus mangues e morros, por uma massa miserável e faminta. Todo esse universo em transformação foi captado de forma extraordinária pela autora.

O Avenida República: Diário da Madrugada é uma obra maior dentro da coletânea. Publicada em 1987, mostra uma cidade já transformada pela presença dessa nova legião de moradores. Fernando Tatagiba, outro grande escritor dessa fase, amigo de Lacy, registra, na orelha da primeira edição do livro, que ela mergulha fundo no dia a dia da cidade, mostrando uma outra avenida que não é vista pelos olhos da nossa burguesia. É a passarela dos marginais, homossexuais, prostitutas, pedintes, meninos perdidos. Para ele, trata-se de um livro que mostra paixão pela cidade de Vitória, um pulo profundo na ferida exposta que ninguém quer ver ou aceitar.

Entretanto, acredito que o ponto alto dessa incrível coletânea de romances, poesias e contos de Lacy Ribeiro seja o seu último trabalho: Paixão de Cárcere, no qual mostra as entranhas de sua paixão por um detento, um depoimento autobiográfico corajoso, que revela as intimidades de seu amor com um homem encantador e, ao mesmo tempo, muito perverso. Ela o chama, no romance, de “enxugador de lágrimas”. Isso porque ele primeiro provoca um clima de violência e agressão, verbal ou não, e depois se desculpa e enxuga as lágrimas que provocou. Todos nós conhecemos esses tipos.

Ela foi ao céu e ao inferno várias vezes com essa sua paixão. A leitura do livro nos prende e encanta, mas, ao mesmo tempo, nos mostra como é difícil vencer uma quase loucura. O prisioneiro, pintor sensível e homem cortejador e cortês, tem muitas faces, contraditórias. Foi condenado por ter matado, de uma empreitada, 29 pessoas ligadas ao tráfico em Belo Horizonte, a mando de um grupo rival. Foi assim que veio para o Espírito Santo, onde continuou a cometer crimes de várias ordens: roubos, tráfico e assassinatos.

Esse amor bandido, intenso e mortal, faz do romance de Lacy uma obra viva, pujante e cheia de realidades. Um grande livro, mas não o único brilhante de toda a coleção, que merece ser lida pelos que gostam de entender a profundidade da alma humana.

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Diretor de conteúdo – Eduardo Caliman

Jornalista formado pela Ufes (1995), com Master em Jornalismo para Editores pelo CEU/Universidade de Navarra – Espanha. Iniciou a carreira em A Tribuna e depois atuou por 21 anos em A Gazeta, como repórter, editor de Política, coordenador de Reportagens Especiais e editor-executivo. Foi também presidente do Diário Oficial, subsecretário de Comunicação do ES e, de 2018 a 2024, coordenador de comunicação institucional no sistema OAB-ES/CAAES.

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