João Gualberto – “Os 90 anos do intérprete do jeitinho brasileiro”

Roberto DaMatta fez, no dia 26 de julho último, noventa anos. Todos eles vividos com intensidade intelectual. Ele anima as ciências sociais no Brasil desde a publicação de Carnavais, Malandros e Heróis, no final dos anos 1970, uma leitura sociológica da sociedade brasileira que revolucionou a forma como muitos viam o Brasil.

Para comemorar a idade, fez uma bela festa em um salão de eventos em Niterói, onde mora há longos anos. Foi uma festa bonita, cheia de significados para a vida desse homem que envelheceu sem perder a juventude das ideias e seu amor pelo Brasil. Tive a honra de ser convidado e comparecer. Foi encantador ver aquele amigo tão querido e tão longevo com a felicidade de um quase menino.

Para ele, com seu eterno bom humor e sarcasmo, eu imagino que esta data está sendo vivida com muita intensidade. Muitas entrevistas foram feitas com ele para registrar essa passagem do tempo. Quero chamar a atenção, especialmente, para uma delas: aquela que foi publicada pelo Estadão, onde mantém sua coluna semanal. Nela, ele diz que, em Carnavais, Malandros e Heróis, “queria abordar o povo brasileiro, essa multidão tão sem rosto e sem voz, junto a uma elite tão rouca de gritar por suas prerrogativas e seus direitos”. Creio que consegui muito disso; pelo menos os seus leitores mais fieis reconhecem isso.

Quando lhe foi indagado sobre os pilares da nossa democracia, ele respondeu que “uma democracia exige imparcialidade. Como fazer isso dentro de uma sociedade familística? Se você virar governador, não vai dar um emprego ao seu amigo de infância que está desempregado? Ao primo que está passando necessidade? Ao irmão que tem um emprego sazonal, arriscado? As obrigações do parentesco corroem a imparcialidade da administração pública do Brasil há séculos”.

É justamente por esse tipo de questão que ele tão bem levanta ao longo de sua vasta obra, que ele tem como subtítulo de seu livro maior a frase: para uma sociologia do dilema brasileiro. No livro, ele mostra que o nosso sistema é dual: de um lado existe um conjunto de relações pessoais estruturais, sem as quais ninguém pode existir como ser humano completo. De outro, há um sistema legal, moderno, individualista, fundado no indivíduo, modelado e inspirado na ideologia burguesa.

Para DaMatta, de Carnavais, Malandros e Heróis – seu livro seminal –, é esse sistema feito de leis, feito por quem tem relações poderosas, que submete as massas. Assim, o sistema legal em sociedades com esqueleto hierarquizante não só amplia a representatividade de amplos setores do sistema, mas tende a sufocar esses setores por meio do jugo impessoal da lei. Daí a profunda verdade sociológica do ditado “aos inimigos a lei; aos amigos, tudo”. Poderíamos reescrever assim: aos relacionados, tudo; aos que não têm relações, a lei.

É nesse contexto hierarquizado, onde as pessoas comuns são brutalizadas por uma ordem sem qualquer preocupação com a democratização das relações na sociedade, que surge uma outra leitura muito forte de DaMatta: o carnaval. Ele está junto daquelas instituições perpétuas que nos permitem sentir nossa própria continuidade enquanto grupo. É o que acontece, por exemplo, num jogo da seleção brasileira, quando sentimos, gritamos e falamos como o Brasil, nesse imenso ardil reificador que é o jogo de futebol.

Ele dá enorme valor ao papel dessas dramatizações, como o carnaval e o futebol, para que possamos suportar o peso do cotidiano em um país tão injusto, de um sistema legal ainda tão fechado em valores aristocráticos, de uma realidade muito dura. É, então, preciso dramatizar, inverter a ordem, como se faz no carnaval, onde o que conta são os corpos nus, as provocações e onde as pessoas massacradas no seu dia a dia vivem momentos de glória em desfiles monumentais de escolas de samba.

Ele termina a introdução ao livro da seguinte forma: “desejaria que o leitor o visse e entendesse como uma contribuição paralela à de tantos outros, no sentido de interpretar, uma perspectiva qualitativa, intuitiva, comparativa e por meio do estudo das dramatizações, uma sociedade complexa como é o Brasil.

Desejaria, pois, vê-lo somado às contribuições básicas de Gilberto Freyre, Caio Prado Júnior, Sérgio Buarque de Holanda, Florestan Fernandes e tantos outros que, como eu, estavam somente certos do seu trabalho e convictos de que vale a pena correr o risco do erro para procurar entender melhor não uma sociedade ou um sistema abstrato, mas uma terra sem a qual o mundo fica deslocado. Pois, acima de todas as divergências, interpretações, metodologias e perspectivas, jaz o Brasil, que é maior que tudo.”

sobre nós

Diretor de conteúdo – Eduardo Caliman

Jornalista formado pela Ufes (1995), com Master em Jornalismo para Editores pelo CEU/Universidade de Navarra – Espanha. Iniciou a carreira em A Tribuna e depois atuou por 21 anos em A Gazeta, como repórter, editor de Política, coordenador de Reportagens Especiais e editor-executivo. Foi também presidente do Diário Oficial, subsecretário de Comunicação do ES e, de 2018 a 2024, coordenador de comunicação institucional no sistema OAB-ES/CAAES.

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