Um estudo internacional com participação do professor e pesquisador da Universidade Federal do Espírito Santo, José Geraldo Mill, foi destaque na capa da Nature, uma das publicações mais prestigiadas do mundo na área científica. A pesquisa trouxe novas descobertas sobre a formação genética e as migrações dos povos indígenas das Américas, apontando que os indígenas sul-americanos descendem de pelo menos três grandes ondas migratórias ao longo da história.
A revista Nature é considerada uma das publicações científicas mais importantes e respeitadas do mundo, reunindo pesquisas de alto impacto em áreas como genética, medicina, física, meio ambiente e tecnologia. Estudos publicados na revista passam por rigorosos processos de revisão científica e frequentemente influenciam debates acadêmicos e avanços científicos em escala global.

Coordenado pela geneticista Tábita Hünemeier, do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo, o trabalho analisou 128 genomas completos de indígenas pertencentes a 45 comunidades étnicas de oito países da América Latina, incluindo Brasil, Argentina, Bolívia, Colômbia, Equador, México, Paraguai e Peru. O estudo também reuniu informações genéticas antigas e modernas para reconstruir como ocorreu o povoamento do continente americano e como essas populações se adaptaram a ambientes extremamente diferentes ao longo de milhares de anos.

A pesquisa identificou evidências de pelo menos três grandes dispersões humanas para a América do Sul, incluindo uma terceira onda migratória vinda da Mesoamérica há cerca de 1.300 anos — descoberta considerada uma das principais novidades do estudo. Os pesquisadores também encontraram sinais de continuidade genética em diferentes regiões do continente ao longo de mais de 9 mil anos.
Outro ponto destacado pelos cientistas foi a enorme diversidade genética dos povos indígenas americanos, ainda pouco representada nos bancos genômicos globais. Segundo o estudo, mais de um milhão de variantes genéticas identificadas nos indivíduos analisados nunca haviam sido registradas anteriormente em populações de outras partes do mundo.
O professor José Geraldo Mill destacou a relevância científica da pesquisa e o fato de o estudo ter alcançado a capa da Nature.
“O artigo foi o destaque da capa da Nature. O fato de as Américas terem sido o último continente a ser povoado pelos humanos faz com que a genética possa ser usada como uma ferramenta mais precisa e acessível para mapear como se deu esse processo”, afirmou.
Mill também ressaltou a diversidade ambiental encontrada no continente americano e como isso influenciou a evolução genética dos povos indígenas.
“Outro fato que chama muito a atenção é que a América é o único continente a se estender de norte a sul com variações de condições climáticas extremamente diversas. Povos que vivem nos Andes a cerca de 4 mil metros e outros que vivem ao nível do mar tiveram que se adaptar a meios tão diferentes. A seleção natural determinou a preservação de genes ou de mutações que permitiram isso”, explicou o pesquisador.
Além das descobertas históricas e antropológicas, os pesquisadores afirmam que o estudo também pode trazer impactos futuros para a medicina e a compreensão de doenças relacionadas à genética, metabolismo, fertilidade e resposta imunológica. Os cientistas identificaram sinais de adaptação genética ligados à sobrevivência em grandes altitudes, resistência a infecções e processamento de energia pelo organismo.
A pesquisa também reforça a necessidade de ampliar a presença de populações indígenas em estudos genômicos internacionais, permitindo uma representação mais completa da diversidade genética humana e contribuindo para avanços em pesquisas médicas voltadas às populações tradicionais.
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